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O lado bom das coisas

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Os filmes e a política do cineasta paulistano Daniel Ribeiro. Por Otavio Chamorro

Odete Roitman, Salomão Hayalla, Norma ou Max. Vira e mexe, o formato telenovelesco “quem matou?” é pauta na mesa de jantar ou no Facebook dx brasileirx. Imagine então em 1995, quando o país tentava descobrir quem era o serial killer que tinha matado a torto e a direito em A próxima vítima, novela de Sílvio de Abreu, exibida pela Rede Globo.

 

Só que não foi exatamente esse o mistério que afetou um jovem de 13 anos, nascido e criado no Tatuapé, zona leste de São Paulo. Ele estava se descobrindo gay e ficou encantado com uma trama paralela da novela. A história de amor entre Jefferson e Sandrinho foi o que marcou Daniel Ribeiro.

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Daniel Ribeiro (no centro) durante as filmagens de seu novo filme. (Foto de Guilherme Freitas.)

“Quando eu era adolescente, eu gostava do poder que a televisão e o cinema tinham em mim. Quando vi aquela novela, falei: ‘Eu quero fazer isso, eu quero dizer isso que ela está dizendo. Olha que bonito esse casal, olha como eles se amam, olha como a homossexualidade não deve ser vista como é hoje em dia’. Aquilo foi muito forte pra mim.”

 

Pouco mais de dez anos depois, Daniel se formava em audiovisual pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e estreava seu primeiro curta-metragem, Café com leite, um estouro de crítica e audiência desde a estreia. Com mais de 4 milhões de visualizações no Youtube, a trama gira em torno de um casal gay tendo que cuidar de um menino de dez anos após a morte dos pais. “É tudo tratado de uma forma familiar para qualquer um. É sobre família.” Para Daniel, unir esse tema universal com a agenda de discussões da sociedade é o que motiva o interesse por seus filmes:

 

“São filmes que tratam de personagens gays num momento em que a homossexualidade está em pauta. Isso é essencial. São filmes relevantes no debate com a sociedade. Esse tema não se esgota. Eu achava que ele se esgotaria em algum momento. Em 2008, a questão da homossexualidade parecia que estava caminhando pra uma coisa positiva, de aceitação. De repente, tem uma reviravolta. Veio uma onda conservadora que ninguém esperava. Esse tsunami Feliciano, que coloca os gays e os direitos dos gays em pauta. O tema voltou a ser importante. A ser inesgotável, de certa forma”.

 

 

Segundo Daniel, sua intenção nunca foi provocar. Até porque, para ele, dois homens de cueca na cama não são uma provocação. Para a cineasta Vera Egito, essa é a maneira de dizer: Sim, acostumem-se, a história tem este elemento, o amor entre homens. “Enquanto o filme se desenvolve, percebemos que Daniel fala de seres humanos. Fala de homens com defeitos, medos, qualidades, e que nesse caso amam outros homens. Os personagens de Daniel não precisavam ser homossexuais para que aquela história fosse contada. E aí está sua sagacidade como autor. A orientação afetiva das pessoas não é a principal característica delas, afinal. Não é o que as define. É apenas um aspecto dentre muitos outros mais importantes à sociedade.”

 

Ainda colhendo os frutos do sucesso de Café com leite, Daniel Ribeiro lançou o segundo curta-metragem, substituindo a família por outro tema comum a qualquer audiência: apaixonar-se. Em Eu não quero voltar sozinho, ele tratou do amor entre dois adolescentes:

 

“Eu quis mostrar como o amor nasce de um lugar que é bonito, ele não nasce da perversão. Muitos adolescentes se identificavam com esse discurso. Não é que eles queiram ver. Eles querem dizer também, mostrar pros outros, para a mãe, para a família: olha como pode ser bonito o que eu sou”.

 

A história de Leonardo, Gabriel e Giovana já foi vista por mais de 2 milhões de internautas no Youtube. Para Daniel, o apelo do seu filme está justamente na identificação que o tema causa na plateia:

 

“Você poderia substituir os personagens por quaisquer outros. Não seria exatamente a mesma história, mas o descobrir, o se apaixonar. Alguém que você não espera e se apaixona. E não saber se a pessoa gosta de você, e ficar ansioso. Isso é comum para todo mundo. Acho que está aí a força”.

 

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Mesmo nunca tendo sofrido diretamente nenhuma agressão deliberadamente homofóbica, Daniel não pode dizer a mesma coisa de seu filme. Eu não quero voltar sozinho teve sua veiculação censurada no Acre (para saber mais sobre o caso, clique aqui). Estudantes evangélicos de uma escola estadual difundiram o boato de que estavam sendo exibidos em sala de aula os filmes do “kit gay”, como ficou vulgarmente conhecido o material do programa Escola sem Homofobia. Produzido via Ministério da Educação e radicalmente condenado pela bancada cristã fundamentalista no Congresso, o programa havia sido recém-interrompido por ordem da presidenta Dilma.

 

“Me incomoda muito a manipulação da informação. Ninguém quis saber a verdade, isso é uma das coisas mais tristes. Cada um escolhe a verdade em que quer acreditar, utiliza o discurso mais apropriado. É triste o medo dessa força conservadora, que não tem coragem de responder com a verdade. Isso foi em 2010, 2011. E a pressão só cresce. Mas a contrapressão não tem força. Os cineastas locais até tentaram ir contra, tentaram reincluir o filme no catálogo, mas não foram fortes o suficiente.”

 

Para ter uma ideia da boataria propagada com a suspensão de Eu não quero voltar sozinho, até o maior arauto da desinformação nacional, o blogueiro Reinaldo Azevedo, resolveu dar sua opinião. E os ataques ao filme não pararam aí. Nesta edição da Geni, Lia Urbini conta outro ataque que o filme sofreu, neste caso numa escola pública de São Paulo.

 

 

Os dois curtas-metragens de Daniel fogem tanto dos estereótipos da grande mídia como da abordagem da violência homofóbica. Tratam o tema com leveza e um olhar otimista. Para Vera Egito, a sutileza é a arma mais poderosa contra o preconceito: “É o aspecto mais admirável na construção de uma narrativa. Daniel Ribeiro é um contador de histórias. Seus filmes carregam o espectador sem que ele perceba, envolvem a audiência no universo daqueles personagens de forma prazerosa. Não há didática, não há autoritarismo. Há o convite para acompanhar uma jornada humana. Daniel não agride ninguém, ele conquista. E conquistar alguém é vencer sua resistência. Sutil e contundente”. Juntos, os dois curtas participaram de 180 festivais e ganharam 115 prêmios, incluindo o Urso de Cristal no Festival de Berlim para Café com leite.

 

Além dos filmes, Daniel Ribeiro coproduziu um projeto que, com a força da internet, mostrou a indignação com a realidade homofóbica do Brasil. A partir do choque causado pelo brutal assassinato de um menina lésbica pelo pai e o irmão de sua namorada, em Itarumã, no interior de Goiás, Daniel se uniu a dois amigos e juntos criaram o projeto #EuSouGay (veja o blogue e o Tumblr), no qual pessoas postaram fotos demonstrando seu apoio aos direitos LGBT e seu orgulho em ser gay.

 

“Até hoje eu fico emocionado quando assisto àquele vídeo. É uma força muito grande, a foto das pessoas, aquela trilha produzida por um pessoal incrível, que topou participar de graça. Foi um projeto que veio de um lugar muito bonito, das pessoas desesperadas com o que está acontecendo, com o que aconteceu naquele momento e acontece hoje em dia. É aquele desespero de falar: ‘Não é possível que a gente tenha que continuar discutindo esse assunto’. E foi uma resposta muito bonita, uma resposta positiva, que tem a ver com os meus filmes. Quando eu faço os curtas eu não fico lá tentando falar: ‘Olha, como estamos sofrendo’. É o contrário: ‘Olha o lado positivo, olha como pode ser bonito’. E o #EuSouGay também era isso. Era um monte de gente sorrindo, com a plaquinha. Várias histórias com pessoas que se assumiram por causa do projeto, falaram com os amigos e pediram ajuda. Foi uma resposta muito positiva e eu gosto do lado positivo das coisas.”

 

 

Daniel Ribeiro, com 31 anos, taurino com ascendente em Leão, militante LGBT e de esquerda, atualmente finaliza o seu primeiro longa-metragem, Todas as coisas mais simples (título provisório), com previsão de lançamento para meados de 2014. O filme parte da mesma trama de Eu não quero voltar sozinho.

 

“A maior diferença é que tem mais personagens. O curta se centrava no universo dos três. O mundo exterior mal existia. Isso funciona no curta, estamos desenvolvendo uma coisa interna. No longa, tem o mundo presente influenciando nas decisões. Está lá para criar conflito e mostrar que as coisas não são tão fáceis. No curta, é mais simples. Já no longa, o caminho não é o mesmo.”

 

Em Todas as coisas mais simples, as vontades do protagonista Leonardo vão além do apaixonar-se. “A família é superprotetora, a mãe não o deixa sozinho em casa. Ele busca a independência. A história envolve outras coisas além de ser gay. Ele quer ter privacidade, fazer as coisas por si mesmo. E a cegueira o atrapalha nessa busca.”

 

Enquanto termina a montagem do filme, o cineasta mantém a militância virtual. O interesse pela política (“ela é a conciliação do que é legitimamente diferente. Não é o bem contra o mal. São vários pontos de vista juntos”) pautará seus trabalhos seguintes: Daniel quer produzir seu próximo roteiro tendo como cenário o Brasil das manifestações, do fortalecimento da direita conservadora e da dilaceração e desarticulação da esquerda. Enquanto a história ainda é gerada, ele tem apenas uma certeza:

 

“Eu sempre vou querer colocar personagem gay nos meus filmes. Não importa do que eu esteja falando. Sobre política, sobre desigualdade social. Hoje, os gays são sub-representados. E, pra mim, interessa ter esse ponto de vista de quem é gay. É o que eu acredito. E é uma verdade de muita gente também. É você brigar com o Feliciano, é você responder pra ele”.

 

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Ilustração: Tiago Kaphan.

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