Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Imagens subversivas e resistentes

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Sobre Fronteira, o festival, e uma conversa com Abigail Child. Por Sophia Pinheiro

 

 

 

 

“Esse desejo pelo completo, pela explosão. Aceitando abertamente o ritmo fora de equilíbrio do dia-a-dia, o prazer do agora, a percepção da beleza do mundo e da feiura, NÓS cantamos sobre terremotos, compomos épicos filmes sobre a vida diária e a chama, nós sentimos prazer no movimento de cometas e meteoros e dos gestos de holofotes que ofuscam as estrelas e lembram explosões.”

Os poli prismáticos: variantes de um manifesto*

(Abigail Child)

 

 

 

A primeira edição do Fronteira – I Festival Internacional do Filme Documentário e Experimental ocorreu de 30 de agosto a 7 de setembro, em Goiânia. A equipe do festival, dirigida artisticamente por Henrique Borela, Marcela Borela e Rafael Parrode, pretende abrir “a experiência cinematográfica para percepções mais livres de mundo […] que, longe de propor recortes temáticos ou estéticos, quer desestabilizar certezas ”. Acompanhei o máximo que pude do Fronteira e conto aqui um pouco da minha experiência.

 

Com zonas de fronteiras expandidas (cinematográficas e culturais), o festival teve a mostra Em Trânsito – Terra e Liberdade no município de Crixás, representada por cinco assentamentos agrários – Alírio Correria, Chico Mendes, Antônio Tavares, 12 de Outubro e Vitor Manoel – e a Vila Rural de Auriverde.  Também houve a mostra na Aldeia Buridina, terra indígena Karajá, localizada no centro da cidade de Aruanã-GO; além da programação extensa e intensa na capital do estado.

 

Ao todo, foram 120 filmes, 7 atividades paralelas e 11 mostras em 9 dias de um festival dedicado à Harun Farocki. Vale ressaltar que as mostras, a instalação e seu último filme, Sauerbruch Hutton Architekten (2013), na mostra competitiva do Fronteira, já estavam na programação antes de seu falecimento, no mês de julho deste ano.

 

Um hiato de tempo se passou desde o último dia do Fronteira em Goiás. Foi uma ebulição de fumaça espessa que cortou o tempo. O vivi na seca e agora escrevo na primavera. Parece que o festival foi o gatilho que fez a estação do ano mudar no pensamento. Da seca sisuda ao florescer torto e vivo. É incrível a imagem: o toco seco brota! Coisas do cerrado, sabem? E assim, analogicamente traço a linha que desenha esse festival no cenário artístico dos territórios, ele rompe.

 

 

Uma ode à resistência e subversão

 

 

Uma das coisas mais interessantes é que como não possui recortes temáticos ou estéticos, o Fronteira me pareceu como uma ode à subversão artística no cinema. Possibilitando uma experiência híbrida, pude acompanhar filmes e debates ora de Andrea Tonacci, um dos principais diretores brasileiros do cinema marginal e da documentação das culturas indígenas das Américas, e ora do diretor português Rui Simões, conhecido pela prática do documentário histórico e militante, por exemplo .

 

 

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Neste sentido, um festival dedicado à Harun Farocki, realizador alemão que percorre do cinema à videoarte, não poderia deixar de promover o que gosto de pensar como uma orgia visual e, acima de tudo, manifestos políticos e sociais. O primeiro filme do cineasta fora da academia de cinema foi Fogo que não se apaga (1969), partindo de uma reconstrução-modelo da bomba de Napalm (utilizada na guerra do Vietnã) segue-se um apelo lúdico à resistência que nos deixou esta ideia: diante das imagens da guerra, o espectador transforma-se num “técnico da guerra” iniciado com Farocki ao performar diante da câmera com um cigarro que ele apaga em seu próprio corpo, fazendo alusão às queimaduras causadas pela bomba Napalm.

 

Em An Image (1983), trabalho realizado nos estúdios da revista Playboy alemã, resultou em um material de grande importância para o realizador e segundo Farocki relata à revista Zelluloid, em 1988: “a revista lida com questões relacionadas à cultura, carros e um certo estilo de vida. Talvez todas essas armadilhas estejam lá para cobrir a mulher nua. Talvez seja algo como uma boneca de papel. A mulher nua no meio é o sol em torno do qual gira todo um sistema”.

 

As manifestações políticas e sociais continuam nos clássicos Videogramas de uma revolução (1992),um compilado de filmes amadores e arquivos de TV depois da ocupação por manifestantes na televisão estatal romena em 1989, e Operários ao sair da fábrica (1995) baseado num dos filmes históricos dos irmãos Lumière, com uma montagem de cenas de 100 anos de história do cinema variantes dentro de um mesmo tema: operários ao deixarem a fábrica.

 

Esses dois últimos filmes, juntos com Disgraced Monuments e 23rd August 2008, ambos de Laura Mulvey, possuem a própria História como protagonista . Em Disgraced Monuments (1993), examina no colapso do comunismo na União Soviética, como monumentos nos conectam ao passado, como eles são destruídos e novos levantados ao mesmo tempo do cataclismo social e como cada ponto de viragem da sociedade começa a história de novo em uma luta com monumentos antigos. Já em 23rd August 2008 (2013), Laura Mulvey filma a partir de um único plano o relacionamento de dois irmãos em que, durante o processo de filmagem, evoca-se aspectos pouco conhecidos da história política do Iraque. Mais que a história política, o filme trata, sobretudo, da história de dois irmãos. Logo, em todos os quatro filmes, por desempenhar um papel fundamental no discurso, a História os protagoniza.

 

 

 

Dentre essas manifestações políticas através de orgias visuais, destaco as do empoderamento do corpo. As veias do corpo desenham a cartografia de cada espaço que habitamos, demarcam nossos territórios vivos, invisíveis debaixo da pele. A pele, esse órgão extenso que também sente. Aliás, sempre achei meio esquisito atribuirmos ao coração todas as manifestações de sentimentos, enquanto é a pele que arrepia e transmite ao cérebro as sensações básicas de quente, frio, e até as pulsantes como o tesão. Quando o corpo doa os “doces abraços do eu”, o espaço vazio que habita entre um e outro – Fronteira. O momento em que os outros reagem em relação a mim, o momento do confronto – Fronteira. A fronteira do humano, nosso corpo como arma, resistência e subversão. “Não temos mais do que nossa pele“, diz uma camponesa mexicana sem terra participante de uma forma de luta que inventaram, usando seus corpos como lugar de resistência política e social, no filme Los Desnudos (2012) de Clarisse Hahn.

 

Foi nesta multiplicidade fronteiriça explícita que os filmes Prisions , Guerrilla e Los Desnudos de Clarisse Hahn, que fazem parte do tríptico “Our Body is a Weapon” (Nosso corpo é uma arma) me fizeram ver meu corpo como um comumente dito “país aliado”. Me vi Fronteira. Clarisse acredita que seu trabalho é político e não militante , a diretora que filma na maioria das vezes sozinha, gosta de correr situações de risco e diz: “há gozo e prazer em filmar assim”.

 

 

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Além dos filmes de Clarisse Hahn e Laura Mulvey, o Fronteira contou com filmes das diretoras Helena Ignez e Abigail Child, que estiveram presentes no festival e por isso pude conversar um pouco acerca destes assuntos, como vou contar adiante.

 

O filme O Poder dos afetos (2013) da atriz e diretora Helena Ignez, segundo a própria, “procura dar uma melhorada na mente geral da nação”. O média recria a Marcha das Vadias dentro de uma misancene protagonizada pela potência interpretativa de Simone Spoladore, Djin Sganzerla e Ney Matogrosso, este como uma espécie de mago, faz magia ao protagonizar um beijo de língua suculento. Helena Ignez, após a exibição do média, disse durante a conversa:

 

“O filme é um tipo de ativismo desenvolvido com o tempo. É um ativismo das imagens! Sendo superficial sou profunda, na leveza profunda, por isso não posso ser insuportável. Ainda continuo sendo A mulher de todos e não só mais um corpo. É um corpo contra esse machismo vigente.”

 

 

 

Feliz de mim que pude estabelecer fronteiras nos braços de Helena. Feliz de mim que pude tomar cervejas com Abigail Child na Praça da Cirrose, antro central de Goiânia formado pelos melhores botecos pés sujos da cidade! E dessa conversa de bar, surgiram algumas perguntas.

 

 

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Abigail Child, também possui grande interesse em corpos na marginalidade que na maioria das vezes são mulheres, gays, transexuais,pessoas que não correspondem aos estereótipos de beleza. Com vieses políticos e sociais , montagens inovadoras, fugindo do formato padrão do espaço retangular da tela de cinema, Child explora o máximo de campos possíveis dentro dele e o expande: com sobreposições de frames, cortes secos, divisões da tela ao meio, em quádruplos etc, duas cenas (ou mais) que acontecem juntas. No Fronteira, Child participou em duas mostras: Clássicos do Cinema Experimental… E Algo Mais com os filmes Vis à Vis, Elsa e Unbound (todos de 2013); e da mostra Câmera DOC: O Olho no mundo e seus conflitos com Riding The Tiger (2010).

 

Vis à Vis é um filme simples de filmagens não concluídas ao final dos anos 80, onde Child filma muitos beijos suculentos de casais de amigxs, homossexuais e heterossexuais todos de alguma forma fora dos padrões de sexualidades. Mesmo que algumas vezes os beijos não fossem dados por pessoas do mesmo sexo, Abigail fez com que homens se parecessem às mulheres e vice-versa. Já Elsa foi inspirado numa performance de Elsa von Freytag-Loringhoven, capítulo sexy do biodrama feminista “A Baronesa”, onde Man Ray e Marcel Duchamp fizeram um filme sobre a baronesa raspando seu pelo pubiano em público. Abigail desconstrói a imagem filmada pelos artistas, colocando um homem sendo depilado por uma mulher, no intuito de trocar os conceitos de poder de gênero, nos quais os conceitos de “coisas de homem“ e “coisas de mulher” se denominam dentro da sociedade patriarcal e heteronormativa, evidenciando mais uma vez o espírito livre de amor e costumes sexuais  . O longa Unbound faz parte de uma trilogia acerca da mulher e da ideologia:

 

 

Pode me dizer um pouco mais dessa triologia?

 

 

Quando participei da Academia Americana, durante um ano em Roma, criei filmes caseiros imaginários de cenas da vida de Mary e Percy Shell. Fui atraída por esses autores – suas vidas de poesia, política e invenção sexual. São memórias que estão indo e voltando. Eu trabalhei com não-atores, com as estações, paisagens e a arquitetura da Itália, onde o casal ficou exilado. O resultado disso foi o longa A Shape Of Error [2012], a partir dele quis ir mais longe e auxiliada pela tecnologia veio como resultado o Unbound, imprevisível e bagunçado como é a memória. Ele é o primeiro dos três filmes. A segunda parte da trilogia é sobre Emma Goldman, uma anarquista feminista muito forte no início do século 20, autora da frase “Se não posso dançar não é a minha revolução” e a terceira parte quero retratar a ideia de trazer os anarquistas de hoje que considero ser os hackers, quero trabalhar com uma mulher virtual.

 

Você tenta inserir teorias feministas nos seus filmes?

 

 

Eu acho que os meus filmes se tornam teorias feministas. Na verdade, eu tento não deixar óbvio. Eu fiquei famosa por um filme chamado Mayhem [1987], que foi uma resposta para Laura Mulvey. Laura disse na década de 70 que as mulheres são tratadas como objeto de fetiche por Hollywood. E que por isso nenhuma mulher poderia fazer filmes que representassem mulheres. Então ela fez um filme com Peter [Wollen] em que eles não mostravam mulheres. Eu pensei: Foda-se isso! Eu não lutei por liberdade para que uma mulher burguesa me dissesse o que eu posso ou não fazer. Eu também sou burguesa, mas vocês entenderam o que eu quis dizer.  Eu sempre me interessei por filmes noir, mas nesses filmes, apesar de as mulheres serem representadas como poderosas, são sempre punidas. Então eu decidi fazer um filme noir em que as mulheres não fossem punidas, em que elas conseguissem o que queriam. Então eu fiz o Mayhem e esse foi o motivo para fazê-lo. Na verdade, tinham vários motivos. E eu fui tratada pelas feministas da seguinte maneira: elas disseram “Você é um homem pela maneira em que está representando as mulheres. É violenta.” Eu estava tentando entender o porquê de gostar tanto dos cortes rápidos em filmes de Hollywood. Eu descobri que violência não é sexy. O suspense é sexy. Porque o suspense é a antecipação de algo. E eu exploro o tempo inteiro essa antecipação no filme. Mayhem foi condenado por várias pessoas durante anos até virar um clássico. Depois de assistirem o filme pessoas que nem me conheciam diziam para mim “Você é a famosa problemática Abgail Child”. Por um lado era bom, porque se todos odiavam meus filmes eu deveria estar fazendo alguma coisa certa, mas por outro lado eu perdi empregos e nunca recebi reconhecimento. As mulheres dos comitês sempre diziam “ela não sabe o que está fazendo”. E eu tenho um livro publicado. Sou uma das mulheres cineastas em atividade que possui uma teoria publicada.

 

 

 

 

Você disse, no debate após a sessão dos filmes que ideologias são fracassos…

 

Eu acho que quando a gente acredita em algo de maneira extremista ficamos limitados. Estou respondendo de acordo com a minha vida pessoal. É fácil seguir uma ideia, mas a vida vai te transformando. Ainda mais como mulheres, não podemos nos manter as mesmas. Por exemplo, um pintor não segue sua vida inteira pintando com a mesma estética. Eu me interesso pelas pessoas que mudam e evoluem. Eu me preocupo comigo mesma, porque eu fiz da arte um Deus para mim. Talvez isso seja perigoso porque existe uma eterna luta entre a vida e a arte. Hoje em dia eu me sinto muito bem trabalhando com “formal”. Vocês não viram o meu trabalho mais recente, mas eu sou conhecida por invenções bastante formais. Sensíveis (apelam para os sentidos)! Porém, formais. E estou tentando ser mais emotiva.

 

 

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Até o próximo assentamento de corpos!

 

 

 

 

 

[*] Manifesto presente no catálogo do Fronteira – I Festival Internacional do Filme Documentário e Experimental.

 

 

 

 

 

Sophia Pinheiro é pensadora visual, galopeira goiana e alquimista que mexe no seu caldeirão poesia, arte e feminismo até produzir x monstrx criativx contra o capitalismo: GRRRL!  ¯(°_o)/¯  Ou nas palavras de Rita Lee: “Sophia, a encarnação da deusa egípcia Bastet, vira-lata de raça com 15 mil anos de idade”

Ilustração: Sophia Pinheiro

 

 

 

 

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