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Jovens mulheres revolucionárias

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O coletivo Mjiba completa dez anos de ação e transforma em livro a voz das mulheres negras periféricas. Por Alciana Paulino, Carolina Menegatti e Marcos Visnadi

 

 

Quando o coletivo começou, esse negócio de coletivo nem existia. Era um grupo de amigas que queria fazer algo. E elas fizeram. Num 8 de março, o sarau da Cooperifa, tradicional encontro de poetas na periferia da zona sul de São Paulo, foi dedicado exclusivamente para as poetas. Os boys ficaram de joelhos.

 

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Uma nova geração, mulheres negras e periféricas que fizeram e fazem acontecer. Partindo do rolê hip hop sacaram que não havia muito espaço para as minas. Os microfones tinham mãos específicas e não eram femininas. Reuniram-se, iam trocar ideia no Parque do Ibirapuera, dessa primeira mobilização viram que a reunião vale muito. Contaram com as políticas públicas em seu caminho, o nome Mjiba vem de um livro da biblioteca pública, os eventos eram no CEU, os livros foram lançados por editais etc.

Entre zines, trocas e encontros descobriram a necessidade de mais e mais mobilização, mas onde? Na perifa, local de origem, onde moravam. O mote, o dia da mulher negra (latino-americana e caribenha), 25 de julho é um marco para o Mjiba. Foi quando realizaram o primeiro evento de mulher preta em 2004 e com a sanção da Lei 12.987, que institui nacionalmente o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, retomaram o coletivo depois de 5 anos de pausa para os projetos individuais, estudo, filhos, trabalho etc.

 

Há um ano trouxemos a Miriam Alves para um bate-bola, figura forte, porreta! Mulher negra, escritora, representante de uma geração que iniciou seus trabalhos na década de 1980. Queríamos saber da mulherada que nasceu nessa mesma época, o quê e com tem feito. No decorrer da entrevista vocês perceberão que é uma nova forma de reunir-se, de causar, de escrever e mudar. Perguntando para Elisângela e Elizandra, irmãs que conversaram conosco, se a mobilização delas devia algo à geração da Miriam. Não negaram a importância das anteriores, mas disseram que não queriam pegar o bastão das mais velhas. Para elas o feminismo pode ser mais simples, mais acessível.

 

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Num bate-papo onde as histórias do coletivo são permeadas pelas trajetórias pessoais, Elizandra e Elisângela, numa sincronia massa, relatam a trajetória do Mjiba, das mulheres que se viram e se descobriram escritoras, produtoras de eventos, mulheres e negras.

 

***

 

 

Faz um ano que fazemos as edições temáticas e em novembro teremos o Mês da Consciência Negra e é o único tema que a gente repetiu.

 

 

Elizandra: Esse tema vocês têm que repetir mesmo [risos]! Repetir o ano inteiro!

 

 

Depois que decidimos repetir o tema, ficamos nos questionando: só vamos tematizar isso em novembro?

 

 

Elizandra: Nós estamos em um processo em que a lei 10.639 [lei federal que estabelece a obrigatoriedade do ensino sobre a história e a cultura afro-brasileira em todas as escolas] completou mais de dez anos e ela não é implementada ainda. As escolas também deveriam trabalhar ao longo do ano, mas, já que não fazem, ao menos em novembro elas pensam.

Mas só em novembro? A minha agenda este mês está cheia, mas eu sou escritora e poeta o ano todo [risos]. Você aceita [os compromissos em novembro], porque senão não trabalha nenhum dia. Mas essa coisa de concentrar é importante, até para marcar. Ainda existem pessoas que não entendem o porquê do dia 20 de novembro, existe um trabalho ainda a ser feito.

 

 

É importante também forçar uma data, senão fica muito fácil passar batido.

 

Elizandra: O Mjiba em Ação é um evento em que a gente comemora e discute o 25 de julho, que é o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. E esse ano fez dez anos que começamos o evento!

 

 

Vocês ficaram cinco anos sem fazer o evento, né? Por quê?

 

Elisângela: Por causa dos estudos, da questão profissional, cada uma indo para caminhos distintos… e as coisas não casavam, sabe? Há três anos deu uma desafogada, aí a gente voltou.

Elizandra: Começou porque a gente frequentava muito evento de hip-hop e rap, hoje frequentamos menos. A gente ficava meio incomodada, as mulheres só subiam no palco como backing vocals, ou auxiliando os caras, ou namoradas dos caras, e aquilo incomodava muito. Sempre havia várias mulheres assistindo, o público era muito feminino.

Por conta do incômodo começamos a nos reunir no [Parque do] Ibirapuera. “Ah, venham conversar com a gente!”.

Elisângela: A gente se reunia e cantava. Era um misto de mulheres, a maioria a gente conhecia dos eventos, das baladas.

 

 

Quando foi?

 

Elisângela: Por volta de 2003, 2004. A gente ficava trocando ideia. “Você conhecia tal pessoa? Você usava calça big?”. Levávamos fotos [risos]. Aí, numa dessas, a gente teve a ideia de fazer intervenções nesses espaços de hip-hop que já estavam consolidados e as pessoas toparam! Então resolvemos fazer um no Dia das Mulheres [Dia Internacional da Mulher, 8 de março].

 

 

O começo partiu de uma ação para o Dia das Mulheres, então?

 

Elizandra: Foi lá no Sarau da Cooperifa pro dia 8 de março. A gente fez na Galeria Olido [centro cultural na região central de São Paulo], que tinha o Central Acústica. Convidamos a Tula, a Tuc Mel, Lurdez da Luz. Era focado em mulheres, a maioria mulheres negras, mas não era focado só nisso. Então fizemos uma intervenção na Cooperifa, e até hoje rola muita crítica em relação a esse dia. Porque os homens não declamaram, só as mulheres. Lá na Cooperifa acharam que foi o dia mais radical, tanto que esse dia virou o “ajoelhaço” que é uma atividade que eles fazem no 8 de março ou próximo, na quarta-feira próxima ao 8 de março. Nesse dia os homens se ajoelham e pedem perdão. Virou isso [risos].

Elisângela: É… E o foco volta para o homem e não para as mulheres. Claro, a gente brinca e dá risada, mas é meio esquisito. No meio da manifestação disseram: “Ah, mas o Sarau é o ano todo com todo mundo junto!”. Isso foi meio que um racha.

 

 

E isso começou com o evento de vocês?

 

Elizandra: No começo a gente intitulava “Mulheres”. O Mjiba vem de um livro que eu li: o Zenzelê: uma carta para minha filha, da Nozipo Maraire, uma autora do Zimbábue. Lá tinha a história das Mjibas, que eram mulheres guerrilheiras que lutaram pela independência. Em 2001, eu fazia um fanzine e a Elisângela era minha patrocinadora [risos], porque na época eu era adolescente, estava no ensino médio. Enfim, eu fazia esse fanzine para dar visibilidade a personalidades negras, divulgar os eventos dos amigos. Quando li o livro, meus amigos pediram pra fazer um resumo, porque a gente colocava dicas de livros no fanzine.

Esse fanzine durou até 2005. Nós participávamos de uma rede que trocava fanzines por correspondência. Não é como hoje que dá para ir muito mais longe: nessa rede não tinha ninguém de fora do país. Tanto que a gente usava o selo social e não aumentava o fanzine para não aumentar o peso da carta [risos].

Foi nele que eu comecei a escrever poesias e mostrar. O Mjiba em Ação se iniciou em julho de 2004 com a Elisângela, a Thaís e eu, bem na época da construção do CEU Três Lagos [sigla para Centro Educacional Unificado que reúne centro cultural, esportivo e escolas]. Já tinhamos um grupo que se chamava Mulheres. Essa coisa de chamar de coletivo é mais recente, antes a gente falava que era um grupo de amigas.

Elisângela: Tinham meninas de várias regiões: ABC, centro. E a gente pensou: “Estamos fazendo um monte de coisa fora e aqui onde a gente mora não tem nada!”. Então a gente pensou em fazer um evento e começamos a bolar a ideia, como seria, quem a gente convidaria, com a estrutura do CEU. E foi um sucesso, tudo foi se casando!

Chamamos a Cindy Mendes, que participou do Antônia [filme de 2006, com direção de Tata Amaral] para auxiliar na apresentação, tinham amigos ajudando no dia do evento… Na época não tinha subsídio do CEU, água, fruta e café no camarim. Nós que fizemos tudo: uma amiga levou uma panela de carne-louca [risos], a gente comprou os pães, os copos descartáveis…

A ideia era que a apresentação fosse só de mulheres. Só mulher preta! Os meninos, ficavam só na parte técnica. Alguns queriam declamar poesia, e a Elizandra dizia, “Não, fio, é evento de mulher preta!”.Como a gente lia poesia no evento, tinham uns meninos que falavam: “mas a poesia é sobre mulher preta”. E a Elizandra era firme e falava que não! [risos].

Elizandra: Tinha de querer cantar, né. Teve amigo que não foi no primeiro evento, aí via as fotos, e já ia no segundo, já compreendia a ideia. A gente fez em 2004 e 2005. No segundo, a gente conseguiu levar a Ieda Rios, que cantava com o Thaíde, que era superimportante. Na parceria, não tinha grana pra nada. Foi muito da hora. Em 2006 eu entrei pra faculdade. Nesse corre do Mjiba a gente estava tentando entrar na faculdade, fazia cursinho… Mas era jovem, né [risos]. Ia nos shows da zona leste. A gente mapeou a cidade só indo em show de rap. E hoje tem a Agenda da Periferia, no Facebook tem uma lista de eventos. Na época não, você ia num show e ficava sabendo do outro, e aí ia.

 

 

 

A ideia era que a apresentação fosse só de mulheres. Só mulher preta! Os meninos, ficavam só na parte técnica. Alguns queriam declamar poesia, e a Elizandra dizia, “Não, fio, é evento de mulher preta!”

 

 

 

Uma das nossas ideias em entrevistar vocês foi porque na edição de novembro de 2013, entrevistamos a Míriam Alves, que falou do começo dos Cadernos Negros, e pensamos em ver outra geração de mulheres que se mobilizaram e começaram a escrever.

Acho que já temos uma terceira começando, que conta mais com as redes sociais para a divulgação. A gente queria saber se nessa trajetória vocês se referenciavam na geração anterior, que já tem uma produção nacional.

 

Elisângela: Em 2004 a gente não conhecia os Cadernos Negros. O sarau da Cooperifa começou em 2003, e em 2004 a gente já estava frequentando os saraus. Não que o hip-hop tenha enfraquecido, mas ao longo desses 10 anos a ideia de sarau ficou efervescente e chamou a atenção dos bairros. Antes, era o hip-hop. Agora é concomitante, mas a referência na época era o hip-hop. Em 2005, a gente conheceu os Cadernos Negros. Já tinha rolado a segunda edição do evento de mulheres. Quando eu participei, estava começando a escrever, mas a ideia era ter show de mina, a literatura não era tão forte assim.

Elizandra: Eu comecei na Cooperifa em 2004, com aquela timidez. “Sou seu HIV” [poema] eu fiz pra declamar no primeiro evento, e aí a gente convidou a Samantha [Pilar] e a Professora Lili. Eu não sei por que ela ainda não lançou livro, porque ela tem muita poesia. Ela mora em Itapecerica, eu a conheci na Cooperifa. Mas a ideia de literatura não era tão forte. A gente conheceu os Cadernos Negros depois, mas a referência era geracional mesmo, com os pares da época. Tava todo mundo aprendendo junto.

 

 

E a questão de gênero, porque não tinha espaço pras mulheres no hip-hop.

 

Elizandra: E essa coisa das mulheres negras de outras gerações: em 2004 eu participei do Seminário Nacional de Mulheres Negras. E era a Miriam Alves, as mulheres lideranças de movimentos, e elas tinham umas coisas entre elas, umas pendengas, e ficavam: “vamos passar o bastão para as mais novas”. A Elisângela começou a ir na Marcha Mundial das Mulheres. Uma coisa é ser politizada, outra é deixar simples pra que outras pessoas entendam a política que tem por trás. Compreender de forma simples, lembrar que a gente está num bairro de periferia. Não é dar mastigado, mas fazer com que minimamente se entenda a importância de ter mulheres negras no palco, de visibilizar. Aí ficou um vácuo de cinco anos, a gente foi estudar, fazer coisas. Nesse período, eu lancei meu primeiro livro, Punga, junto com o poeta Akins Kinte, que se ofereceu para declamar. Em 2007 eu lancei esse livro pelas Edições Toró – uma editora de periferia que, num período de quatro ou cinco anos, lançou quinze livros de autores dessa cena. A maioria era poesia, mas tinha conto também. Foi idealizada pelo Allan da Rosa, pelo Silvio Diogo e pelo Mateus Subverso.

Nesse período, entrei na faculdade, fiz jornalismo pelo Prouni no Mackenzie, o VAI [Valorização de Iniciativas culturais, edital da prefeitura de São Paulo] tinha começado, e a gente começou a pensar que queria visibilizar o trabalho de mulheres negras e gente convida pra fazer trabalho voluntário. Isso já era uma questão pra gente. Quando começou o Prouni, a gente pensava: a gente vai continuar fazendo evento, e as pessoas que vem geralmente eram amigas, achavam a ideia legal, mas começamos a nos questionar também que a gente valoriza mas aí é uma valorização só simbólica. Em 2003 ou 2004 o VAI começou, tanto que meu livro foi pelo VAI, a Edições Toró montou o projeto e o meu livro Punga saiu pelo VAI. Então a gente falou “ah, tem editais, a gente pode buscar outras coisas”. Escrevi o projeto e perguntei pras meninas se elas queriam voltar, elas toparam e em 2012 o projeto foi aprovado. A terceira edição [do Mjiba em Ação]  foi bem mais incrementada.

Elisângela: Antes era o básico do básico, depois melhoramos, camarim mais aconchegante, dava pra gente convidar as pessoas com bandas… 

Elizandra: E em 2012 a gente convidou a DJ Vivian Marques porque a gente queria uma DJ mulher. A parte da técnica sempre foi um dilema.

Elisângela:Tinha luz, não tinha mais aquela chiadeira, eu não entendia nada da parte técnica, mas ficava fazendo o trâmite com os músicos, perguntando se queria técnico, ia falar com o técnico do CEU, ficava fazendo essa intermediação.

Elizandra: Em 2012 a gente convidou novamente a Ieda Rios, dessa vez com chachê, e ela foi uma das primeiras a gravar hip-hop. A gente convidou a também Denna [Hill] e a Mc Sofia, que é uma Mc de 8 anos. As crianças que estavam lá adoraram. E eu pensei que gente tinha que incluir programação infantil. Em 2012 ficou essa inquietação da programação infantil. A gente tá falando de mulher negra, mas também tem que preparar as crianças. Quer resolver o mundo, né?

Elisângela: Nesse meio tempo eu casei, tive um filho…

 

 

Para garantir a presença das mulheres é necessário ter espaço pras crianças.

 

Elizandra: É, muitas não podem ir porque não têm com quem deixar os filhos, ou estão amamentando.

 

 

Você sentiu uma diferença na sua participação nesses eventos depois que você teve filho?

 

Elisângela: Sim, eu não conseguia. Eu estudava, trabalhava e era mãe, não dava. Em 2012, a gente fez um bate papo sobre mulheres negras em diferentes profissões. Chamamos a Luciane Barros, ex-boxeadora, e no bate-papo ela falou que, como tinha sido adotada por uma família branca, ela só foi perceber a questão racial na escola. E o boxe que fez ela fortalecer a identidade negra dela, foi bem legal.

Elizandra: O evento Mjiba em Ação, sempre tinha shows, bate-papo – porque a gente achava que tinha que ter uma proposta política junto com o entretenimento –, e a poesia. Mas sempre tinha o bate papo. Nos primeiros anos teve uma exposição de fotos e outra de poesias. A gente xerocou e colou nas paredes.

 

 

O público frequentava igualmente esses espaços (bate-papo, shows, exposições)?

 

Elizandra: O público é uma questão eterna. Em 2004, 2005 ninguém sabia quem éramos nós. Era gestão Marta [Suplicy, na prefeitura de São Paulo], tinha muita atividade e as pessoas iam, independente do que fosse. Em 2005 era gestão [José] Serra, nem água deram. Tinha o público dos frequentadores do CEU mesmo, os amigos, as pessoas dos saraus. Em 2004, eu participava do jornal Becos e Vielas pela ONG Papel Jornal: eram profissionais da Folha que iam dar essa oficina lá no Jardim Ângela. Eram as pessoas do curso, o público de hip-hop mesmo, mas do bairro sempre foi flutuante. Em 2012, teve a volta, já com o edital do programa VAI, e a gente percebeu a necessidade de pensar as crianças como público.

Elisângela: E ficou a questão do que fazer pra entreter essas criaturinhas, porque eles não ficam parados. E pensando em questão racial, não era só entreter, colocar um pula-pula lá e pronto. Então convidamos a Trupe Liuds, de palhaços negros que têm um trabalho com a questão racial. E também a contação de história da Kiusam, pras crianças foram essas duas atividades.

Elizandra: A Trupe Liuds fez uma esquete com o nome de Mjiba, que virou espetáculo deles agora, a Mjiba, a boneca guerreira. Fala da questão racial para as crianças, a questão do cabelo. E tem várias questões de gênero também no espetáculo: tem a menina, que fica em casa, e o menino, que vai pra rua. Foi quando a gente abriu a exceção para [a participação dos] homens. Não tem uma trupe de palhaças. E até hoje é muito difícil achar programação pra criança com esse viés, com conteúdo que não seja preconceituoso.

 

 

E quando o Mjiba começou a se enveredar pela publicação de livros?

 

Elizandra: Em 2012, teve o lançamento do meu livro, Águas da cabaça. É quando a gente começa a focar também em literatura, não só no evento. Eu já estava com o livro quase pronto, pensamos em publicá-lo. E em 2013 teve o Pretextos de mulheres negras. Acho que aí a gente consegue ter um produto de visibilizar mulheres negras, com a literatura negra feminina. São 20 autoras das periferias de São Paulo, uma moça da Costa Rica, a Queen Nzinga, que um amigo conheceu em Cuba, e a Tina Mucaleva, que eu conheci quando fui pra Moçambique como assessora de imprensa das Capulanas. São 20 autoras de São Paulo e essas duas de fora.

A gente queria que todas as autoras tivessem ido no Mjiba em Ação, que era pra aproveitar o fotógrafo do dia e fazer a foto. E a gente queria que a Chaia Dechen fotografasse, queríamos que fosse uma mulher. E foi bem legal: das 20 autoras de São Paulo, 17 foram, sucesso total. Foram as crianças, as mães das autoras, os maridos, e essas fotos ficaram belíssimas e resultaram na exposição que a gente fez este ano, intitulada “Mjiba, espalhando sementes”.

O resultado foi muito legal. A maioria das autoras que participa do livro acha que é um fardo muito pesado dizer que é poeta, foi todo um processo de convencimento. Elas diziam: “Por que eu? Eu não quero esse cargo pesado, é legal estar no livro, mas não sei se vou dar continuidade a isso”.

 

 

Como vocês chegaram nessas 20 mulheres?

 

Elizandra: Amigas e saraus. A maioria delas é importante nos saraus, mas não é visibilizada. Por exemplo, a Rose Dorea é a musa da Cooperifa, faz tudo lá, é quem mantém erguido. A Landy [Freitas], nome importante dentro desse cenário, a gente se conheceu por correspondência, na época dos fanzines. Eles também faziam fanzines, e atualmente ela é professora. Elis Regina veio das Edições Toró, as Capulanas são quatro e três delas publicaram. A Priscila Preta fez um trabalho com o Allan da Rosa de poesia erótica, eles têm um livro de poesia erótica, chama A calimba e a flauta: versos úmidos e tesos, pelas Edições Toró. A Carmen Faustino, que é do nosso coletivo, nós duas assinamos a organização do livro. A Luciana Dias, que é mestra em sociologia e também escreve poesias. Porque todo mundo é multi artista, faz um monte de coisa.

 

 

São mulheres que estão na ativa e, mesmo assim, tinham resistência em publicar e se definir como poetas?

 

Elizandra: Pra mim também foi um processo, eu comecei a dizer que era poeta depois de dois livros publicados. As pessoas falavam: “Ah, você é poeta”, e eu: “É, escrevo uns textos”. Porque é um território muito masculino, tem a coisa de escrever poesia negra, feminina e periférica, nesses rótulos todos eu estou incluída. Rótulos ou conceitos, depende do olhar de quem vê. Mas a maioria tem atuação artística ou no meio cultural.

 

 

Isso de passar um tempo pra assumir que é poeta também tem a ver com uma coisa de um lugar puro da literatura, o status elevado da poesia?

 

Elizandra: Também, mas tem textos que você escreve e que tem dificuldade de declamar, tem poesias que nos saraus a gente não declama. Se um cara solta uma poesia machista, você responde logo com a mais pesada. Falar de amor é coisa rara, porque, se eu falar de amor, vou ser a fragilzinha. Então você vai logo com pedradas. Tem a ver com esse processo machista mesmo, de ter que dizer: “Olha, a gente também escreve”. Quando você se assume, quebra vários tabus também.

E foi essa a ideia de fazer o Pretextos de mulheres negras. A gente só não conseguiu controlar na gráfica, mas o resto do processo é todo feito por mulheres negras, o projeto gráfico é da Nina Vieira, que é designer e participou do Manifesto Crespo, um coletivo de mulheres que usa a questão das tranças, fizeram o documentário Tecendo e trançando arte (2011) sobre as trançadeiras . A capa foi feita pela Renata Felinto, artista plástica. Tem também isso de referenciar as nossas, a gente fez uma homenagem pra Maria Tereza, poeta amiga nossa que faleceu em 2010, publicou pelas Edições Toró.

 

 

Vocês acham que, para vocês, a questão da raça para a autoestima vem depois da questão de gênero, por vocês terem uma trajetória de saraus e do hip-hop, onde já existem pessoas negras produzindo arte, poesia, literatura etc., mas há poucas mulheres?

 

Elizandra: Uma coisa que marcou muito [na edição do Pretextos de mulheres negras] foi essa questão de convidar as mulheres a publicar. Algumas se viam como poetas e já tinham um trabalho, outras não. E, para essas que não tinham, o fato de serem convidadas, de ter todo um cuidado com seus textos e com a sua imagem, foi muito forte. Uma das autoras, por exemplo, se via como mulher preta, mas não se enxergava e não se valorizava. Não reconhecia seus traços, seu cabelo, não integrava a família nos espaços que ela circulava. O depoimento dela marcou muita gente. Nós, do coletivo, já não tínhamos mais esse problema de autoestima e de se autorreconhecer como mulher preta, então a gente nem parava para pensar que isso ainda era uma questão para as mulheres com quem a gente convivia. Uma delas perguntou: “Por que eu? Por que meus textos? Tem tanta mulher boa por aí, por que me convidaram?”. Outra delas, que se reconheceu, se sentiu valorizada, quis soltar o cabelo… Coisas assim, que a gente pensa: “Nossa, ainda?!”. Mas é muito forte.

A coisa da maquiagem, por exemplo, que era secundária, mudou. Tem mulher que não passa batom vermelho porque o pai falou que é coisa de puta. Além disso, acentua mais o lábio, e a pessoa quer diminuir os traços [negros]… Não é consciente, mas você vai se protegendo. O livro ajudou nessas questões.

Elizandra: Sim. E ele tem essa pluralidade de vozes. São 22 vozes de mulheres negras, cada uma com uma profissão diferente; umas são mães; outras, não; tem lésbicas, tem de tudo. Tem umas que falam de amor, outras que falam de revolta, outras que falam de machismo. Nas mesas de literatura, a composição é sempre quatro homens e uma mulher, por exemplo. Ou é uma mesa só de mulheres, se não for só de homens. Aí, quando convidam a gente, já resolvem a cota da mulher e a cota da negra, porque já são os dois. Gente, agora tá aí: tem mais de 20, podem convidar [risos].

 

 

Como está sendo a circulação do livro?

 

Elizandra: A gente fez mil exemplares, que esgotaram em duas semanas. No lançamento, optamos por distribuir gratuitamente, porque pensamos em duas coisas: geralmente, em lançamento de livros na periferia, por mais conhecida que a pessoa seja… Cadernos Negros vende 100 exemplares, por mais que estejam 300 pessoas lá. Com a gente não ia ser diferente. Vieram 300 pessoas, mas vários homens, e eu não sei se essas pessoas estão dispostas a pagar pelo livro. Claro que alguns sempre vêm pelo livro, e querem levar, mas nem sempre é assim. Tanto que, depois, vários homens vieram falar: “Nossa, eu nunca tinha parado para pensar nisso”.

A gente sabe o quanto é difícil pluralizar as vozes, principalmente fazendo evento, a gente não agrada todo mundo, então tem que pelo menos ser coerente com aquilo que a gente se propõe a fazer. E a nossa proposta é visibilizar as mulheres negras. Ter lançado o Terra fértil (2014), da Jenyffer Nascimento, é fruto disso, porque o Mjiba é coletivo, mas a gente também tem que fortalecer individualmente.

 

 

Tem gente que diz que literatura não tem cor nem sexo, não importa se ela é negra, gay, feminina: ela é boa ou é ruim. Vocês se deparam com esse debate?

 

Elizandra: Sempre tem esse debate, sendo [o Mjiba] literatura negra, feminina e periférica. Todos os rótulos pra academia rejeitar. Tanto que, quando estudam essa literatura na academia, ela é estudada na antropologia, não na análise dos textos. Ela é vista como um fenômeno social – e é mesmo –, mas não com valorização estética, como arte, dentro da literatura. É um ou outro trabalho, bem raro.

Esse é o debate que os saraus de periferia enfrentam, né? A importância como movimento, mas que não é visto como literatura. Quando começarem a perceber [o valor literário dessa escrita], não sei se a gente vai estar aqui ainda… É difícil. Temos aí um debate de classe, gênero e raça. “Ah, vocês podem fazer o que quiserem mas sua literatura não é tão boa assim.”

Elisângela: É essa coisa da teoria. Este é um movimento literário vivo, atual, está acontecendo. Quando a gente coloca nos conceitos que já existem, ele vai se enquadrar, sei lá, como poesia social. Mas ele está acontecendo, e vão usar bases antigas para analisar algo que ainda não acabou. Então não é um parâmetro real. Lembrando que a gente é um pais construído com bases desiguais, na base de preconceito. Essa literatura vai ser valorizada por um ou outro, mas eles nunca vão dar o braço a torcer. Vai demorar pra ser pedida na lista dos vestibulares.

Elizandra: É. Pediram Conceição Evaristo [no vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais em 2007], e ela já escreve há um tempão, tem uma literatura que pra gente é importante, é uma das nossas referências. Cadernos Negros também. Mas isso em Minas, porque, em São Paulo, a gente viu como São Paulo é reacionária. E aí, pensando que a mulher negra está na base da sociedade, até disponibilizar o tempo para fazer literatura é uma questão. Eu percebo nesse cenário que os homens têm mais tempo. Não que eles tenham mais dinheiro, mas eu vejo a fala de alguns poetas cujas mulheres trabalham como professoras, enfermeiras, e eles são poetas. Então eles podem abrir mão de um emprego formal, porque a mulher vai sustentar a casa. Já a mulher negra não tem opção. Se eu tenho dinheiro guardado, não vai ser na literatura que eu vou investir. A gente tem menos possibilidade de investir.

Eu quero que não precise ter um Mjiba [pra editar livros de mulheres negras]. Que tenha, mas que não seja porque precisa, e sim um processo natural. Porque você tem que convencer, tem que ter todo um trabalho psicológico pra comprarem. Se fosse um homem [publicado], era diferente. Tem mulheres que pensam: “Ai, quem vai me ler?”.

 

 

Como foi o processo de formação de vocês como leitoras? Como essas questões da negritude, de gênero, da periferia foram entrando nesse processo?

 

Elizandra: Eu sempre gostei muito de ler. Você pega gibis, e eles começam a não ser suficientes, aí você vai pra banca ler Júlia e Sabrina, porque é livro que dá pra trocar: quando acaba de ler, você vai na banca e troca por outro. Eu não tinha um direcionamento de leitura. E aí, com o hip-hop, eu fui me perceber negra, periférica. A gente vem do interior da Bahia, onde a gente percebe alguma coisa de preconceito, mas não sabe dizer que é preconceito. Só sente um mal-estar. E aí, vindo pra São Paulo…

 

 

Você veio com quantos anos?

 

Elizandra: Eu tinha 12 e a Elizângela tinha 14. E com o hip-hop você percebe que tem um lado, que você é de uma classe social, é negra. Aí entram os parafusos. Foi uma descoberta junto com a música. As letras falavam de personalidades como o Malcom X, Negras Raízes [do escritor estadunidense Alex Haley], sempre tinha alguma coisa de livro, aí eu ia atrás. Eu ia pra biblioteca de Santo Amaro [bairro da zona sul de São Paulo], demorava uma hora pra chegar lá. Lá tinha uma coleção de livros de literatura africana, onde achei o Zenzele – Uma carta para a minha minha filha. Demorei anos pra comprar esse livro, porque ele está esgotado, então você só acha em sebo.

Elisângela: Eu fui ler ele bem mais tarde.

Elizandra: Os Cadernos Negros são também uma antologia de referência, principalmente por ser um movimento literário de literatura negra. Aí você pensa: eles estão aí há 36 anos e, se você pergunta na rua, as pessoas não conhecem. E você fala: “Não é possível que em 36 anos a sociedade não tenha visto isso”.

Eu leio muito as pessoas dos saraus, compro a maioria dos livros, então eu leio isso que a gente tá produzindo. Leio Conceição Evaristo, muita literatura afro-americana, gosto muito de romance e também de biografia. Adoro saber da vida dos outros [risos].

 

 

A gente também, por isso a gente faz entrevista!

 

Elisângela: A Elizandra tem essa paixão, mas, enquanto ela estava na escola e fugia à tarde pra biblioteca, eu estava trabalhando [risos]. E a minha história com literatura é até traumática. O primeiro livro que eu li foi um estupro mental, porque eu não lia na Bahia, a escola não incentivava a leitura. Eu ficava em parafuso. E eu lembro que aqui, onde eu completei o ensino médio, eu não entendia o que a professora estava falando. Eu li Aluísio Azevedo, eu li, reli, e não entendi. Eu fiquei muito traumatizada.

Fui realmente começar a ler depois que a gente passou a frequentar os eventos de rap e eu comecei a compreender as letras e a buscar os nomes das pessoas que estão lá, que são os nossos. E pra mim, Negras Raízes é a bíblia sagrada, é um marco, você se enxerga, quem eu sou, de onde eu venho, de ir buscar. Eu leio pouco, dentro do coletivo eu sou a que menos lê, mas frequento os saraus. Como eu não escrevo, eu sou a parte de trás, da produção, da gestão. Então eu não sei, acho que quem escreve tem mais sede de conhecer pra oxigenar o que você está fazendo. Na época do cursinho [pré-vestibular] eu lia muito mais. Até lembro de um amigo que falava: “Preta, mistura as leituras, não fica só lendo os clássicos do vestibular”. E eu: “Tá bom, tá certo”. E muito jornal. Eu lia muito Brasil de Fato. E [o jornalista] Caco Barcelos.

 

 

É bem emblemático isso que você falou do Aluísio Azevedo.

 

Elisângela: A Elizandra conseguiu ler. Eu falei: “Elizandra, não consigo passar do primeiro capítulo”. E voltava e não compreendia. Foi uma luta muito grande, eu preciso insistir, e ela: “Ó, a professora me falou isso, me deu esses toques, continua, você vai entender a primeira parte”. E eu fui, mas foi muito foda.

Elizandra: Tem 50 páginas descritivas até você chegar na história.

Elisângela: E, como eu sou mãe, eu não quero que o meu filho passe por isso. Ele já tem outra referência. Mesmo eu não lendo tanto quanto a Elizandra, ele já tem ela de referência. Ele já montou a biblioteca dele. Ele só tem 6 anos, não lê, mas pede: “Mãe, lê comigo”, então ele já não vai ter a dificuldade que a gente teve. Tem um outro referencial.

Elizandra: Até as brincadeiras! Outro dia ele estava lá na televisão com um microfone, fingindo que era um microfone, era uma escova, aí a gente perguntou: “O que você está fazendo?”, e ele: “Tô declamando uma poesia”. E eu: “Nossa!!!”.

 

 

Essa que é a importância dessa literatura, você se vê ali.

 

Elisângela: Está próximo, não é só ser espectador.

Elizandra: É recente, por exemplo, isso de o movimento negro puxar o Machado de Assis e lembrar que ele era negro.

Elisângela: Quando é muito bom, eles embranquecem.

 

 

Como é a relação de vocês com os movimentos sociais? Vocês participavam da Marcha Mundial das Mulheres?

 

Elizandra: Eu participava das reuniões.

 

 

Onde foi que não deu cola?

 

Elizandra: Eu acho que elas precisavam de pessoas que estivessem atuando diretamente e colaborando, e a gente foi bem nesse momento, pra conhecer, ver onde a poderia formar uma parceria. Foi o que abriu nossos olhos pra gente fortalecer o movimento sem atuar diretamente. Não precisamos ser da Marcha das Mulheres.

E tem outra coisa: as ações do Mjiba são pontuais. É um evento, o Mjiba em Ação, e tem a segunda etapa, que é pensar na literatura negra. Não é um grupo de estudos nem é um coletivo de artistas, é um coletivo de N profissões que se reúnem pra visibilizar o trabalho de mulheres negras. Participar dessas reuniões dos movimentos, pra gente seria mais um compromisso.

Além disso, a gente sempre fez questão que o Mjiba em Ação fosse lá na região do Grajaú. E aí, já teve crítica por ser na periferia: “Ai, mas por que que vocês fazem um evento tão longe?”. Quer dizer, a gente pode sair do Grajaú e vir pro centro, mas o inverso… Então essa questão da periferia pra gente é bem importante e precisa ser pensada. “Ah, não, faz no centro porque aí vem todo mundo.” Mas a pessoa não pensa que você tem que voltar pra casa. Marca aquelas reuniões que vão até 23h30, e o metrô fecha a meia-noite. Essas coisas vão desmotivando. As pessoas não percebem esse deslocamento, parece que todo mundo mora no centro. No centro todo mundo já faz.

 

 

E como é a formação de público do Mjiba em Ação?

 

Elizandra: É um desafio. Porque a gente não pode entregar o kit dos 500 anos de escravidão, dizer: “Olha, você é preto! Não se percebeu ainda? Você entra no mercado, você entra no shopping, todo mundo percebeu, menos você”. Então a gente quer fazer esses formatos, em que seja encantador falar da identidade negra. Porque é só desgraça, né? O debate agora é o genocídio da juventude negra, da população negra.

Então, por exemplo, a escolha da nossa data. O 8 de Março é importante, a gente está lá, não foi um dia que foi de graça. Mas o 25 de Julho também não foi! Não foi tão sanguinário quanto o 8 de Março, mas foi uma reunião de mulheres que fizeram uma luta por políticas públicas que até hoje é importante pra gente. Se a gente tem hoje ações afirmativas, o próprio Prouni, e várias iniciativas que fazem com que a população negra seja valorizada, isso é fruto de uma luta. Nada vem de mão beijada.

É tudo política. É importante essa política maior, que faz toda a mudança, mas também é importante essa política do cotidiano. A gente era um grupo de amigas, sempre se vendo, mas ganhou uma visibilidade que não esperava, e com ela vêm vários compromissos. A gente só queria fazer um livro, mas, querendo ou não você cumpre uma função social que não estava prevista. Aí falam: “Vocês são um coletivo, mas o que vocês fazem?”. Eu continuo trabalhando, sou jornalista. A gente não quer assumir essa obrigação, não dá pra fazer a função do governo. Quando você tem um propósito, que é visibilizar o trabalho de mulheres negras, você faz por prazer. Aí dizem: “Você tem que fazer isso sempre”. Se não tinha antes, por que agora a cobrança?! Essa cobrança acho que é muito ruim. Parabeniza o que já foi feito!

Elisângela: Tem que ter a leveza e o prazer.

 

 

Ontem à noite, a gente estava pensando nas perguntas e falando: “Nossa, dez anos de coletivo!”. Pra gente, com dois anos já está difícil.

 

Elisângela: Essa ideia de coletivo, foi ano passado que a gente assumiu. Veio depois do Pretextos [de mulheres negras], a gente pensou: “Vamos nos assumir como coletivo”. Eu nem sei onde estão as regras do que é um coletivo…

 

 

É só falar que é autogestionado! Vocês inventam [risos].

Elisângela: E a gente não tem dinheiro, mas tem os editais públicos. Este ano a gente pegou o VAI, são R$ 60 mil na mão de quatro pretinhas pra fazer livro. Isso é uma conquista do movimento civil, é uma conquista muito grande.

Elizandra: Com a vida que a gente tem, é a solução para o momento. Deixar o negócio vivo é muito foda. É prazeroso, é legal, mas tem um custo.

 

 

E o que vocês falariam para garotas, mulheres, independentemente da idade, que estão começando a se reunir para formar um grupo?

 

Elizandra: Tem que ter um ideal e seguir ele. Vai aparecer um monte de coisas. No nosso tem a coisa de visibilizar o trabalho de mulheres negras, pode ser que a gente esteja tomando um caminho de fortalecer a literatura feminina e negra, mas, independentemente disso, tem que ter um ideal, um objetivo.

Um amigo meu que diz que a palavra dele é “espelho”. Eu acho que a minha palavra é “fanzine”. Tudo o que eu estou fazendo, aprimorado ou não, é fanzine. Mesmo que seja artesanal, tem que estar bonito, e vai comunicar, visibilizar, é uma publicação.

 

 

E qual a sua palavra, Elisângela?

Elisângela: Acho que é “persistência”. Junta com diversas outras, mas, se eu não acreditasse que o nosso trabalho tem uma importância e de fato contribui, eu não estaria fazendo. E eu falo pras meninas: não quero que a gente perca a leveza, a visão sonhadora, a gente é e não é utópica, mas perder a leveza, perder a satisfação de fazer e estar junto não tem sentido. Então é isso, insistir mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

Ilustração: Tiago Kaphan

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marcio ramos – 19 de novembro de 2014 - 6:39

Muito legal o site e a entrevista e como logo no inicio vcs falaram sobre a Lei10.639 [lei federal que estabelece a obrigatoriedade do ensino sobre a história e a cultura afro-brasileira em todas as escolas] resolvi enviar este video que fiz em Caceres no MT que acredito seja uma experiencia interessante…https://www.youtube.com/watch?v=08GjJaEFWH4&list=UUd0p4xyPdiwLSD70GNCja-g

obrigado!

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