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Precisamos de mais personagens bissexuais na TV

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A televisão estadunidense e o apagamento bi. Por Eliel Cruz

 

 

 

               Texto publicado no site Identities.Mic,  em 01 de setembro de 2014.

 

 

Quase todo mundo acha que a visibilidade LGBT na mídia está crescendo. Visto por alto, isso estaria correto…. mas vamos mais devagar.

Na verdade, a representação LGBT em filmes e televisão diminuiu no último ano. Está ainda mais difícil ver bissexuais representados nas grandes mídias sem que apresentadores como Larry King e colunistas como Dear Prudence humilhem pessoas bi por seus comportamentos sexuais e as desencorajem a viver abertamente.

 

Muito pela visibilidade.

 

Embora certamente existam agora mais personagens LGBT em shows e filmes do que em 1990 e início dos anos 2000, estamos ainda muito longe de representar com precisão toda a comunidade. E qualquer um que conheça suas políticas sabe que a diversidade racial, sexual e de gênero da comunidade não está nem de longe bem representada.

 

Na verdade, de acordo com o ultimo relatório da GLAAD (Aliança Contra a Difamação de Gays e Lésbicas, na sigla em inglês) sobre televisão, dos “66 personagens LGBTs regulares ou recorrentes nos programas de TV a cabo, 35 são gays masculinos, enquanto apenas 4 são bissexuais masculinos”. Enquanto isso, nos 102 filmes incluindo LGBTs lançados em 2013 (note que isso não inclui todos os filmes, mas só aqueles que incluem personagens LGBTs), apenas um personagem bissexual masculino foi encontrado. Isso significa que menos de 6% das representações LGBT na televisão –  e menos de 1% em filmes em 2013 – foram de bissexuais masculinos.

Embora fosse fácil desconsiderar essas estatísticas – e julgando pela falta de protestos, muitos devem ter feito exatamente isso – a representação midiática das minorias é importante. Seja ficção ou não, essa representação na mídia ajuda o publico geral a reconhecer, humanizar e se relacionar com um grupo com o qual talvez não interajam no dia-a-dia.

Em relação à representação bissexual, isso ajuda jovens bissexuais a se verem na televisão, e isso ajuda a todxs a entender que bissexuais não são assim tão diferentes dxs demais.

Com o tempo, Hollywood tem mostrado aos poucos mais historias queer, embora essas tenham sido tipicamente historias de homens gays, brancos e ricos. Séries como Queer as Folk e Will and Grace foram pioneiros porque conquistaram um grande interesse, convidando milhões de estadunidenses a receber as historias de homens gays em suas salas. Algo similar aconteceu com personagens lésbicas na TV, o The L Word, da Showtime, e o sucesso atual da HBO, Girls, tem mostrado principalmente as historias de mulheres brancas na comunidade.

Desde então, mais comédias familiares convencionais tem incluído inovadoras relações de pessoas do mesmo sexo, como em série como The Fosters e Modern Family, que retratam relacionamentos gays “normais”. Mas quando falamos de bissexuais, a audiência normalmente vê apenas mulheres bissexuais, e elas são apresentadas de uma forma obviamente sexualizada para satisfazer o olhar masculino.

Existem poucos personagens bissexuais na TV e em filmes, mas a palavra “bissexual” é normalmente evitada.

Piper, no Orange Is the New Black, só é referida como bissexual apenas uma vez nas duas temporadas; seu marido na serie se refere a ela como “lésbica”, enquanto sua ex-namorada Alex se refere a ela como uma garota hétero. Essa representação dividida levou a mais de um crítico a reclamar que a representação dos personagens principais do show constituísse um apagamento bi

 

[Na imagem: Regra número um. Nunca se apaixone por uma garota hétero.]

 

House of Cards teve um ménage bissexual surpresa, mas os produtores da série foram rápidos em não rotular a sexualidade de Frank, desdenhando a cena como “caprichos e desejos”.

Este ano trouxe uma representação honesta de um bissexual masculino como personagem principal em Halt and Catch Fire, mas ele foi o único nesse ano. A emissora NBC tem sido acusada de fazer “lavagem-heterossexual” de um personagem bissexual na sua próxima adaptação para a TV da serie Constantine, levando os fãs a apresentarem uma petição pedindo que o personagem fosse bissexual, como retratado nos quadrinhos. Quando perguntaram ao produtor do show, David Goyer, sobre o apagamento bi na Comic-Con em San Diego, ele foi contraditório e um pouco defensivo. Goyer afirmou que ele “nunca disse que Constantine não era bissexual. Ele apenas não levantava da cama com um homem no programa piloto”.

A postura de Goyer em relação ao problema, sem condenar o comportamento, mas casualmente o tirando de cena, parece ecoar um tema recorrente com personagens bissexuais masculinos. Por que não podemos ter personagens bissexuais masculinos autênticos em nossas historias?

 

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[Constantine]

 

Demandar representação midiática não é demandar diversidade pela diversidade – é pela precisão.

De acordo com um relatório de 2011 do Williams Institute, pesquisadores descobriram que cerca de metade da comunidade LGBT se identifica como bissexual. Mesmo assim, como mencionado antes, existem poucos personagens bissexuais representados pela mídia.
Por algum motivo estranho, muitos produtores de Hollywood internalizaram a concepção errada de que um homem não pode estar envolvido romanticamente com outro homem e ainda assim estar interessado também em mulheres. Essa noção incorreta gira em torno da ideia de que masculinidade requer o desejo e “conquista” de mulheres, mas não o mesmo desejo apaixonado por homens. A bissexualidade ameaça a narrativa heteronormativa ainda mais do que homossexualidade, porque ela destrói nossas ideias binárias: ela é um reconhecimento de que a sexualidade humana funciona de forma mais complexa do que apenas sentir atrações românticas e sexuais por um gênero.

 

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 Fonte: Williams Institute

 

 

“Nossa mídia convencional reforça a ideia de que bissexualidade é, ou um ato voluntario e divertido de experimentação ou um mero mito através de duas táticas testadas e aprovadas: deturpar e simplificar personagens bissexuais até que eles se tornem frases de efeito ou fontes de sonhos eróticos, ou simplesmente se recusar a representar personagens bissexuais, antes de tudo”, escreveu Amy Zimmerman sobre o assunto no Daily Beast. “O apagamento bissexual – ou a tendência de apagar a bissexualidade e negar completamente sua existência – em filmes ou na televisão destaca a forma com a qual certos tipos de “queeridade” são prejudicados e excluídos das narrativas populares, enquanto outros são cada vez mais transformados em caricaturas e/ou celebrados”.

O burburinho causado por “Dear Prudence” é apenas mais um exemplo da importância de elevar as vozes bissexuais, tanto na mídia quanto na cultura popular. Lésbicas e gays tem testemunhado uma enorme e positiva mudança cultural na ultima década, liderada em grande parte pela visibilidade trazida por atores e artistas gays e lésbicas. Mas essa pressão por igualdade não tem sido distribuída igualmente, deixando muitos bissexuais se perguntando quando eles, também, terão seu momento “Ellen”.

 

 

 

 Eliel Cruz é jornalista freelancer que escreve sobre (bi)sexualidade, gênero, religião e cultura pop no Mic.com. Ele também escreve no The Advocate.

Tradução: Suen Andrade

Ilustração: Tiago Kaphan

 

 

 

 

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