Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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A construção erótico amorosa da mulher negra e suas implicações políticas. Por Sueli Feliziani

A mulher negra, após 350 anos de escravidão, ainda é associada ao trabalho, ao vigor físico, à voluptuosidade, ao exotismo, à volubilidade e ao apetite sexual. […] O amor do chorinho, do forró, do pagode e do calor da noite quente e do suor exótico dos carnavais. Irresistíveis, prescindíveis, não matrimoniáveis.”

 

 

“Vem, nega! Nega linda! Hey, morena!”

 

É todo dia. É o fiu-fiu na rua. É no metrô. Na padaria. É na hora do trabalho. É na hora da amizade. É na hora da política. Se você é mulher negra você é samba. É avenida. É produto nacional. É açúcar e afeto.

 

A mulher negra, após 350 anos de escravidão, ainda é associada ao trabalho, ao vigor físico, à voluptuosidade, ao exotismo, à volubilidade e ao apetite sexual. São as Vidinhas, as Ritas Baianas, as Teresas Batistas e as Gabrielas de todo o imaginário popular. O amor do chorinho, do forró, do pagode e do calor da noite quente e do suor exótico dos carnavais. Irresistíveis, prescindíveis, não matrimoniáveis.

 

É a mulher de todos e a esposa de ninguém. Seu homem é o negro que não é marido, e o branco português, ou o senhorzinho estuprador instituído pela escravidão. Seus filhos são dos homens que não lhe pertencem. Ou são do homem a quem ela pertence e que serão nada mais do que posse, como ela mesma o foi.

 

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O passado histórico da construção emocional e amorosa da mulher negra se dá no mundo cis-hétero-monogâmico como uma colcha de retalhos de objetificação hipersexualizada, rejeição e estereótipo. Pode se dizer que são inúmeras as relações entre a mulher negra, o sexo, o racismo e a cultura da democracia racial. No nosso século, ela encarna a funkeira promíscua, a mãe solteira, a irresponsável do Bolsa Família, a mulher que aborta e que morre por falta de cuidados médicos. E, por mais curioso que pareça, ninguém questiona quem são os homens com quem essa mulher se relaciona.

 

Resistência é uma outra característica da mulher negra. Séculos depois, Sourjouner Truth se ergue diante de uma igreja branca e fala diante de um congresso feminista que tendo trabalhado tanto qualquer homem, e visto seus filhos vendidos ao tráfico, ter lhe aberto a porta da carruagem, e nunca ter se casado, era ainda assim uma mulher. Angela Davis, Alice Walker, Bell Hooks, Audre Lorde e outras negras importantes vieram somar suas vozes a uma luta que antes era cis, branca, hétero e excludente pela revisão do conceito construído de mulher, e suas implicações para a socialização da mulher negra.

 

Um processo de retomada da estética negra – “go natural” – e o fim de procedimentos estéticos clareadores e alisadores como procedimento de atração de parceiros surgem como de recuperação da autoestima da mulher negra na forma de textura, ritmos, cor e vestuário e retomam um aspecto identitário perdido no cativeiro e tomam proporção política.

 

A escolha da mulher negra de parceiros dentro de seu grupo étnico se ergue contra os processos branqueadores do mercado sexual e da violência institucionalizada do genocídio da juventude negra. A mulher negra age politicamente para garantir um futuro de gerações saudáveis e conscientes étnica e culturalmente. E, na construção da família e do fortalecimento dos laços de sangue com o homem negro, na contra mão da libertação sexual apregoada pelo feminismo branco clássico, está a compreensão da demanda desta por estabilidade emocional e a luta pelo reconhecimento de seus filhos como quebra do ciclo de não reconhecimento social da mulher negra.

 

Se o conceito de Mulher é o ideal feminino da beleza diáfana e frágil da musa romântica frágil, casta, pura, clara e dócil; o conceito de Mulher Negra é seu oposto e sua contrapartida e traz força, vigor e luta para o campo de batalha dos corpos, da sexualidade, do gênero e das relações humanas para a transformação da sociedade.

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Fabiana – 30 de novembro de 2013 - 13:22

Adorei!! criatividade imensa no título!! Muito bom

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