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TUTTOMONDO | O sangue sem poder

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Enfim, a cura da aids. Só que não. Por Marcos Visnadi

Era uma mulher pobre, de meia-idade, que fingia não me ver na sala. Além de nós dois, estavam mais três psicólogas, que ora conversavam com ela, ora explicavam o caso dela pra mim. “Sabe, Marcos, a Maria ficou um tempo sem tomar os remédios porque o pastor da igreja disse que ela estava curada. Né, Maria?” A mulher assentia com a cabeça, desviava os olhos, resmungava um “é” apressado. “Aí demorou pra gente convencer a Maria de que dá pra viver muito bem com o HIV, mas tem que se tratar, não pode parar de tomar a medicação, porque ainda não tem cura. Né, Maria?”

 

Foi a única reunião que eu participei. As três psicólogas não tinham muito o que me dizer e ficavam meio perdidas. Eu sei tudo que há pra saber sobre a doença, afinal. Sim, sim, uma vida normal, saudável, longa etc. Claro, os remédios, posso sacar o FGTS, alimentação, não tem cura, mas os avanços da ciência, você é jovem, cada vez que eu ia ao postinho do meu bairro, específico para DSTs e aids, eu me sentia um peixe de aquário treinado para nadar no oceano. E, tchibum, tinham me atirado ao mar, sozinho, mas eu sabia como tudo funcionava. Em volta, os outros peixes (parecem autóctones) não tinham tanta sorte, coitados. Dona Maria era um deles.

 

“É”, ela deve ter dito, “me falaram que eu estava curada, eu pensei ‘como assim, tenho que tomar remédio se não tem mais nada?’.” “Mas aí você entendeu, né, que a carga viral indetectável é diferente da ausência do vírus no corpo, né?” Outro “é” resmungado a contragosto.

marcos visnadi  revista geni cecilia silveira (2)

O deus que cura mas também devasta

 

“Sabe, Marcos”, uma delas se virou pra mim, “a gente tem recebido alguns casos assim, e está aumentando, como o da Maria. De pessoas que às vezes o pastor diz que estão curadas, e a pessoa acredita e para de tomar os medicamentos.” Mandamento número um do soropositivo em tratamento: JAMAIS deixe de tomar os remédios. Quando você começa, tem que continuar pra sempre e sempre todo o sempre, amém. E é melhor nem começar do que tomar errado, me alertou o médico.

 

Dona Maria apertava uma mão na outra, acho que tendo dificuldade de duvidar do poder de Deus. Eu queria tecer gravatas nas próprias tripas desses pastores salafrários. E pendurá-los nos postes da cidade pelo pescoço. Cadê o seu milagre agora? Cadê o sangue de Jesus? O sangue contaminado de Jesus. As células T em forma de cruz adormecendo o vírus antes do dízimo, escorrendo pela barba e pelos olhos que fitam o céu. “Pai, pai, por que me abandonaste?” Os olhos de Maria fitavam o chão, depois a cadeira ao lado dela, onde uma sacolinha de plástico guardava documentos, papéis de exame e os comprimidos, uma prova de que nenhum milagre tinha acontecido.

 

Depois de explicarem pra ela como tirar um novo RG, para requerer um benefício a que ela tinha direito, a reunião se encerrou, ela se despediu de mim com impaciência, as psicólogas sempre com o olhar admirado de bom menino que eu sou, inteligente, educado, um peixe-beta, praticamente, devo ser mesmo bem vistoso. Saía do postinho me sentindo cada vez mais derrotado, descolorido, sem ter com quem conversar, e imune a todos os males que o mundo reserva a todo mundo, imune a Deus, à ciência, à psicologia. Com um vírus inofensivo e letal nadando em mim.

 

As tripas dos mentirosos

 

Lembrei dessa história no mês passado, quando a capa da Superinteressante trouxe em letras garrafais: ENFIM, A CURA DA AIDS. Vou aprender a tricotar, assim poderei também tecer gravatas com as tripas de editores mentirosos e de magnatas corruptos do mercado editorial. Não vai sobrar um poste limpo nesta cidade depois que eu pendurar minha raiva por aí. Li a reportagem enquanto esperava, por mais de uma hora, o ônibus pra ir pra casa (donos do transporte público, me aguardem!), e, atenção, spoiler: não, não existe cura coisa nenhuma. Existem experimentos, tratamentos, tentativas. Alguns sucessos isolados e incertos numa epidemia contida em números assombrosos – e que vitima, cada vez mais, gente pobre e de países pobres. Nenhuma cura.

 

Deve ser um misto de irresponsabilidade, ganância e sadismo o que leva pessoas a produzir uma capa dessas, numa revista de grande circulação, num país em que mais de 10 mil pessoas morrem de aids por ano. Francamente, não sei. Me conforta – um pouco – não ser amigo de editores nem de pastores que se acham arautos de uma verdade inexistente e que não se importam se, para manter a pose, têm de prometer uma salvação que eles não podem entregar. Antes só do que mal acompanhado? Tanto eu quanto a Maria saímos sozinhxs daquela reunião, e nunca mais nos topamos.

 

Arrisco a dizer que a cura da aids é o que menos interessa. Nos anos 80, os Estados Unidos foram o país com maior número de pessoas infectadas no mundo. Hoje, é a África do Sul. Se descobrirem uma cura, quem será curado? Por que, num país em que o tratamento é público e gratuito, mais de 10 mil pessoas morrem anualmente de uma doença com a qual “dá pra viver normal”, da qual ninguém deveria morrer?

marcos visnadi  revista geni cecilia silveira (1)

 

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Ilustração: Cecilia Silveira.

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celso amici – 2 de setembro de 2013 - 10:45

aceitar a ideia de cura de nossa expectativa irreal e a ignorância em boa fé, dado que cada ser humano faz o esforço solitário de lidar com peso maior dos mistérios da vida e suas vicissitudes.

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