Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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NO MEIO | 06: Luta em luto

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Uma peça de teatro ou um grito de revolta. O coro de mulheres encontra o coro de homens. Entre os coros, um cadáver. O cadáver é mulher. A ação é lilás. Por Luiz Pimentel e Raquel Morales

Esta coluna se dedica a tentar ouvir mais vozes que foram atravessadas pelos temas da Geni.

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A coluna deste mês foi escrita em parceria com Raquel Morales, responsável pela encenação da peça A casa dos homens e integrante do Coletivo 2ª Opinião. Como consta no site do coletivo, sua formação tem em vista a realização de experimentações cênicas e dramatúrgicas baseadas nas questões de gênero, organizadas a partir de um olhar crítico sobre o contexto da heteronormatividade e do heteropatriarcado.

 

Pedi que Raquel escrevesse para a Geni ou uma carta destinada ao espectador ou um manifesto desse teatro que o coletivo propõe. Ela respondeu com uma peça em ato único.

 

Segue abaixo a peça lilás da Raquel. No recuo à direita, segue um texto escrito por mim: a fala de uma jovem que olha de longe.

 

***

 

Visito a casa dos homens. Está provisoriamente instalada na rua do Triunfo, no bairro da Luz. No trajeto do trem para a Triunfo tenho medo, pois escuto cochichos dos passantes como eu repetindo cra-co-lân-dia. Falam baixo, pois tropeçam, não reconhecendo os corpos deitados pelas ruas. Estou sozinha. Medo que escureça de repente. Muito medo. Esfrio o meu corpo e caminho apressada em direção à casa. Vejo, na outra calçada, um homem magro e sujo que conduz pelo braço uma mulher extremamente irritada. Ela parece querer ir pra outra direção, mas seu corpo não tem força pra resistir. Resistência. Lembro da minha tia explodindo bêbada numa festa de família, urrando e apontando para meu tio: “Você destruiu a minha vida!”. E tenho medo que, um dia, meus sobrinhos escutem todo esse ódio que já vive em mim. Chego na rua com a minha tia na cabeça e a incompreensão do desprezo ao redor que me cochicha cra-co-lân-dia. Me vejo só. Rua escura. Muito medo. E uma lâmpada de sódio que ilumina:

 

LUTA EM LUTO

 

ATO ÚNICO: A ação é lilás

 

NARRADOR – CORO DE MULHERES se aproxima em cortejo fúnebre. Arrastam um caixão em cima de um palanque. Cantam uma melodia triste. Posicionam o palanque num local visível. Começam a envolver o corpo de A MULHER com papel higiênico.

 

CORO DE MULHERES – Luto. Luto pela liberdade. Luto pela liberdade do meu corpo. Luto pela liberdade das minhas ideias. Luto pela utopia. Luto contra a violência. Luto contra a violência da submissão. Luto contra a violência nossa de cada dia. Violência. Luto pelo medo. Luto pelo medo de lutar. Luto por não me sentir segura em nenhum lugar. Luto por não poder confiar em quem ao meu lado está. A luta é o meu luto.

 

A MULHER (enquanto sobe no palanque) – Eu já acreditei no amor. Me entreguei ao ser amado. Com afeto incansável. Com companheirismo indelével. Me afoguei em sentimentos ternos. Ele reclamava das minhas roupas. Me dizia: “Não pode ficar usando blusinha fácil de tirar”. E eu colocava a blusinha-fácil-de-tirar só pra provocar. Um dia, ele me pediu em casamento. Eu ri. Nunca acreditei em casamento. Ele dizia que não acreditava também e ficou chateado. Vai entender… o namoro acabou. Eu acabei o namoro. Ele não se conformou. Veio atrás de mim. Em casa, na aula, no trabalho, nos bares. Tive que fugir. Começaram as ameaças de morte. Tive que mudar de celular, de casa, de rotina. Tive que me esconder. Ele queria voltar. Ele queria voltar? Era um figurão do meio político. O macho. Dá pra acreditar?

 

NARRADOR – A MULHER entra no caixão. CORO DE MULHERES começa a pichar o caixão de vermelho.

 

CORO DE MULHERES (cantam) – As paredes ouvem, as paredes veem, as paredes sabem, mas as paredes se calam.

 

UMA MULHER – Eu tentei conversar com ele…

OUTRA MULHER – E aí?

UMA MULHER – Nada.

OUTRA MULHER – Tentou falar com os meninos?

UMA MULHER – Eles disseram que ele tem distúrbios psicológicos…

OUTRA MULHER – Tipo?

UMA MULHER – Esquizofrenia.

OUTRA MULHER – Filhos da polícia.

 

UM HOMEM – Mas ela é uma mulher forte.

OUTRO HOMEM – Pois é… duvido que seja verdade.

UM HOMEM – Ela me falou que…

OUTRO HOMEM – (interrompendo) Esquece. Deve tá exagerando. Cê sabe como ela é.

UM HOMEM – Gatinha? [Risos]

OUTRO HOMEM – É… não dá pra negar.

UM HOMEM – Cê acha que ela provocou?

OUTRO HOMEM – Bem, santa ela não é, né?

 

O MACHO – E agora? Quem é que vai fazer a fala?

UM OUTRO HOMEM – Eu já fiz duas.

O MACHO – É… tá meio foda pra mim…

UM OUTRO HOMEM – Tá todo mundo esperando. O que a gente faz?

A MULHER (envolta ainda em papel higiênico) – Eu posso ir lá…

O MACHO – Boa. Daí a gente cumpre a nossa cota. [Risos]

 

NARRADOR – Jogam um microfone na mão de A MULHER. Ela sobe rapidamente no palanque, desconcertada, e faz discurso político.

 

A MULHER – Se quero, eu quero. Por não desconfiar completamente do meu presente saber. Se quero, eu nego. Por nem sempre saber direito expressar o meu dizer. Se nego, não quero. Por entender que nem sempre poder é querer. Se nego, eu nego. Porque não há nada mais legítimo do que o não querer.

 

O MACHO – Que merda é essa?

 

NARRADOR – O MACHO arranca o microfone de A MULHER. Ela tem o impulso de avançar contra ele, mas logo percebe a estupidez de seu instinto. Ainda inconformada, entra no caixão. CORO DE MULHERES se destaca.

 

CORO DE MULHERES (cantarolando) – Ela decide. Ela volta atrás. Ela decide e volta atrás. Ela teima, insiste e zaz! Ela decide de novo… mas resolve deixar. Zaz zaz.

 

UM HOMEM – Pô… que merda. A gente tem que fazer alguma coisa…

OUTRO HOMEM – A gente não tem nada a ver com isso.

UM HOMEM – Será?

OUTRO HOMEM – Vai por mim. Fica na sua.

UM HOMEM – Mas ela tá organizando as mulheres…

OUTRO HOMEM – O que que cê acha que elas podem fazer?

UM HOMEM – Queimar ele?

OUTRO HOMEM – No máximo.

UM HOMEM – E tudo bem?

 

UMA MULHER – Eles trocaram uma ideia com ele.

OUTRA MULHER – Dane-se.

UMA MULHER – O cara é figura conhecida…

OUTRA MULHER – Justamente.

UMA MULHER – Tá pensando em quê?

OUTRA MULHER – Bora chamar uma reunião com as amigas?

 

NARRADOR – A MULHER abre a tampa do caixão.

 

A MULHER – Eu queria poder dizer. Eu queria poder dizer o que eu tenho a dizer. A ideia a ser dita pode desmistificar uma crença. Você pode querer escutar… Mas, antes, eu queria escutar você. Eu queria escutar o que você tem a me dizer. O que você me diria?

 

NARRADOR – Instante de suspensão. Aos poucos, CORO DE HOMENS começa a xingá-la de uma sequência de impropérios e atirar sangue menstrual nela. Com o vestido de papel higiênico manchado de sangue, A MULHER fecha a tampa do caixão. O MACHO sobe no palanque e faz discurso político.

 

O MACHO – Eu aprendi meu ofício de homem. Eu aprendi. Andar sobre duas pernas, como um homem. Ficar ereto, como um homem. Inclinar-me, como um homem. Cuspir, como um homem. Acenar, como um homem. Dizer não, como um homem. Fazer gestos, como um homem. Executar as ordens, como um homem. Questionar, como um homem. Responder às perguntas, como um homem. Imitar, como um homem. Seguir o bando, como um homem. Fazer não importa o quê, como um homem. Destruir, como um homem. Destruir objetos, como um homem. Imaginar objetos, como um homem. Falar sobre objetos, como um homem. Lembrar-me dos objetos, como um homem. Lembrar-me que objetos são pessoas e que pessoas são objetos, como um homem.

 

NARRADOR – CORO DE MULHERES grita: “MACHISTA AGRESSOR”, e saem em direção ao MACHO na intenção de dar-lhe uma sova. CORO DE HOMENS intervém e a algazarra se instaura. A MULHER, em revolta, abre a tampa do caixão novamente. Com um machado, destrói o caixão vermelho. Todos param. O MACHO sobe apressadamente no palanque e vira um balde de esperma em sua cabeça. Homens comemoram e desaparecem. CORO DE MULHERES ateia fogo ao palanque e sai em manifestação.

 

COMEÇO

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Vejo o palanque queimar até o fim. A rua fica escura. Eu fico sozinha. Quase tenho medo. Caminho até o metrô e enquanto ando viro a cabeça algumas vezes, menos por medo de que alguém me agarre por trás e mais para ver a fumaça que ainda sobe. Eu estive lá. Viro a esquina e um PM caminha na minha direção. Minha boca seca. Ele para, me mede com os olhos, sorri em seu pior clichê e pergunta se a princesa sabe onde está andando. Lembro da mulher sendo arrastada, lembro do cadáver no papel higiênico, lembro da tia bêbada, lembro do vídeo de uma jovem sendo arrastada para dentro de um camburão. Ardo, mas me evaporo. Sento no vagão do trem e meu coração não sabe. Penso na cena, penso no fogo e agradeço o grito.

Leia outros textos de Luiz Pimentel e da coluna No Meio.

Ilustração: Gunther Ishiyama.

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