Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Dançando na roda do jongo

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Em setembro, fomos convidadxs para participar do Encontro de Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares na Universidade Federal do Espírito Santo

Geni rodopiou bastante em setembro. Deu entrevistas em faculdades de jornalismo, foi conhecer Bruno Bimbi no Rio de Janeiro e, mais para o final do mês, integrou a programação do 9º Encontro da Rede Sudeste de Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs) na Universidade Federal do Espírito Santo.

 

As incubadoras são espécies de laboratórios que desenvolvem e disseminam conhecimentos sobre cooperativismo e autogestão, contribuindo para o desenvolvimento da Economia Solidária. De acordo com a ITCP vinculada à Unicamp, a economia solidária “tem como proposta a geração de trabalho e renda para milhões de excluídos do mercado formal (…), bem como o fortalecimento de grupos associativistas em prol da autonomia dos trabalhadores e trabalhadoras”.

 

As diversas incubadoras se organizam em redes de alcance regional e nacional. A rede universitária de ITCPs começou em 1999, articulando as diversas iniciativas desenvolvidas em projetos de extensão universitária. Neste último mês de setembro, realizou o nono encontro da rede Sudeste, cujo tema foi “Gênero, trabalho e vida”. Foi para compor a mesa disparadora do encontro e também para propor uma oficina sobre gênero e movimentos sociais que a Geni foi convidada – e muitíssimo bem acolhida.

 

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Tanto a mesa como a oficina foram realizadas no dia 26 de setembro, tendo Carolina Menegatti e Lia Urbini como representantes do coletivo Geni. Nossos interlocutores eram formadores das ITCPs de universidades como USP, Unesp (campi de Bauru e Assis) e Unicamp (SP), Ufes (ES), federais de Lavras, Ouro Preto e Viçosa (MG), entre outras, além de alguns trabalhadores de uma das cooperativas de catadores de materiais recicláveis.

 

Os principais ramos de trabalho com os quais essas incubadoras atuam são: agroecologia, reciclagem, empresas recuperadas, construção civil, costura, artesanato e produção e circulação de alimentos. Em geral, para todas as atividades, o que se procura desenvolver entre os cooperados é a participação e o empoderamento, o conhecimento da legislação específica das cooperativas, conhecimentos sobre economia solidária, mobilização comunitária e autonomia. No entanto, para que esses objetivos sejam atingidos, a questão de gênero foi apontada como fundamental para ser pensada em todos esses espaços, uma vez que atravessa as questões específicas de organização do trabalho.

 

Geni na mesa

 

Propusemos então uma fala inicial após a participação de um professor que deu um breve histórico da economia solidária e da apresentação de Diego Veiga, um cientista social que já esteve bastante tempo nas incubadoras e que agora trabalha especificamente com gênero e sexualidade. Escolhemos fazer a ponte entre as duas falas, articulando mais detalhadamente gênero e trabalho.

 

Um primeiro dado que nos foi apresentado era o de que a maior parte dos ramos de atividades nas cooperativas é marcada pela divisão sexual clássica de tarefas, sendo a produção de alimentos e o artesanato majoritariamente realizados por mulheres, por exemplo, e a construção civil e o trabalho nas empresas recuperadas, majoritariamente por homens. Outro dado que também nos chamou a atenção foi a quantidade de mulheres que se divorciam ou se separam dos companheiros após a entrada nas cooperativas – o que parece indicar, de alguma maneira, que trabalhar autogestão no campo do trabalho também afeta outras esferas da vida, além do fato de a independência econômica interferir nas escolhas sobre o futuro conjunto. Por fim, o fato de existir um número considerável de travestis nas cooperativas de catadores de materiais recicláveis também gera uma demanda para os formadores em relação a como tratar questões específicas de gênero e sexualidade com trabalhadores dessa área.

 

Essas três constatações nos trouxeram problemas empíricos bastante relevantes, e desdobraram-se em diversas questões. De que maneira as cooperativas acabam reproduzindo o modelo de divisão sexual do trabalho e como elas podem interferir nessa realidade? O que fazer com a resistência encontrada em determinadas regiões em relação à entrada e permanência das mulheres nas cooperativas, uma vez que essa entrada significa uma autonomia nem sempre desejada pelo restante do grupo no qual elas vivem? Ainda que essas questões só possam ser respondidas na prática (e por quem lida cotidianamente com essas dificuldades), propusemos uma base para debate que ecoou significativamente.
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A casa da diferença

 

Destacamos três pontos principais com o intuito de refletir sobre essas inquietações iniciais. O primeiro deles: o de que falar sobre gênero não significa falar apenas de mulher. Aproveitamos as considerações precisas de Diego sobre heteronormatividade e complementamos com exemplos de como o padrão socialmente hegemônico e binário de feminilidade e masculinidade afeta não apenas as mulheres, mas também os homens. Não apenas LGBTs, mas também héteros. Obviamente não se trata de homogeneizar as opressões, mas sim de trazer à tona a necessidade da discussão de gênero como igualmente necessária para uma expressão menos codificada e ortodoxa de masculinidade, feminilidade e do que mais pode haver entre esses dois polos.

 

O segundo ponto estava relacionado à questão da esfera pessoal que é também política. Tema bastante conhecido do feminismo da década de 1970, essa questão teve importância crucial no reconhecimento do caráter político de demandas como aborto e divórcio, por exemplo. No entanto, as contribuições vindas das problematizações dos movimentos negros para o movimento feminista e LGBT da época são interessantes de serem lembradas, pois inseriam uma dimensão extraindividual dessa esfera pessoal que nos impacta até hoje. Lemos o trecho de Audre Lorde sobre a militância a partir da diferença para estimular associações possíveis com a questão étnica e com as possibilidades de não se pautar apenas no critério da identidade e da militância pela semelhança.

 

Sermos mulheres juntas não era suficiente.
Nós éramos diferentes.
Sermos garotas lésbicas juntas não era suficiente.
Nós éramos diferentes.
Sermos negras juntas não era suficiente.
Nós éramos diferentes.
Sermos mulheres negras juntas não era suficiente
Nós éramos diferentes.
Sermos lésbicas negras juntas não era suficiente
Nós éramos diferentes.

Demorou algum tempo até percebermos que nosso lugar era a casa da diferença ela mesma, ao invés da segurança de qualquer diferença em particular

 

Por último, trouxemos algumas considerações sobre a pertinência de associar a perspectiva de classe à perspectiva de gênero e de sexualidade, entendendo feminismo, militância LGBT e anticapitalismo como lutas possíveis de serem combinadas.

 

A partir do que falamos, as perguntas levantadas foram 1) em relação ao estágio da discussão de gênero em Angola (que, na opinião do formador, um angolano, era defasado); 2) em relação ao fato de a economia solidária por vezes focar no esforço de geração de renda, esquecendo dos demais aspectos; 3) sobre os limites das piadas preconceituosas e do humor em relação a mulheres, LGBTs e negrxs; 4) sobre os limites que o corpo material impõe à abstração queer; e 5) sobre a transexualidade ser considerada uma patologia no Brasil. Procuramos responder às perguntas, mas optamos aqui por ainda deixá-las em aberto para novas discussões.

 

Dançamos jongo

 

No momento posterior, o da oficina, apresentamos aspectos da estrutura de funcionamento da Geni. Comentamos como se dá nosso processo de autogestão e nossas pesquisas sobre gênero e sexualidade, como nos formamos e continuamos estudando no grupo. Foi importante ressaltar que a revista é uma das principais coisas que o coletivo faz, mas que, por conta dela, também estudamos juntos e preparamos/participamos de eventos culturais e políticos, atravessamos movimentos e experimentamos a mídia independente.

 

Paulo, um dos formadores, também compartilhou seus trabalhos com educomunicação, e Paulinha, estudante de ciências sociais da Ufes, também formadora na incubadora da universidade, selecionou alguns ensaios fotográficos sobre corpo e gênero para complementar a discussão.

 

Partindo desse segundo momento de trabalho, percebemos que havia um interesse das incubadoras pelos mecanismos de organização e pelo processo de autogestão experimentado por nós, bem como a necessidade de se formarem para trabalhar com gênero e sexualidade dentro das realidades específicas das cooperativas. Do nosso lado, dissemos que havia o interesse de, a partir das experiências das incubadoras, encontrar modos distintos de trabalho.

 

Aproveitamos para registrar aqui uma demanda enfaticamente apresentada: a da criação de uma espécie de guia nacional com referências de instituições e serviços para os quais recorrer em casos de violência e necessidade de consultoria jurídica. Essa é uma necessidade das “minorias” que compõem o grupo de trabalhadores cooperados.

 

Além de tudo o que se conta aqui, dançamos jongo, vimos o sol nascer na grande pedra pro mangue e iniciamos contatos com muita gente que queremos por perto por tempos adiante! Agradecemos!

Ilustração: Gui Mohallem.

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