Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Irmãos e irmãs revolucionárixs

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Quando o Partido Pantera Negra, dos Estados Unidos, se uniu às feministas e aos gays. Por Marcos Visnadi

 

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Os Estados Unidos possuem a maior população carcerária do mundo, com aproximadamente 2,3 milhões de pessoas presas (o que corresponde a 25% da população carcerária mundial). Desse total, aproximadamente 1 milhão são negros. Segundo reportagem do site Opera Mundi, nos EUA, há mais negros presidiários hoje do que havia negros escravizados no século 19.

 

Um desses prisioneiros morreu no último dia 4 de outubro. Seu nome era Herman Wallace, e ele é lembrado não apenas porque passou 41 anos em confinamento solitário, isolado em média 23 horas por dia em sua cela e privado de qualquer contato com outros seres humanos. Afinal, mais de 81 mil pessoas são mantidas nessas condições nos EUA. Wallace é lembrado aqui porque fez parte de um dos mais importantes grupos políticos da história estadunidense, o Partido Pantera Negra para Autodefesa.

 

Esse partido foi um grupo socialista revolucionário que botou pra quebrar nos anos 1960. Ele foi fundado em 1966 na Califórnia por dois amigos, Huey Newton e Bobby Seale, e logo alcançou uma grande popularidade entre o povo marginalizado – e conquistou o ódio do governo. Em 1968, o diretor do FBI, J. Edgard Hoover, classificou o partido como “a maior ameaça para a segurança interna do país”.

 

Mas o que fazia das Panteras Negras tão perigosas para as autoridades? A ação do grupo era extremamente organizada e se baseava tanto na necessidade de resolver problemas urgentes (como o assassinato de jovens negros pela polícia) quanto no estudo de táticas revolucionárias de outros países. Sua atuação era inspirada nas de pessoas como Malcolm X, que defendia a auto-organização dxs negrxs para lutar contra o racismo, e de Mao Tse-Tung, em quem se inspiraram para realizar políticas de base e programas comunitários (o mais conhecido talvez seja o fornecimento de café da manhã gratuito para as crianças da periferia).

 

Em 1969, o grupo chegou a contar com cerca de 10 mil membros e um jornal que circulava com 250 mil exemplares. O partido encerrou suas atividades no começo dos anos 80, após décadas de perseguição do governo dos EUA, que assassinou ou encarcerou muitos de seus principais militantes. Herman Wallace, por exemplo, havia sido condenado a 50 anos de prisão, pena desproporcional para a acusação de assalto à mão armada. Na cadeia, Wallace continuava atuando politicamente e se organizando com os demais presos. Não tardou para que fosse condenado a passar o resto de sua vida numa solitária por assassinar um guarda, ainda que sua culpa nunca tenha sido provada.

 

Nós precisamos do máximo de aliados possível”

 

O Partido Pantera Negra deixou como legado não só a história de sua repressão, mas principalmente suas táticas de organização e seu pensamento. Nesta edição de Geni, traduzimos um importante documento: uma carta-manifesto publicada em 1970 pelo fundador Huey Newton, ministro de Defesa do partido, em que ele defende que o movimento negro se una aos movimentos feminista e gay, que ele considera aliados na luta contra a opressão.

 

A argumentação de Newton é curiosa. Fica óbvio que ele se dirige principalmente a homens negros heterossexuais, que compunham a maioria do partido, e fala com eles baseado numa experiência pessoal de machismo e homofobia. “Às vezes”, ele diz, “nosso primeiro instinto é querer dar um murro na boca de um homossexual e fazer uma mulher ficar quieta.” Ele próprio diz não saber muito bem a que se deve esse “primeiro instinto”. Mas, por via das dúvidas, mesmo quando se identifica como opressor, prefere ficar do lado de quem é oprimido.

 

Esta carta é uma das importantes contribuições das Panteras Negras aos movimentos libertários. Nossos instintos, nossos receios e nossa ignorância não devem anular pessoas que lutam, como nós, por um mundo melhor.

 

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Uma carta de Huey Newton para os Irmãos e as Irmãs Revolucionárias sobre os Movimentos de Liberação de Mulheres e de Gays

 

Nos últimos anos, movimentos fortes se desenvolveram entre mulheres e homossexuais que buscam sua liberação. Há alguma incerteza sobre como se relacionar com esses movimentos.

 

Independentemente das opiniões pessoais e das inseguranças que você tenha com relação aos homossexuais e aos vários movimentos de liberação de homossexuais e de mulheres (e eu falo de homossexuais e de mulheres como grupos oprimidos), nós deveríamos tentar nos unir a eles de modo revolucionário. Digo “independentemente das inseguranças” porque, como nós sabemos muito bem, às vezes nosso primeiro instinto é querer dar um murro na boca de um homossexual e fazer uma mulher ficar quieta. Nós queremos dar um murro na boca do homossexual porque temos medo de ser homossexuais; e queremos bater na mulher ou fazê-la calar porque temos medo que ela nos castre ou nos tire os colhões, que, talvez, nós nem tenhamos, pra começo de conversa.

 

Nós precisamos ter segurança em nós mesmos e, portanto, respeito e sentimentos por todos os povos oprimidos. Nós não devemos usar a atitude racista que os brancos racistas usam contra o nosso povo por ele ser preto e pobre. Muitas vezes, o branco mais pobre é o mais racista, porque ele tem medo de perder algo – ou de descobrir algo que ele não tem. Então você vira uma espécie de ameaça pra ele. Esse tipo de psicologia é o que opera quando nós vemos pessoas oprimidas e ficamos com raiva delas por causa de algum comportamento específico ou pelo jeito como elas se desviam da norma estabelecida.

 

Lembre-se: nós ainda não estabelecemos um sistema de valores revolucionário; nós estamos no processo de estabelecê-lo. Eu não me lembro de termos jamais constituído nenhum valor que diga que um revolucionário deve ofender um homossexual, ou que um revolucionário deve se certificar de que as mulheres não falem sobre a opressão específica que sofrem. Na verdade, é exatamente o oposto: nós dizemos reconhecer o direito das mulheres de ser livres. Ainda não dissemos muito sobre os homossexuais, mas devemos nos relacionar com o movimento homossexual porque ele é de verdade. E eu sei – através de leituras, da minha experiência de vida e de observações – que os homossexuais não recebem liberdade de ninguém na sociedade. Talvez eles sejam as pessoas mais oprimidas da sociedade.

 

E o que fez eles virarem homossexuais? Acho que é um fenômeno que eu não entendo completamente. Tem gente que diz que é a decadência do capitalismo. Não sei se é isso. Prefiro duvidar. Mas, qualquer que seja o caso, nós sabemos que a homossexualidade é um fato que existe e nós temos que entendê-la na sua forma mais pura, ou seja, que uma pessoa deve ser livre para usar seu corpo da maneira que quiser.

 

Isso não é endossar coisas na homossexualidade que nós não vemos como revolucionárias. Mas não há nada que diga que um homossexual não possa ser revolucionário. E talvez eu esteja, agora, sendo preconceituoso ao dizer que “até um homossexual pode ser revolucionário”. É bem o oposto: talvez um homossexual seja o mais revolucionário.

 

Quando nós fazemos conferências, protestos e demonstrações revolucionárias, deveria haver participação completa dos movimentos de liberação gay e de mulheres. Alguns grupos podem ser mais revolucionários que outros. Nós não deveríamos usar os atos de algumas pessoas para dizer que todos são reacionários ou contrarrevolucionários, porque não são.

 

Nós deveríamos lidar com esses movimentos assim como lidamos com qualquer outro grupo ou partido que se diz revolucionário. Nós devemos tentar julgar, de algum modo, se eles estão operando de modo sinceramente revolucionário e de uma situação real de opressão. (E vamos admitir que, se são mulheres, elas provavelmente são oprimidas.) Se eles fazem coisas que não são revolucionárias ou que são contrarrevolucionárias, então devemos criticar essas ações. Se nós sentimos que o espírito do grupo é ser revolucionário na prática, mas que ele comete erros de interpretação da filosofia revolucionária ou não entende a dialética das forças sociais em questão, nós devemos criticar isso, e não criticar o grupo por ele ser de mulheres que querem se libertar. O mesmo vale para os homossexuais. Nós não devemos, nunca, dizer que um grupo inteiro é desonesto quando ele está tentando ser honesto. Eles estão apenas cometendo erros honestos. Amigos podem errar. O inimigo não pode errar porque a sua própria existência é um erro, e nós sofremos com esse erro. Mas a frente de liberação das mulheres e a frente de liberação dos gays são nossas amigas, são nossas aliadas em potencial, e nós precisamos do máximo de aliados possível.

 

Temos que estar dispostos a discutir as inseguranças que muitas pessoas têm com relação à homossexualidade. Quando eu digo “inseguranças”, quero dizer o medo de que os homossexuais sejam algum tipo de ameaça à nossa virilidade. Eu entendo esse medo. Por causa do longo processo condicionante que constrói insegurança no homem estadunidense, a homossexualidade pode produzir certos receios em nós. Eu mesmo tenho receios quanto à homossexualidade masculina. Por outro lado, eu não tenho os mesmos receios quanto à homossexualidade feminina. E isso é, em si mesmo, um fenômeno. Provavelmente, isso acontece porque a homossexualidade masculina é uma ameaça para mim, e a feminina não é.

 

Nós temos que ter cuidado com o uso de termos que possam ofender nossos amigos. Os termos “viado” e “biscate” devem ser deletados do nosso vocabulário, e, em particular, nós não devemos usar termos que normalmente designam homossexuais para atacar homens que são inimigos do povo, como [o presidente Richard] Nixon ou [o procurador-geral John] Mitchell. Homossexuais não são inimigos do povo.

 

Nós devemos tentar formar uma coalizão de trabalho com os grupos de liberação gay e de mulheres. Nós devemos sempre lidar com as forças sociais da maneira mais apropriada.

 

Tradução: Marcos Visnadi.

 

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A versão original do texto pode ser conferida em: http://lgbthmuk.blogspot.com.br/2007/10/black-civil-rights-womens-liberation.html

 

Leia também:

“O Partido dos Panteras Negras pela Auto-Defesa”, de Adrian Wood e Nutan Rajguru. http://www.lsr-cit.org/anti-racismo/37-anti-racismo/440-o-partido-dos-panteras-negras-pela-auto-defesa

 

Filmes legais:

 

The Murder of Fred Hampton (documentário, 1971)

Malcolm X (dir. Spike Lee, 1992)

Panther (dir. Mario van Peebles, 1995)

 Ilustradora convidada: Mariana Zanetti.

Ilustradora convidada: Mariana Zanetti.

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