Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Uma tonelada e meia

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Geni conversa com Guiomar Santos sobre ecologia a partir da perspectiva da Reciclagem Popular. Por Giovana Izidoro, Juliana Bittencourt e Lia Urbini

 

Publicado em 28/10/2015

 

 

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Catadorx organizadx jamais será pisadx!

 

Quando se fala em ecologia, muitos imediatamente conectam o tema ao discurso do capitalismo administrável ambientalmente consciente, baseado em premissas como a “sustentabilidade”, o “consumo responsável” ou o “pensar global, agir local”. Essa linguagem, assim como a estrutura que a organiza, vem sendo reiterada incessantemente através de campanhas promovidas por grandes corporações e se torna a “voz oficial” no que se refere à instruções sobre como reverter o curso destrutivo do desenvolvimento capitalista das sociedades.

 

Buscando perspectivas alternativas, a Geni foi para a Vila Mariana, zona sul de São Paulo, até a sede do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), encontrar Guiomar Santos. Com mais de 15 anos de existência, o MNCR trabalha pela autogestão e organização dos catadores, tendo a ação direta popular, o apoio mútuo e a solidariedade de classes como princípios norteadores de funcionamento.

 

Dentro do movimento é recente a organização da Secretaria das Mulheres Catadoras de Materiais Recicláveis do Estado de São Paulo (SEMUC-SP), seção criada a partir das demandas relacionadas a gênero na categoria: de acordo com levantamento do IPEA/Pólis/MNCR, as mulheres catadoras são grande maioria nos lixões, associações e cooperativas em todo o Brasil, representando em média 80% dxs profissionais.

 

Guiomar é catadora, educadora ambiental e coordenadora executiva da SEMUC, e nos recebeu com uma tonelada e meia de carinho e histórias de luta.

 

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O MNCR estabelece relações entre o aumento da vida útil do planeta, a preservação ambiental e o poder popular. Além disso, defende o modelo de reciclagem que chama de “reciclagem popular”. Para alguém que não conhece o mundo da catação, como você explicaria essa diferença entre a reciclagem popular e outros tipos de reciclagem, como a reciclagem que a rede de supermercados Pão de Açúcar faz, por exemplo?

 

Quando a gente fala em reciclagem popular é pensando no próximo, em fortalecer e fazer uma renda para o catador. Pensando na cadeia produtiva, como existe a máfia do lixo, o catador é o menos favorecido, o que mais trabalha e menos ganha.

 

Um exemplo: você citou o Pão de Açúcar, hoje eu faço coleta em 12 lojas do Pão de Açúcar. Só que a gente coleta o que os consumidores levam, a própria loja não destina o material deles, o material que é gerado dentro da loja é vendido e revertido ninguém sabe pra quem. Eles deveriam fazer um trabalho social e garantir uma renda, deveria ir pros catadores, e não vai, é só um faz de conta. A parte dos eletrônicos também: tem muitas cooperativas que estão capacitadas para reciclar, mas se chega, por exemplo, uma televisão, ela não é destinada pra gente. Na reciclagem popular não é assim, devem ser atendidas de fato aquelas pessoas que sobrevivem da catação, garantindo uma vida digna.

 

 

Da população catadora, 80% é feminina e a maior parte é negra. Você poderia contar um pouco sobre o começo da organização das mulheres até originar a Semuc?

 

Essa história vem desde 2006, aproximadamente. Eu cheguei a ir várias vezes para Recife para trabalhar a questão de gênero dentro do movimento. E tivemos outros encontros — por exemplo, no Paraná, tivemos o encontro nacional de mulheres. Nesse encontro, teve uma demanda de que cada estado ia construir uma secretaria de mulheres. Pra quê? Cada estado tem uma realidade e uma necessidade, então para que a gente pudesse discutir os nossos problemas e levantar as demandas, para debater e construir de fato no movimento nacional. Porque a gente estava indo para os encontros, tinha os debates e não conseguia chegar num consenso. São Paulo saiu na frente, com muita luta e muita batalha. A Semuc-SP se constituiu em agosto de 2014, e estamos aí na luta! Mas é uma coisa que já vem há um bom tempo, a gente tentando construir algo relacionado a gênero, e ainda tem muita coisa pra fazer.

 

 

Você sentiu necessidades específicas, encontros específicos para debater questões das mulheres?

 

Uma coisa que é bem real mesmo, que passou comigo e eu estou pensando de que forma vou fazer. Isso na região que eu convivo. Voltando do serviço encontrei duas companheiras — uma que era da catação e agora é da área de saúde, outra que é instável, uma hora está na catação, outra hora está na faxina, até porque tem os altos e baixos dos materiais e a gente precisa sobreviver. Eu senti a necessidade de a gente ter uma roda de conversa com elas. Porque uma foi estuprada — e eu conhecia ela há tanto tempo e só semana passada fiquei sabendo que foi estuprada pelo padrastro —, e a outra veio contando uma história relacionada à família, ao filho… Então, nossa, a gente tem que ter um momento pra desabafar e pensar junto e ter uma válvula de escape. Em duas semanas eu ouvi tantos pormenores! Tem outra companheira que está depressiva, que estava sempre ali e agora está com câncer de mama, outros problemas, e o médico desenganou. Mas que dá pra você pelo menos conversar, dar um conforto. Então você vê que várias coisas acontecem do seu lado, e o que você faz para ajudar? É necessário ter um espaço para a mulher desabafar.

 

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Em geral, se a gente pensa em trabalho feminino, existe a questão da invisibilidade. Tem estatísticas que dizem que a mulher ganha menos que os homens nos mesmos cargos, e ainda tem a dupla jornada, em casa. E, em alguns casos, além do menor reconhecimento social em trabalhos que são realizados predominantemente por mulheres, existe ainda uma outra camada de invisibilidade, que é a dos trabalhos que socialmente não se quer ver. Há vários estigmas e formas negativas e preconceituosas de tratamento da população que trabalha com as carroças de catação, por exemplo, não se reconhece o trabalho como uma parte do serviço público de limpeza. Dentro da própria prefeitura, às vezes, não se tem essa valorização…

 

Hoje, com todos os percalços, já se reconhece bem o trabalho do catador. Deveria ser reconhecido de uma forma melhor, mas alguns paradigmas já foram quebrados. Em relação à invisibilidade, é mais a população de carroça, que as pessoas acham que está atrapalhando o trânsito, não vê como um bem social, de limpeza pública, pra melhorar o planeta. Mas também se está caminhando pra isso. Eu acho que com essa questão da falta d’água [em São Paulo], esse calor, tem muito que lutar e conscientizar a população e a gente está conseguindo mostrar um pouco da realidade.

 

Mas na catação em si, nas cooperativas, não tem muito essa diferenciação [sexual do trabalho]. Até porque tem cooperativas que só têm mulheres, e elas fazem tudo o que um homem faria: dirigir caminhão, prensar, fazer carga, que é desgastante porque é um serviço pesado. Mas isso tem muita divergência, principalmente em cooperativa mista, porque a gente fala em igualdade e os homens acham que a gente tem que se matar [de trabalhar]. A Secretaria de Mulher não veio pra dividir, mas para mostrar que, infelizmente, ainda tem muito machista no nosso meio e que precisa entender e aprender a respeitar as diferenças e as fragilidades.

 

 

Por que você acha que tem tantas mulheres na catação?

 

Em 2008, nós fizemos um trabalho junto ao Instituto Pólis que está disponível no site do movimento e do instituto. E lá fizemos esse levantamento de que, na América Latina, 80% das mulheres são catadoras. Isso porque são as que aguentam mais tempo, porque a maioria dos homens acha que é uma coisa passageira, só um bico. Quando vê que a situação cai, que nem essa época do ano em que o material caiu bastante, muitos saem pra fazer outra coisa — construção civil, por exemplo, apesar de que hoje em dia as mulheres também estão ocupando esses espaços —, não suportam ganhar pouco. As mulheres dão mais qualidade no material e conseguem segurar por mais tempo, porque muitas vezes elas são mães de família.

 

 

Geralmente esse é o único trabalho ou elas fazem faxina depois, por exemplo?

 

Tem algumas que fazem, não são todas não. Hoje a maioria sobrevive só da catação mesmo. Dá pra contar nos dedos as que fazem catação na rua e outro trabalho.

 

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Que tipos de ações a Semuc e o MNCR fazem com o entorno, com a população próxima às cooperativas? São as catadoras e catadores que fazem as atividades? No site vocês falam da criação de creches, programas de conscientização de separação de materiais…

 

Em Osasco, dentro da própria lei orgânica de resíduos sólidos, dos direitos que já temos adquiridos pela lei federal, a Semuc começou a trabalhar tanto divulgando de porta em porta que existe uma cooperativa na região quanto entregando panfleto. Uma discussão que a gente está tendo aqui em São Paulo: a prefeitura implementou um programa de coleta seletiva, só que estava deixando a educação ambiental para as concessionárias. E isso não atende nossas necessidades, é diferente eu chegar para você e me apresentar: “bom dia, meu nome é Guiomar, eu faço parte de uma cooperativa, a gente vai estar passando toda sexta-feira, a partir das 10h na sua casa”, aí leva o panfleto especificando o que é. É diferente de o cara passar com uma musiquinha no carro dizendo “é a coleta seletiva chegando”, passa ali e se não deixou [o material reciclável], não deixou. A gente já fez o teste em Diadema e em São Bernardo, foi feito aqui em São Paulo também mas o protagonista não foi o catador, foi o poder público e a gente conseguiu detectar que o trabalho feito de porta em porta pelo catador, quando ele apresenta a cooperativa, a gente consegue 100% de reciclagem e 0% de rejeito. É um ganho imensurável porque é mais fácil de lidar e mesmo que tenha que separar, se faz com maior rapidez, e tem menos desperdício. Então a gente briga muito por isso, você está na rua, com uma identificação, explica pra Dona Maria e fica mais fácil tanto a adesão dela quanto a qualidade do material. Tanto o movimento quanto a SEMUC tem essa preocupação, é importante.

 

 

Você comentou dessa questão da falta de água e sobre como isso gera uma movimentação em torno do tema da ecologia. Como você percebe, no seu dia a dia, as implicações que essas questões das mudanças climáticas trazem?

 

Esses dias eu tava comentando, tava eu e a Aninha e a gente mora próximo à [represa] Billings. E estamos vendo o tanto de plástico. O que a gente tenta fazer? A gente teve um encontro, há duas semanas atrás, era um seminário pra gente discutir questões de políticas e eu chamei a atenção do povo pra essa questão. Porque jogar o resíduo pra água contamina a água, tem os igarapés, e a gente tá reclamando que não tem água e o pouco que tem a gente polui, o que que acontece? Aí a gente fez um pequeno ato simbólico, recolhendo, na brincadeira deu uma tonelada e meia de pet em quatro horas. Uma tonelada e meia. E a gente só catou no entorno, não chegou a catar barco pra retirar ali dentro. Aí eu falei: tá vendo, é uma tonelada, são mil quilos, quantos quilos não tem lá dentro, e que a gente poderia estar impedindo? Ia deixar os mananciais mais limpos. Pelo menos as cem pessoas que estavam lá se sensibilizaram com isso. Se a gente conseguisse fazer isso, de em cada cem a gente pegar pelo menos dez, quanto que não melhoraria? Igual lá no Grajaú, que é uma região deficiente em moradia. A gente sabe que tem a demanda por moradia, mas porque não juntar com uma possibilidade ecológica? Vai desmatando sem olhar, sem prestar atenção… A gente tem que preservar o meio em que a gente vive e se preocupar. Porque a água não é reciclável.

 

 

Uma coisa interessante sobre os princípios organizacionais do Movimento é que existe essa articulação entre cooperativas, associações e entrepostos. Essa forma de organização, para que, nas palavras de vocês, ninguém se beneficie do trabalho alheio, nos chamou a atenção. Mas como é a relação entre xs catadorxs organizadxs e xs catadorxs individuais?

 

Com xs catadorxs individuais a gente orienta, procura trazer pra uma organização, até mesmo porque a própria lei está colaborando pra isso, se quer sobreviver da catação tem que se organizar, o sistema leva a isso. Mas o nosso maior concorrente é a máfia do lixo. Infelizmente ela existe, são os barões e sempre levam a maior fatia do bolo.

 

 

Havia até uma reportagem sugerindo que o prefeito de Osasco tinha participação numa empresa responsável pelo lixo…

 

Eu não sei te dizer não, mas São Carlos tem. O prefeito era um dos donos da fábrica de pet… Mogi das Cruzes também era assim. Por que? O dono do aterro era irmão do prefeito. O dono dos caminhões de coleta também era da família do prefeito. Mas hoje mudou. Hoje lá tem cooperativa.

 

 

Já que a gente estava falando de organização, e a Ju falou da crise hídrica, como a organização ajuda na construção de entender a catadora como uma agente ambiental?

 

Tem uma coisa pra gente que é a metodologia do catador para o catador. Em tudo o que a gente faz no movimento a gente passa essa importância. A gente mostra por vídeos e no dia a dia, na prática. Tem o nome agente ambiental, tem o nome reciclador, mas na CBO [Classificação Brasileira de Ocupações] a gente é catador. E lá tem toda a descrição do que umx catadorx faz. Umx catadorx não só cata, elx separa, faz a conscientização ambiental, tá tudo numa função só. É a mesma coisa que cabelereirx, cabelereirx só corta cabelo? Então pra quem não conhece a gente apresenta tudo o que engloba o nosso trabalho. Eu hoje, por exemplo, não sou só catadora, sou educadora ambiental, formada pelo Instituto Paulo Freire. Mas não deixo de ser catadora.

 

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Em 2013, a Geni participou do 9º Encontro da Rede Sudeste de Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs). As cooperativas populares naquele ano selecionaram o tema gênero porque era algo que demandava discussão entre xs cooperadxs, e a gente foi conversar lá. E muita gente dizia que os homens, ao ver que as mulheres entravam para cooperativas e conseguiam autonomia financeira ou formação política, consideravam as cooperativas um inimigo. Depois que as mulheres entravam nas cooperativas, elas voltavam pra casa questionando coisas. Vocês sentem isso?

 

Sim, despertar, desperta-se pra realidade da vida e aí elas veem que elas tem toda a força para discutir e debater de igual para igual. Eu não senti especificamente porque eu já era doida. Mas é uma coisa bem legal isso. Eu falava “Fulana, você é liderança, você pode”, e ela falava “ah, mas meu marido fala que eu não sou”. Não sei se vocês tiveram a oportunidade de assistir alguns capítulos dessa novela nova, As regras do jogo. Gente, eu ainda vou dar um jeitinho de processar a Globo, porque o que o homem lá faz com a mulher… Xinga ela, coloca ela lá pra baixo. A mulher é maravilhosa, e se sente o cocô do gato, e com essa amiga era a mesma coisa. Eu consigo visualizar ela lá nas cenas. Mas a gente conversando eu falava “Você é capaz, você vai lá, você é uma liderança, você vai descobrir isso”, até que ele aceitou. Hoje ninguém pisa nela, porque a gente foi mostrando que a mesma força que ela tem na coleta ela pode ter dentro de casa. Não precisa desrespeitar, tem que falar de igual pra igual e ele tem que parar pra ouvir também. E dentro da cooperativa a gente tenta fazer rodas de conversa pra que elas se descubram. Porque não adianta só falar que você tem esse poder se você não sentir ele em você. E isso é uma coisa que liberta também. Teve outra que vivia isso também no movimento, e o marido dizia “ou eu ou o movimento”. E ela está com a gente até hoje. Com o marido eu não sei! [Risos]. É uma coisa legal. Meu marido também achava ruim que tinha muito homem no movimento. Eu trouxe ele pra conhecer o movimento, pra participar e conviver. Hoje ele respeita, não reclama. Antes ele tinha isso de “ou eu ou o movimento”, e eu perguntava “você vai me dar tudo o que o movimento me dá?”. Eu conheço meu marido desde os sete anos de idade, e desde os 14 eu sempre fiz parte de movimentos sociais por conta do meu pai, que me levava pras reuniões porque eu sabia escrever, eu era a secretaria dele. Hoje eu agradeço muito a ele esse meu envolvimento com movimentos sociais e políticos. O que eu sei hoje e que consigo passar adiante foi graças a ele, porque eu ia com raiva mas aprendia. Nós éramos em sete mulheres, eu falava “leva a Rosana, por que é que tem que ser eu?” e ele dizia “Porque você tem paciência”, e hoje eu agradeço. Então essa adrenalina de brigar, de lutar, de poder compartilhar, não tem ninguém no mundo que vai me dar isso. Eu falei “você vai me dar isso?”, meu marido disse que não e eu trouxe ele aqui. Hoje ele aceita de boa, e quando ele pode participar ele participa. E é isso que a gente tenta trazer pra todas.

 

 

 

Antes ele tinha isso de “ou eu ou o movimento”, e eu perguntava “você vai me dar tudo o que o movimento me dá?”. […] essa adrenalina de brigar, de lutar, de poder compartilhar, não tem ninguém no mundo que vai me dar isso

 

 

 

Voltando um pouco na questão da escolha do movimento por escolher a identidade catadora para aglutinar as pessoas. O seu exemplo do cabelereiro foi ótimo, escolhe-se um nome mas ele também engloba outras funções. Por que catadorxs, como foi isso?

 

Isso foi a partir de um debate, uma discussão dentro do movimento, em 2000. A gente pensa assim: a gente sempre foi catadorx. Antigamente a maioria das pessoas inclusive chamava a gente de “homem do saco”. E a gente vive do que? Da catação. Lógico que depois da catação tem a seleção, a separação, todo o procedimento, tem a educação, tem a prensagem, pra depois ir pra comercialização. Mas qual é o trabalho inicial? A catação. Por isso a gente é conhecidx por ele. Pra mim esse é o marco. Às vezes as pessoas perguntam: “você não tem vergonha de ser catadora?”. Mas é o que eu faço! Não vou falar “sou triadora”, porque pra que eu possa triar eu tenho que catar, uma é a sequência da outra.

 

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Foi muito interessante seu relato sobre seu começo com a política e com os movimentos. Tem mais algum episódio marcante nessa trajetória que você queira nos contar?

 

É tanta coisa… Eu participei do movimento estudantil. Não sei se vocês tiveram a oportunidade de conhecer, mas no meu tempo tinha a JOC [Juventude Operária Católica], e eu até estava falando com a minha filha. Entre os 14 e os 16 anos, quando eu comecei a mexer com essas coisas, não tinha celular, zap [whatsapp], face [facebook], era com o boca a boca que a gente circulava… Queriam fazer o que estão fazendo hoje, mudar os alunos de escola, e eu era a mais velha de sete irmãs, minha mãe dependia de mim pra levar as minhas irmãs pra escola. E isso que estão tentando fazer não dá, até hoje se faz isso [de um irmão levar o outro], eu levava as irmãs menores pra minha mãe poder trabalhar com tranquilidade. E nós conseguimos mobilizar, na época, 800 alunos, sem telefone sem nada. E hoje com tanto mecanismo de comunicação o pessoal só quer balada, pancadão, e não se organiza para uma questão social mesmo, do dia a dia, que querendo ou não diz respeito à vida dele. E minha filha fala “tá bom, mãe, eu vou com a senhora, acompanho, mas…” e eu falo “se vocês não se sensibilizarem o suficiente para conseguir contaminar a cabeça dos outros pra fazer coisa boa a gente só vai ter morte e coisas ruins”. Então o tempo que você vai se juntar, se junta pra fazer uma coisa boa.

 

Outra ação que fizemos foi em relação aos ônibus. A gente conseguiu reunir várias pessoas do nada, sem as condições de hoje. Então se a pessoa se dedicar, fazer uma política independente de partido , isso é uma coisa que eu acho bem importante. Ter uma conscientização política, saber em quem está votando, saber como cobrar, isso é o que nós precisamos. É o que eu falo pro pessoal. Todos os políticos, desde a presidência até o prefeito são nossos empregados. Nós votamos e confiamos neles, então nada mais justo que cobrar. As plataformas, as metas que a gente estipulou são essas. Eles estão a nosso serviço, não o contrário. Você tem que ter a visão do todo, de como funciona o mecanismo político para saber pra quem se direcionar.

 

 

Teve agora em setembro o I Encontro Estadual de Mulheres de São Paulo. A gente queria saber se outros movimentos de mulheres somaram.

 

Nesse encontro nós tivemos as mulheres do MST participando com a gente. E a presença das mulheres negras pra mim foi impactante pelo seguinte: dos meus 23 aos meus 42 eu participava do movimento negro. Era muito legal, a gente discutia a questão da luta, e tudo, mas uma hora eu tava no movimento negro, no movimento feminista e no MNCR, e a demanda do MNCR tava exigindo muito de mim, eu não tive como continuar e parei de participar de todos. Não que eu tenha abandonado, mas eu não tinha perna pra atender tudo. E eu parei num momento em que se estava justamente discutindo a questão da mulher negra estudar. Eu tenho uma filha que é negra, 22 anos, fala inglês, francês, alemão e libras, e eu fico muito feliz com isso, a gente estava lutando por isso. E nesse encontro, quando eu vi um grupo de mulheres lutando, falando das nossas raízes, e vi muita menina nova, isso aí me deixou muito feliz. Porque mesmo eu me afastando a coisa seguiu. Isso é primordial pra mim, saber que eu deixei um bom legado, eu consegui passar uma mensagem, e o pessoal não desistiu, mesmo que eu não esteja a frente o negócio está acontecendo. Isso me deixa muito feliz, foi muito emocionante, eu chorei muito. É triste quando a pessoa diz “se você não for não vai acontecer”, eu acho muito chato isso. De repente se eu morrer aqui o negócio vai parar porque eu morri aqui? Não pode. Tem que continuar. Quando eu vi a filha da minha amiga, a minha amiga… é até complicado falar… elas vieram dizendo “a gente está aqui, minha mãe está feliz”. Eu as reencontrei, fui lá na casa delas. É muito importante saber que elas estão na luta com o mesmo objetivo, avançaram bastante nessa questão, é bem gratificante. Agora dia 18 de novembro vai ter a marcha das mulheres negras, e elas vão estar ali. É bem legal.

 

 

 

Quando eu vi a filha da minha amiga [do movimento negro], a minha amiga… é até complicado falar… elas vieram dizendo “a gente está aqui, minha mãe está feliz”. Eu as reencontrei, fui lá na casa delas. É muito importante saber que elas estão na luta com o mesmo objetivo, avançaram bastante nessa questão, é bem gratificante

 

 

 

Tem outras mulheres catadoras no movimento negro?

 

De uns dois anos pra cá a gente está se envolvendo, teve um encontro nosso em Brasília e a gente, discutindo umas temáticas, conseguiu se encontrar. Algumas têm participado e a tendência é se fortalecer novamente, fazer a junção.

 

 

 

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Ilustração: Emília Santos

Fotos: Juliana Bittencourt

 

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