Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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NO MEIO | 05: Os escândalos e as interdições

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Tentar salvá-los pra levá-los aonde? Pras minhas agonias, que talvez sejam melhores que as deles? Por Luiz Pimentel

_rasgo

 

O texto deste mês é uma crise manifesta com o que me propus como eixo desta coluna na edição zero da Geni.

 

Os últimos meses me desgastaram com o tipo de trabalho que não retribui em valor concreto o trabalhado. Pouca grana, pressa e inquietude generalizada. Esse excesso de trabalho sem as recompensazinhas enfurece e é respondido também com violência. E o meu interesse em fazer desta coluna um espaço de escuta é impossibilitado diante das palavras de raiva que pedem lugar.

 

No final, é uma situação nada incomum na vida de quem está provisoriamente empregado em políticas públicas educacionais com suas precárias condições trabalhistas. Exponho isso aqui menos como desabafo e mais como entrada para dissecar temas que sigo abrindo nesta coluna: lugares de mediação. Lugares de mediação inventados e que exigem mão de obra qualificada, mas em condição precária. Lugares de mediação inventados para suprir – em grande parte – a população pobre, que ainda precisa fazer uso das migalhas do público.

 

Este texto não tem nada a ver com pedir mais mediação oficial ou fazer militância em prol da valorização do ofício do mediador, do professor, do artista. É propor olhar para todos nós, que, independentemente da função, estamos no meio o tempo todo. Estar no meio também é mirar-se dentro do turbilhão, das circunstâncias e das condições muito materiais, que implicam gestos íntimos específicos e, muitas vezes, nada coerentes.

 

(Acho que vai acabar sendo um texto sobre a incoerência.)

 

_um furo

 

Numa periferia, alunos de teatro se travestem.

 

Vestem preto, usam dentes de vampiro, alguns sobretudos, pequenos brincos e alargadores.

 

Um dia, numa periferia, após uma tarefa proposta por mim de livre criação de personagens para improviso, alguns alunos aparecem com bolsas cheias de vestidos, estojos de maquiagem e sapatos de salto. Tudo pegado escondido de suas mães.

 

Eles estão elétricos e passam horas no camarim do teatro, saindo de lá montados como mulheres. A princípio estão tímidos e querem mais se esconder do que ser vistos.

 

Os outros alunos, numa periferia, fazem barulho. Sempre fizeram. Não fazem tanto pra mim porque, segundo eles, eu me comporto como homem. Eu, o mediador oficial, o professor, o artista. Os artigos pra mim são infinitos. Eles não, são bichinhas afetadas. São tudo porcaria.

 

Numa periferia, os alunos travestidos não conseguem apresentar a cena porque o público de também alunos que se travestem de góticos impede que ela aconteça. Eu, o mediador oficial, gay permitido, nomeio aquilo de assassinato e encerro o encontro.

 

No próximo dia me espanto, numa periferia, ao ver que os alunos que se travestiram voltam. E voltam com muito mais acessórios do que da primeira vez. Não posso explicar isso como resposta às vaias dos outros. Parece que só vieram com tudo aquilo porque estão querendo, por eles mesmos. Não por mim nem pelos outros.

 

Eles apresentam a cena e o público assiste, dessa vez. Improvisam e enlouquecem, encenando mulheres à beira de ataques de nervos, que rolam pelo chão, querem casar, mas têm seu casamento arruinado por traficantes que saem atirando nos convivas. Dão risada, criam vestidos suntuosos, gritam e fazem barracos homéricos, tudo em cena.

 

O público permanece em choque.

 

Eles são muito novos. Todos, aliás.

 

_agarrar

 

Em papo com a gestão do espaço e com outros professores, sou convocado a explicar o processo que vivem esses meninos que se travestem. Eu me recuso. Não sei fazer isso, parece mentira dizer que eles estão passando por um processo de transformação ou que estão usando o teatro para fazer algo que lhes é proibido na rua.

 

O que mais me espanta nesse papo é a própria ânsia pedagógica, que, após um furo como esse no uso de um espaço, procura imediatamente algum entendimento, alguma compreensão, uma narrativa que defina o que aquilo é e as alternativas para tratar esse acontecimento com coerência. Como se nós, educadores, pudéssemos ajudar em alguma coisa na vida da pessoa posta na roda…

 

Quando tento conversar com os alunos que se travestem, numa periferia, sobre o que estão fazendo, como pegam as roupas e a relação com os pais, eles se negam a falar. Não têm vontade de dizer sobre isso. Eu poderia insistir na prática confessional, dentro de uma lógica quase terapêutica. Mas deixo. Talvez um dos lugares mais possíveis de liberdade, pra gente que tanto se confessa e se explica, seja o de se manter calado diante de um inquérito. Que se mantenha em segredo, então. Que eu tente aprender a governar o que em mim quer ajudar e salvar. Salvar do quê? Da dor e do conflito? Da possível violência que se vive em casa e em comunidade? Tentar salvá-los pra levá-los aonde? Pras minhas agonias, que talvez sejam melhores que as deles?

 

Como ficar no meio disso?

revista geni cecilia silveira LUIZ PIMENTEL

_proletários e domadores

 

Guilherme Leite Cunha, em seu texto “Medio, monitoro, valorizo”, propõe uma análise a partir dos efeitos da recente forja do proletariado do setor educativo em nossas cidades. Abrindo seu texto, ele cita uma fala de Leibniz. Eu nunca li Leibniz, mas copio a frase aqui, pois ela é uma epígrafe que deveria aparecer em todo regimento escolar: “A educação consegue tudo: faz dançar os ursos”.

 

Numa periferia, durante a aula de teatro, muitos corpos se amontoam. Ursos, elefantes, rinocerontes, gazelas, serpentes. Eles gritam, pulam e manifestam formas caóticas e perigosas de se relacionar entre si.

 

Mas o espaço em que estão determina regras. Uma delas é a de não vandalizar nem danificar os materiais do teatro. “Sem violência, sem vandalismo!”

 

Sou obrigado a dizer isso a eles e percebo que recebem minha bronca como mais uma interdição. Mas arrisco e pergunto se sabem o que é aquele espaço em que estamos. Eles respondem e dizem que aquele espaço é aquele espaço. Digo que não é aquilo que perguntei. Pergunto se eles sabem o que cada uma das siglas que compõem o nome de onde estamos significa, se sabem quem faz a gestão do espaço, de onde vem a verba pra ele, como ele se estrutura dentro da comunidade em que estão, numa periferia. Pergunto, me colocando no fogo, se sabem quanto eu ganho e de onde vem meu salário e meu contrato.

 

Sou sacana. Pergunto sabendo que eles sabem tanto do espaço e das circunstâncias quanto eu sei quem são e como são pagos os vereadores na Câmara. Concluo que, como vem sendo exercida, a lógica educativa da mediação só faz reiterar proibições e mente quando diz que pretende dialogar ativamente com a comunidade. “O espaço é do povo”, numa periferia, mas o povo só é chamado a usá-lo de uma forma preestabelecida, e nunca a estrutura se faz transparente, ela nunca está à mostra. O regimento está sempre oculto.

 

O uso que se faz desse espaço público dito comunitário, numa periferia, redunda no corpo que se acostumou ao privado. Porque a lógica da tomada do espaço está colocada como enunciado, não como sentido mais fundo. Numa periferia, chama-se à cultura e à educação. Elas em si são valores, e valores neutros. Aos pobres da comunidade é oferecido um espaço onde podem desenvolver alguma coisa para si, desde que zelem pelo espaço e que só entrem nas salas acompanhados por um mediador oficial. Eu. Se entram sozinhos ou se pulam alguma grade, são expulsos. Exige-se respeito, acima de tudo.

 

Parafraseando uma frase do elefante-marinho do Prévert: as escolas gostam dos alunos, mas preferem seus móveis. Patrimônio público, assim como a cultura e a educação.

 

Parece óbvio assegurar que se zele pelo espaço público, mas a lógica que a mediação desses espaços vem oferecendo está a serviço da compreensão de uma oferta do espaço público como caridade, como uma iniciativa que se orienta em ajudar os pobres, ajudar a transformá-los em outra coisa que não pobres coitados. Mas está implícito que eles sempre começarão como coitados, para sempre depois vir a ser outra coisa. Sempre depois.

 

Para cumprir o depois, os mais jovens devem ficar em silêncio na aula, assistir ao desfile de respeitados especialistas culturais, não pular nos bancos enquanto eles falam e pedir pra ir ao banheiro. Os adultos, nós, que já chegamos a algum lugar, sabemos bem de tudo isso. E nem arriscaríamos não saber.

 

_troço

 

Numa periferia, com péssimas condições trabalhistas, tomando muito tempo da semana nos meus pensamentos e práticas, resultando neste texto, me é oferecido um poema de pedra:

 

Os que se travestem de preto e alargadores comparecem e convivem com os que se travestem de mulher. Eu não sei se isso garante aprendizado ou alguma conquista. Só sei que lá se veem convivendo, mesmo não se aceitando bichice. Convive-se. Até se cumprimentam. E está sendo deixado acontecer assim, sem sermão pela paz. O risco disso é o tempo todo. Mas o horror de mediar é o meu horror. De alguma forma, presencio um escândalo. Um salto incomum nos meus dias tediosos e tão domesticados. Vendo gente que ainda não virou bom aluno, que ainda não se deixa capturar tão facilmente, se traveste, faz barulho e ________________________________

 

Leia outros textos de Luiz Pimentel e da coluna No Meio.

Ilustração: Cecilia Silveira.

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celso amici – 4 de outubro de 2013 - 22:18

sou espectador nesta periferia, sou estrangeiro aqui, venho de outra era, vejo-a pelos vidros sujos dos coletivos, sempre lotados e atrasados, mero detalhe. vejo jovens, inclassificável nos enquadramentos de normas e condutas, são apenas jovens ou algo que eu não percebo, dado a distancia geracional, eu já além dos cinquenta. um velho gay/guei véio ! parece tanto tempo e tão distante minhas inquietações quando também passava nessa faixa de idade, meio jovem, meio adolescente, meio homem. meu lugar no mundo, nem possibilidade nem ideal, espaço-tempo fugaz que rejeita a compreensão formal social, pedagógica, moral, religiosa ou o que pressuponha normalidade/subjugação. meu silêncio, quase mutismo desde sempre, sinal estigma de meu ser/estar no mundo em estado de nojo e ânsia pelo inquérito permanente subentendido em toda situação na vida.

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