Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Vai ser sempre assim, Gabriela

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Homenageamos vida e obra de Gabriela Leite, uma das Genis mais brilhantes que o Brasil teve a oportunidade de ver em cena. Por Cícero Oliveira

O meu sentido de liberdade é tão forte em mim que,
paradoxalmente, ele quase que me escraviza.”

Gabriela Leite

 

No último dia 10 de outubro de 2013, no Rio de Janeiro, saía de cena uma das Genis mais admiráveis (e, me arrisco a dizer, mais brilhantes) que o Brasil teve a oportunidade de ver em cena: em decorrência de um câncer (contra o qual lutava há algum tempo), Otilia Silva Leite – mais conhecida como Gabriela Leite – nos deixava. Sua doçura talvez só fosse comparável ao tamanho de sua inteligência.

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Arguta observadora e crítica de nossa sociedade, Gabriela ficou conhecida no Brasil, em meados dos anos 80, na ocasião do I Encontro Internacional de Prostitutas (1987), tornando-se quase um ícone, “uma espécie de estrela politizada do submundo”: tendo trocado a profissão de secretária e a faculdade de ciências sociais pela vida de prostituta na chamada Boca do Lixo (região do baixo meretrício em São Paulo), diz-se que foi grande a celeuma que se criou entre intelectuais e personalidades da época, que se chocavam/admiravam ao ouvir falar uma “mulher da vida” tão articulada, “a única prostituta do mundo que já leu Ulysses, de Joyce”.

 

Uma incurável sem-vergonha, Gabriela passou em seguida a militar em prol da melhoria das condições de trabalho e da regulamentação da prostituição – luta esta que nunca abandonaria, até o fim de seus dias: “Aprendi uma porção de coisas nessa temporada na Terra. Uma delas é a importância de se ter uma opinião, de reclamar quando não se está gostando de algo. Demorei muito para adquirir esse direito e, por isso mesmo, não abro mão dele”, conta ela em sua biografia.

 

Se é verdade que ela aprendeu bastante, o legado que nos deixa, no entanto, é imensurável: em tempos em que o diferente é quase sempre visto como errado, Gabriela afirmava seu amor à “liberdade de pensar diferente, de vestir diferente, de se comportar diferente”. Sua vida foi, de certo modo, uma batalha constante pelo direito à liberdade e, em última instância, à diferença.

 

Fundadora do jornal Beijo da Rua (1988), da ONG Davida (1990) e idealizadora da grife Daspu (2005), ela concorreu, em 2010, ao cargo de deputada federal pelo Partido Verde (PV) do Rio de Janeiro, não tendo sido eleita. Ironicamente, ela declararia, pouco tempo depois da divulgação dos resultados das eleições, em seu Twitter, algo que serviria para exemplificar o que foi sua passagem por aqui: “[Estou] Muito cansada, mas feliz por ter feito tanto com tão pouco, ou quase nada”.

 

Mulher de fala mansa e olhos vivos, foi “filha, mãe, avó e puta”, mas, sobretudo, livre: “Existe uma terceira coisa que eu prezo muito. Talvez seja a que mais prezo, aliás. É a liberdade. Não sei direito de onde veio essa minha paixão pela liberdade (minha vida é feita de muitas certezas, mas também de infinitas dúvidas e contradições), mas ela veio para ficar”.

 

Gabriela – nome de guerra, de mulher da (e que luta pela) vida – tomou emprestado seu codinome da célebre personagem de Jorge Amado. Gabriela era, desde o princípio, poeta e poesia – e “os poetas”, como diria Octavio Paz, “não têm biografia: sua obra é sua própria biografia”. Linda obra a sua, Gabriela.

 

A falta que essas pessoas que insistem (apesar de tudo, apesar da vida) em ser livres faz não tem nome, não tem tamanho. Muito obrigado.

 

Nós, da Geni, lamentamos muito a perda de mais uma companheira dos calçadões da vida, e não poderíamos deixar de homenageá-la nesta edição. Por isso, recuperamos a reportagem “Je vous salue, Gabriela”, feita por Dulce Tupy e Benício Medeiros para a revista Status de fevereiro de 1986, e a disponibilizamos aqui para a leitura de todos. Nela, os autores apresentam para o público brasileiro de então uma figura sui generis na sociedade: uma puta que fazia o que fazia por escolha, uma mulher livre, inteligente, politizada e que estará sempre presente.

 

É como diz a modinha de Caymmi: para nós, você “vai ser sempre assim”.

 

(Clique nas imagens para ampliar.)

 

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Ilustração: Cecilia Silveira.

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