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TUTTOMONDO | Oito metros de tripa

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Se eu tivesse que escolher um diagnóstico para dizer que, depois dele, a minha vida mudou, talvez o HIV nem fosse o primeiro da lista. Ter depressão é bem mais complicado. Por Marcos Visnadi

 

Talvez a tristeza fosse falta de ferro no sangue, algum hormônio desequilibrado, mas o médico nem me ouviu muito e já sentenciou, categórico: é depressão. Eu precisaria tomar uma tonelada de antidepressivos durante pelo menos um ano, talvez mais. Se não, corria o risco de morrer por vontade própria, sendo que “vontade” é uma palavra que não se aplica a essa doença.

 

Por via das dúvidas, fiz um hemograma completo. Como de costume, fiz o teste de HIV. Foi aí que descobri que era soropositivo e a minha vida mudou. Se bem que, pensando agora, se eu tivesse que escolher um diagnóstico para dizer que, depois dele, “a minha vida mudou”, talvez o HIV nem fosse o primeiro da lista. Ter depressão é bem mais complicado.

 

Limites e escolhas

 

O HIV me deu raiva, medo, ansiedade. Também me deu coragem pra olhar a aids – e a vida – de frente. A depressão, além de tristeza, falta de vontade, a única coisa que ela me dá é vergonha. De repente eu entendo a reação de quem nem quer saber se está com HIV e que, quando sabe, cala, se omite, esconde o vírus do maior número de pessoas possível. Pra mim, a aids nunca foi um tabu, apesar de não ser bolinho. Com a depressão é diferente.

 

Primeiro porque não tem como não desconfiar das coisas. A gente olha a história da medicina, vê a indústria farmacêutica numa perspectiva crítica, e não tem como confiar nos caras. Vê que o consumo de Ritalina no Brasil cresceu 775% em dez anos, pensa na quantidade de merda química que fazem a gente engolir como se essa fosse a nossa única opção, imagina a quantidade de grana gasta em operações de marketing para promover pílulas que prometem paz de espírito.

 

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E, pra piorar, a depressão não é um vírus. Ela é uma categoria abstrata, não verificável por exames, apenas pela autoridade inquestionável de um médico bastante questionável. Filósofxs e sociólogxs contemporânexs dizem que a felicidade é um mecanismo de controle social imposto pelos poderes dominantes, e que a depressão seria um sintoma desse momento em que vivemos, mais do que uma doença individual. Dá vergonha aceitar esse diagnóstico porque parece uma limitação intelectual.

 

Não bastasse isso, parece uma limitação moral. Você tem tudo pra ser feliz. Tem gente que tem muito menos e não reclama da vida. Você já tentou fazer ioga? Acupuntura? Ir na igreja? Toma remédio! Quanto mais você tenta falar o que está sentindo, menos consegue. E todo mundo sabe viver melhor do que você. Um trecho deslocado de um poema da Adélia Prado: “Eu não servia pra ter nascido,/ pra comer com boca, andar com pés,/ e ter dentro de mim oito metros de tripa”. A gente se sente meio assim: deslocada, sem servir no próprio corpo.

 

Mas chega um momento em que você não tem outra escolha: ou se mata ou continua vivendo. Todo dia é esse momento. No caso do HIV, a depressão fica ainda mais difícil. Para não desenvolver a aids, você precisa se cuidar: tomar remédios, fazer exercícios físicos, se alimentar direito, não esquecer da vacina contra a gripe. Não tem outra escolha: ou faz isso ou fica doente e morre. Aí é uma sinuca de bico: pra viver, você precisa querer viver. Pra querer viver, você tem que conseguir querer alguma coisa. Depois de dois anos tentando fazer ioga e acupuntura (escapei da igreja!), me rendi à psiquiatria e comecei a tomar, desconfiado, os antidepressivos.

 

Se eu virar comediante

 

Segundo pesquisa do Instituto de Infectologia Emilio Ribas, de São Paulo, 53% dxs soropositivxs que interrompem o tratamento do HIV o fazem por causa de depressão. Outra pesquisa do mesmo instituto mostra que 26% das mulheres com HIV sofrem de depressão, enquanto que, entre homens gays soropositivos, essa taxa vai a 35%, e ambas são bem maiores do que a de 5%, atribuída à população em geral.

 

Como eu não entendo de estatísticas e cansei de googlar, não vou botar aqui outros números que poderiam ser curiosos. Por exemplo, qual a taxa de depressão em gays comparada à de héteros? E entre travestis e transexuais? A vulnerabilidade da comunidade LGBT aumenta o risco da doença? Ou tudo se resume a fatores genéticos e químicas cerebrais defeituosas, sem ligação com a violência social?

 

No meu caso, só descobri o HIV porque, antes, me diagnosticaram com essa outra doença (que ainda não me convenci de que seja uma doença) para a qual estou (estamos?) bem menos preparado. Como recentemente dois comediantes se suicidaram, a imprensa tem falado do tema, e achei que era bobagem perder a chance de escrever este texto, neste tom confessional que me irrita, mas que é o único possível no momento, pra jogar na internet e ver o que acontece. Se eu for um dos 35% de gays soropositivos depressivos, se eu me tornar uma das 53% de pessoas que abandonam o tratamento do HIV, se eu virar comediante, bem, o que adianta me esconder? A vida é muito curta pra ter vergonha, afinal.

 

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thiago n – 26 de setembro de 2014 - 20:22

algumas pesquisas garantem que um jovem lgbt tem sete vezes mais chance de cometer suicídio do que um jovem heterossexual. como muitos casos de suicídio tem a ver com depressão (essa doença que não é doença e que virou doença), dá uma certa vontade de falar que a população lgbt é mais “vulnerável” a ela. não seria novidade nenhuma, ao passo que as normatividades fazem com que vidas à margem sejam menos “vivíveis”.

leio, no momento, um livro muito interessante sobre depressão, escrito por um jornalista gay: o demônio do meio-dia, do andrew solomon. até indico.

com relação ao texto, ótimo como sempre! :o)

Bruna Martins Coelho – 27 de setembro de 2014 - 17:49

Marcos,
corajoso o relato. Me lembrei do texto da Butler sobre melancolia e gênero. Você o conhece?
Querendo, te passo.
Um abraço apertado,
Bruna,

Miriam – 9 de outubro de 2014 - 2:26

Não existem palavras que possam expressar a minha gratidão por um presente tão precioso e com tanto significado para a minha humilde existência: você. Essencial e imprescindível. Te amo!

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