Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Salve Xangô

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Ilú Obá de Min, luta e resistência afro-brasileira. Por Carol Cruz


Precisei vir a São Paulo para me perceber como mulher negra. Faço parte daquela parcela da população brasileira confusa sobre suas raízes. Sobrenome Silva, morena, cabelo cacheado. Transito tranquila pelas esferas sociais do país, tenho poucas lembranças de discriminação, mas tenho. Sempre tive a certeza de que não era branca, mas duvidava se era negra.  É um verdadeiro crime isso que fizeram conosco, roubar de nós esta parte do que somos. Nessa mistura que é o Brasil me restou o sobrenome português e se apagou o resto. E continuou se apagando, quando a família escondeu uma tataravó negra, quando eu quis alisar o cabelo, quando resolvi não gostar do meu nariz, quando não me reconheci nas referências que me foram oferecidas. Aliás, foi assim que eu me descobri negra: vendo as caras de desaprovação cada vez que eu destaco esta identidade.

 

Hoje falo “sou negra”, por mais discutível que possa ser para alguns, e, com todo respeito às indiscutivelmente negras, estou ciente dos privilégios de uma pele mais clara e de um cabelo que não é crespo. Mas acho que como é para todas, o reivindicar do ser negra é um longo processo que aflora corporalmente, socialmente e politicamente. E eu vivo isso intensamente a cada toque dos tambores do Ilú Oba de Min (para conhecer mais sobre o grupo, recomendo muito este texto da Mafalda Pequenino, também integrante do grupo).

 

O Ilú Obá de Min é um bloco de rua paulistano de percussão afro, cuja a bateria é formada apenas por mulheres; os homens podem participar dançando.  O nome tem origem iorubá e significa “as mãos femininas que tocam tambor para o Rei Xangô”, assim batizado por Beth Belli, a regente e mestra da nossa bateria. Beth é percussionista desde 1987 e antes de fundar o Ilú, com a também percussionista Renata Aragão, tocou em outros grupos e baterias de escola de samba – espaços predominantemente masculinos, ainda, como se sabe. Ela nos conta, en passant, que a decisão por formar um grupo apenas de mulheres passou por uma experiência de ter sido sabotada enquanto regente num destes grupos, pelo simples fato de ser mulher. Xangô, o Orixá da Justiça, é homenageado pelo bloco para que ele nos dê força para que, com nossas próprias mãos, superemos essa injustiça histórica: a proibição da mulher de tocar o tambor. Mas não só. Para que superemos o veto à mulher ocupar a posição de mestra, de compositora, de responsável por organizar e realizar projetos incríveis como o Ilú. Embora o nome  do bloco venha desta história pessoal da Beth, acredito que ele ecoe nas histórias de cada uma das integrantes, assim como em nossa história coletiva.

 

Como o próprio nome já indica, embora não seja religioso, o Ilú Oba de Min possui um forte vínculo com as religiões de matriz africana, em especial o Candomblé. Para um grupo cultural cuja proposta é divulgar e zelar pela cultura afro-brasileira, esta religião ocupa um espaço fundamental.  Foi através da resistência de sua prática que se preservou o que sobreviveu à catástrofe sofrida pelos povos africanos que se encontraram aqui no Brasil. Quando tocamos para os Orixás, todo início de baque, quando terminamos cantando para Oxalá em círculo, é esta memória que evocamos, esta que se manifesta quase que intuitivamente motivada pelo tambor, linguagem herdada das e dos ancestrais africanos.

 

 

 

A religiosidade, a ancestralidade, o círculo, a corporeidade e a musicalidade são princípios importantes na constituição do grupo. Foi no Ilú Obá de Min que aprendi como estes princípios, também conhecidos como valores civilizatórios afro-brasileiros, permeiam nossa vida cotidiana, nossos gestos, nossos hábitos. O círculo, que permite que todas se vejam em igualdade, facilita a troca e a conversa, se repete em diversas tradições afro-brasileiras, como na roda de capoeira, de samba, dentro dos terreiros, no jongo entre tantos outros espaços. Em termos religiosos é uma prática poderosa de cuidado do axé, da energia vital, que se potencializa quando tocamos juntas. O cultivo desta força se torna fundamental para um grupo que se compreende como um projeto de ação afirmativa de ocupação do espaço público, engajado na luta por um mundo sem racismo, sexismo e homofobia. Para os mais secularizados, pode-se entender esta força como o sentimento de empoderamento que sentimos ao tocarmos juntas nossas alfaias, djembês, abês e agogôs.

 

 

A ancestralidade não trata apenas de resgatar o que há de africano na gente, a busca por uma África tantas vezes idealizada, mas da prática do respeito àquelas que vieram antes de nós. Sejam elas as mulheres mais antigas no grupo, por tanto o respeito a quem construiu e deu vida ao bloco até então, sejam elas as mulheres que fizeram e vêm fazendo lutas sociais importantes. Por isso a cada carnaval o Ilú Oba de Min homenageia, em suas composições, dança e figurino, grandes mulheres negras como Rainha Nzinga, Leci Brandão (madrinha do bloco), Raquel Trindade, Nega Duda (cantora do bloco e importante representante do samba do recôncavo baiano em São Paulo) e, este ano, a escritora Carolina Maria de Jesus – o que significa reconhecer e se inserir nesta tradição de luta. Por mais que não sejamos todas mulheres negras, como mulheres brasileiras reivindicamos e nos inserimos nesta tradição.

 

Foi sentindo esta força, o frio na barriga e a pele arrepiada, que eu soube que precisava tocar no Ilú. Eu já me reconhecia nesta tradição afro-brasileira de resistência, que é lúdica, musical, dançante e  muito séria. Tenho a sensação de que se os movimentos sociais, as organizações de esquerda e coletivos feministas soubessem a força gostosa que tem essa tradição de luta e resistência negra, daríamos um salto significativo em nossas militâncias. A cada ensaio em que encontro e me reconheço nas companheiras de baque, cada vez que vejo as mestras conduzindo aquela bateria enorme, ou quando vejo os homens na dança compreendendo esse arranjo e participando dessa luta, eu saio renovada. Acredito que, cada vez que o Ilú Obá de Min preenche de som o Vale do Anhangabaú, a cidade de São Paulo, que pode ser tão dura, tão difícil, não sai incólume, e damos um passo à frente na luta por um mundo mais livre, igualitário e justo.

 

Ilustração: Emilia Santos.

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