Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Do luto, das letras, à luta

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Estamos aqui graças à luta de muita gente preta!

Publicado em 15/11/2014

 

 

 

a pergunta anda solta
e ninguém explicou
que a resposta sou eu

(Miriam Alves)

 

Do luto

 

Uma chacina aconteceu em Belém, no começo do mês. A gente procura detalhes e não encontra. Digita as palavras-chaves no Google e aparecem outras chacinas, outros jovens desaparecidos, outras torturas e denúncias. O Brasil é um país de genocídio. Os mortos, com seus corpos sequestrados, vão se acumulando na nossa memória, que tem um limite e transborda. Fora tantos que nem chegam ao nosso conhecimento. A gente vive de luto.

 

Não sozinhxs. O episódio da tortura e morte dos seis estudantes da escola rural de magistério Ayotzinapa, em Iguala, México, junto ao desaparecimento de mais 43 deles, aparentemente em atuação conjunta da polícia local com narcotraficantes, permanece sem resposta desde o dia 26 de setembro. E poderíamos seguir. Genocídio do povo negro, do povo pobre, das populações originárias, genocídios intensificados na periferia do capitalismo.

 

Por isso, também, a gente viva de luta e anseia por letras. Este mês, pela segunda vez, os caminhos da Geni são abertos pela Consciência Negra, necessária o ano inteiro e memorada no dia 20 de novembro, data em que Zumbi dos Palmares foi assassinado.

 

 

 

Das letras

 

Mas numa história de mortes e perdas, como sobreviver e afirmar a vida? Quais estratégias possíveis pra parar o massacre? Que armas usar contra as armas que matam?

 

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A poesia desponta como resposta. Em novembro de 2013, entrevistamos a escritora Miriam Alves. Este ano, trazemos gerações diferentes de mulheres negras que pegaram em papéis e canetas para cravar a sua história. Carolina Maria de Jesus, cujo centenário de nascimento comemoramos em 2014, tem sua história contada na seção Perfil.

 

Nossa entrevista do mês é com as jovens mulheres revolucionárias Elizângela e Elizandra, integrantes do coletivo Mjiba, que há dez anos reúne mulheres negras da periferia de São Paulo em torno da arte, da poesia e da identidade. Agora lançam livros, amplificando a voz de diferentes mulheres pretas que nesse processo de escrita descobriram-se mais mulheres, mais negras. É preciso falar do que está sendo feito hoje.

 

Trazemos também o trabalho de Jacqueline Oliveira da Conceição e Larissa Salvador de Mello, que a partir da análise da escritora moçambicana Paulina Chiziane, pensa o corpo de mulheres negras e da diáspora como espaço de luta e resistência no processo colonizatório; a tradução de “Prisioneirxs políticxs, prisões e libertação negra”, escrito por um dos maiores ícones da luta negra no século 20, a Pantera Negra, Angela Davis; e um texto de Pollyanna Marques Vaz que, ao falar sobre o caminhar necessário da interseccionalidade, trata do poder revolucionário da mulher preta sapatão, aquela que se orgulha da cor e do gosto pelo prazer. Perigo!

 

Como diz nossa Geni, a colunista Alciana Paulino, a escrita deve ser o ofício de quem já teve a alma e a carne vendidas. E é nossa alegria reunir, nesta edição, tantas mulheres negras que recuperam a alma e a carne com a voz de suas letras.

 

 

 

Outros ícones

 

Outro ícone que permeia nossas páginas é o discreto rapaz de bem Johnny Alf (ou Geni-Alf). Num misto de relato, memória e sensibilidade, Pedro “Pepa” Silva fala da vida e da obra do negro gay que mudou os rumos da música brasileira. Por que ele não figura nas listas das grandes bichas do Brasil?

 

E quantas pedras foram jogadas em Grande Otelo? Luis Felipe Kojima Hirano discute as possibilidades e o espaço reservado pela indústria cinematográfica a um dos mais famosos atores do cinema brasileiro.

 

 

 

À luta!

 

Há quanto tempo vemos e vivemos o genocídio da juventude negra e periférica? Precisamos de potência. Nos inspirando em pessoas de outrora ou conhecendo guerreiras e guerreiros de hoje. Ou, ainda mais, tornando-nos também guerreirxs.

 

Vamos nos empoderar e ter a consciência de que, graças à luta de muita gente preta, hoje podemos discutir equidade. Mas há muito, muito, muito o que fazer. Bora pra luta!

 


Coletivo Geni, novembro de 2014

 

 


Ilustrador de capa: Marcelo d’Salete
Ilustração do editorial: Gui Mohallem

 

 

EDIÇÃO DE TEXTO
Aline Gatto Boueri
Carolina Menegatti
Cecilia Rosas
Marcos Visnadi

 

EDIÇÃO GRÁFICA
Tiago Kaphan

 

COMUNICAÇÃO E REDES SOCIAIS
Aline Gatto Boueri
Carolina Menegatti
Pedro “Pepa” Silva
Marcos Visnadi

 

PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO
Bruno O.
Tiago Kaphan

 

ILUSTRAÇÕES
Aline Sodré
Bárbara Scarambone
Bruno O.
Cecilia Silveira
Emilia Santos
Gui Mohallem
Gunther Ishiyama
Larice Barbosa
Mandah Gotsftitz
Nara Isoda

 

ILUSTRAÇÃO DA CAPA
Marcelo d’Salete

 

PARTICIPAM NESTE NÚMERO
Angela Davis
Carol Cruz
Jacqueline Oliveira
Larissa Salvador de Mello
Luis Felipe Kojima Hirano
Pollyanna Marques Vaz

 

AGRADECIMENTOS
Ana, Angela Davis, Audre Lorde, Elisângela Souza, Elizandra Souza, Grande Otelo, Johnny Alf, Mjiba, Paulina Chiziane e, especialmente, Carolina Maria de Jesus <3

 

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