Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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FARÓIS ACESOS | Casos de família ou Eleições Presidenciais 2014

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Se falta de noção fosse liberdade, o Brasil seria o país mais democrático do mundo. Ou o David Lynch produziu essas eleições ou vocês são muito anormais. Por Neusa Sueli

 

 

Parecia Casos de Família, Programa da Márcia, final de Ultimate Fight, mas era só mais uma eleição para a presidência da República no Brasil. Quem, como eu, foi obrigadx a acompanhar a batalha campanha eleitoral de 2014, começou a desconfiar que o volume morto da água de São Paulo está reprogramando o cérebro das pessoas e transformando-as em incubadoras de coliformes fecais.

 

elição brasil dilma  aecio revista geni cecilia silveira

 

 

Poucas vezes na vida, eu fiquei tão estarrecida e tão perto de entender o sentimento que se tem na iminência de uma guerra: ora era a direita enaltecendo o Evander Aéciofield, pintando-o como um “varão valoroso”, “homem de bem”, que “sabe falar”, “gente de família”, bem casado, pai de gêmeos, um “gentleman” – aliás, depois dessa eleição ele já pode ser canonizado pelo Papa Chico; ora era a esquerda – caviar, bolivariana [insira aqui qualquer um desses adjetivos “inteligentes” que o pessoal que fugiu da carrocinha vociferava] defendendo desarrazoadamente a presidenta Tyson Dilma, que fora promovida a mártir, salvadora da pátria, Iracema – Virgem dos Lábios de Mel, mãe dos pobres e candidata a Nossa Senhora da Aparecida.

Nessa briga quem perdeu as orelhas fomos nós, de tanta merda que fomos obrigadxs a ouvir. Programa de governo com propostas e projetos… esses devem ter secado junto com a Cantareira.

Mas os ataques que presenciei, sobretudo do pessoal que não se conformava com a iminência de uma vitória do partido de esquerda, me deixaram mais atordoada e perdida do que a saudosa gang bang de que participei em 2002 [<3].

Uns conclamavam o genocídio e a castração química dos eleitores do PT; outros, pediam a volta da ditadura militar.

 

 

manifestação eleição dilma revista geni cecilia silveira

 

 

O tal Lobão, que jurava que ia embora do país se o PT ganhasse, arregou . O engraçado é que esse ser é tão tosco que nem se deu conta de que agindo assim, a única coisa que fez foi colaborar para o pessoal votar ainda mais na Dilma (se essa era a intenção, deu certo).  Mas quando a gente achou que ele estava pronto para o #partiumiami, ele dá para trás (no mau sentido) e resolve fazer o D. Pedro I e ficar #chateada. Muito triste essa décadence sans élégance desse artista nacional, sabe. Estamos todxs aqui na esperança de que essa “vida louca, vida breve” te leve, mas te leve com gosto para a puta que pariu. #love #peace

 

manifestação dilma lobao revista geni cecilia silveira

 

[Pausa para tirar a cabeça do esgoto]

 

Acho melhor parar por aqui porque foram tantas as asneiras radioativas a que fui exposta, que estou precisando fazer um spa detox de falta de bom senso para voltar a ser linda. Porque vocês sabem, comigo é assim: eu saio dos seus olhos, eu rolo pelo chão. Feito um amor que queima, magia negra. Sedução. Preciso voltar a ser linda, linda como uma Neusaaaaaa!

 

Rosana Neusa revista geni cecilia  silveira

 

[Voltando a pôr a cara na bosta…]

 

O demônio deve estar chateado por não conseguir bater a humanidade no quesito falta de bom senso, sabe.

E por falar no carcará sanguinolento, torço para Deus existir só para ele castigar esse povo matusquela. Eles vão direto para o inferno dos reaças (Satanás, que inventou a burocracia, setorizou o inferno também), uma sala toda vermelha cheia de adesivos do PT e faixas com o rosto do Che, onde eles vão ficar acorrentados numa cadeira ouvindo Guantanamera e a Internacional Comunista (com remix do David Guetta) tocando em russo e em looping ad aeternum.

O mais absurdo é que as pessoas que sugeriam essas atrocidades o faziam dizendo estar ávidas por “mudança”, palavra que, diga-se de passagem, foi tão usada e repetida (pela esquerda, direita, centro, interior, exterior, mundo espiritual) que até já pode ser cancelada da língua portuguesa – junto com “luto”, “petralha”, “indignação”, “Vou pôr só a cabecinha”, “Miami”, “Romero Britto”, “Aécio Never”, “Eu tenho medo”, “Basta” e “A senhora já tem cartão da Renner?”.

Mudar esse discurso de ódio que é bom ninguém (inclusive xs candidatxs) muda. Prestem atenção, cambada de sem noção! É por isso que eu não canso de repetir:

 

EU TÔ PUTA!

Quer dizer, eu sou puta – “com muito orgulho, com muito amor” – mas, além
de puta,

EU ESTOU FURIOSA

 

Vocês podem tentar justificar com qualquer argumento esses comportamentos inadmissíveis, mas o nível de desrespeito aos seres humanos que nós acompanhamos não tem explicação – e é imperdoável. É imperdoável vocês terem trazido à tona o que há de pior na vida. Nunca vou entender gente que pede mudança, mas só é capaz de ver como mudança aquilo que lhe favorece, que lhe mantém na sua situação confortável.

Depois da vitória da Dilma, toda uma miríade de carpideiras virtuais resolveu tirar seus xales pretos do armário e entrou em luto. Até hoje, o que mais se vê nas redes sociais é o pessoal colocando uma bandeira do Brasil em preto e branco (que eu acho bem mais chique e mais tendência) em sinal de LUTO.

Francamente, a única coisa que não morre nunca é a imbecilidade humana. Façam-me o favor de parar com essa história boba de luto, porque o que morre sem parar neste país é a noção de vocês.

 

Vão chupar meia hora de pinto, cu ou xana e parem, simplesmente PAREM!

Se eu fosse ficar de luto porque o mesmo partido venceu as eleições em SP e o estado está em uma situação calamitosa, já teria virado gótica, a Mortícia Adams, vocalista do Evanescence, a Mulher Gato, a Perpétua ou a própria Elvira – Rainha das Trevas, de tanta roupa preta que teria que usar.

Vocês, que pediram tanta “mudança” durante a campanha eleitoral, poderiam dar o exemplo e começar a mudar a si mesmxs. Ponham uma coisa na cabeça: as eleições foram ganhas por meio de um processo eleitoral democrático – seja em SP, seja no país como um todo.

Podemos discordar do resultado final, mas, nessa forma de representação que escolhemos, a maioria vence, quer vocês gostem ou não. Estão insatisfeitxs? Não se sentem representadxs? Pois é: tentem pensar que talvez esse sistema de representação chamado democracia é que parece estar em crise (no mundo, aliás) em vez de sair por aí alardeando bobagens e preconceitos.

Vocês são responsáveis por aquilo que dizem, não se esqueçam – porque eu não esqueço.

Nosso desafio agora é manter esta politização e continuar lutando por mudanças (ainda há tantas a serem feitas). A colaboração e presença de todxs nós são, aliás, mais do que imprescindíveis.

Não se esquivem. Mais do que seguir em frente, me parece que agora é o momento de olhar para os lados, e, talvez, no espelho. Alguns de vocês não acreditarão naquilo que se tornaram, e espero de coração que sejam acometidos por uma vergonha profunda, porque ver o pior de vocês não foi nem um pouco bonito.

 

 

 

 

 

 

 

Ilustração: Cecilia Silveira.

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