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Contando histórias

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Os projetos e ações da cineasta Patrícia Galucci. Por Olívia Pavani

 

 

 

Publicado em 17/12/2015

 

Bate papo com a diretora de Cinema Patrícia Galucci. Feminista e ativista, ela nos contou um pouco sobre seus projetos, militância e a paixão pelo cinema. Como contar boas histórias e discutir gênero e diversidade sexual no cinema?

 

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Durante a infância, Patrícia teve o primeiro contato com o cinema, filmando as festas de família. Atualmente, faz parte de uma geração de jovens diretorxs que se propõem a discutir gênero e diversidade sexual no cinema, sem ter medo de colocar a cara no sol.

A partir da adolescência, Patrícia percebeu que, além de suas paixões por meninas, o cinema também fazia parte dos seus desejos. Entre os filmes que a influenciaram, destacam-se as pornochanchadas, cinema argentino e asiático.

Dizem que um bom diretor deve entender sobre todo o processo da produção; segundo Patrícia, entender de edição de imagem lhe ajuda a pensar a linguagem da narrativa dos seus filmes. A diretora conta que a primeira vez que se deu conta de que estava fazendo um filme sobre a temática de sexualidade e gênero foi quando sua mãe perguntou porque tinha que gritar ao mundo que era lésbica: “De fato gritei e não me importei”.

Cursando Rádio e TV na Faculdade Cásper Libero, Patrícia conseguiu uma bolsa de estudos na Academia Internacional de Cinema de São Paulo. Como primeiro exercício fílmico, dirigiu o curta de ficção Ontem (2010) que ganhou visibilidade em diversos festivais. O filme foi feito em cinco dias e com um orçamento de 900 reais; tudo com a ajuda de amigos e economias nas horas de almoço.

Na história, a adolescente Helena vive uma secreta história de amor com uma outra mulher. O filme é um bom exemplo do exercício que a diretora faz entre falar das coisas que são importantes para ela e a possibilidade de contar uma boa história: “Não teve um momento que cheguei e falei: vou fazer filme de temática LGBT. Acho que a minha profissão reproduz olhares e pontos de vista, inclusive a partir de histórias que já vivi. A questão de gênero e sexualidade está muito ligada à minha experiência, observação do mundo, reflexões e questionamentos. Acho que foi a maneira que encontrei para contar algo com verdade, mas a minha verdade, que pode ser diferente para o outro e tudo bem”.

Já no curta de ficção Irene (2011), co-direção  de Victor Nascimento, Patrícia explora a discussão do feminino e dos desejos na terceira idade. Recentemente, o documentário Âncora do Marujo, que participa como produtora executiva, concorreu no Festival Mix Brasil. Dessa experiência, ela relata o intenso contato com o principal reduto de shows de transformistas em Salvador e os desafios de gravar na cidade.

 

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Mercado, cinema e machismo

 

Trabalhando no mercado publicitário por alguns anos, Patrícia percebeu que para desenvolver seus projetos era preciso caminhar sozinha e buscar oportunidades. Foi aí que, há cinco anos, resolveu abrir uma empresa com o amigo Victor Nascimento, que atualmente mora nos Estados Unidos. A Maria João Filmes é uma produtora que só pelo nome não poderia ficar no armário.

Na época, enfrentou preconceito na captação de clientes mas, atualmente, a Maria João está conseguindo se consolidar como uma produtora que se dedica à temática da igualdade de gênero e sexualidade, o que não significa que o mercado esteja totalmente aberto a essas perspectivas.

Segundo a cineasta, a quantidade de filmes com histórias que incluem personagens gays, lésbicas, bi, queer, trans – muitas vezes como protagonistas das tramas – está aumentando. Patrícia acredita que essas mudanças, apesar de lentas, são positivas. Os movimentos e lutas sobre igualdade de gênero sempre existiram, a diferença é que hoje isso tomou novas proporções e as pessoas tem mais coragem de se assumirem e lutarem por respeito.

Observa que, tanto no cinema  quanto nas propagandas de televisão, as mulheres, em geral, são representadas por uma ótica masculina e machista que reproduz os estereótipos do que é ser mulher.  Aponta para obrigações implícitas para se cumprir os padrões das expectativas sociais femininas:  ser alta, magra, bem cuidada, branca, bem sucedida, inteligente… Uma lista de exigências que nunca termina.

Entre as ações e movimentos de mulheres no cinema, Patrícia destaca a iniciativa da Malu Andrade da SP Cine em  reunir em uma página do Facebook as mulheres do audiovisualTambém lamenta o que aconteceu com a Anna Muylaert, diretora do filme Que horas ela volta (2015), que teve seu lugar de fala roubado por dois diretores renomados, durante um debate sobre o seu filme, em Recife. De qualquer forma, para a cineasta essa questão serviu como um disparador para que as mulheres que fazem cinema arregaçassem as mangas e tomassem seu lugar por direito. “Existe muita coisa para se discutir e muitas ações que precisamos tomar. O que todos devem entender é que essa não é uma luta contra os homens e sim contra o machismo”.

Aponta para a importância da ampliação das políticas públicas para as mulheres e do (re)conhecimento sobre suas histórias de luta. Entende que essas discussões são fundamentais para o empoderamento feminino, na medida em que se coletivizam os argumentos e se organiza um posicionamento mais firme na hora que se sofre preconceito e violência. “Noto muitas vezes um comportamento machista nos ambientes de filmagem e é contra isso que devemos nos posicionar”.

 

Sobre Viagem Solitária

 

Atualmente, Patrícia dedica-se ao roteiro do filme ficcional baseado na obra autobiográfica de João W. Nery, Viagem Solitária. Descobriu o livro por meio da indicação de uma amiga, que sabia de sua pesquisa sobre sexualidade e gênero.

“Muitos pontos do livro e das crises que João descreve me fizeram questionar quem eu era dentro disso tudo. Consegui entender de forma profunda sua dor e me identificar em alguns momentos com seus relatos de desconforto em relação ao que se impõe às mulheres como um padrão obrigatório de comportamento”.

Em Viagem Solitária, memórias de um transexual 30 anos depois, Nery relata sua experiência como homem trans e as cirurgias que fez numa época em que elas ainda eram proibidas no Brasil. Publicado em 2011, o livro abriu caminho para uma série de discussões na mídia, redes sociais, trabalhos acadêmicos e movimentos sociais.

Patrícia aponta que há alguns anos atrás havia poucos filmes que abordavam o tema da transexualidade, principalmente sobre homens trans e indica a importância de se discutir o assunto no Brasil. “Percebo que esse trabalho deixou de ser apenas um filme e passou também a cumprir uma importante responsabilidade social. É estranho saber que há três anos eu pensava apenas em uma história, enquanto hoje penso também em representar, dar espaço para os homens trans através do filme, mas não roubar o seu lugar de fala”.

O que mais impressiona a diretora nessa adaptação livre é que questões de preconceito levantadas no livro e vividas pelo autor há mais de 30 anos ainda estão em debate. Patrícia tem recebido muito apoio de João Nery nesse trabalho e analisa os desafios e a pressão na escolha do ator/atriz que deverá interpretar o personagem principal. “Recebo muitas criticas e opiniões sobre o protagonista do filme. Existe muita cobrança nessa escolha, é difícil deixar que um ator/atriz faça seu trabalho sem receber críticas.  Não existe certo ou errado, existe a personagem que cabe no papel”.

 

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Projetos futuros

 

Unindo militância, educação e cinema, Patrícia tem buscado parcerias para a realização de um curso de cinema voltado para travestis e pessoas trans. O projeto tem como objetivos amplificar suas vozes por meio da linguagem cinematográfica, capacitação, inserção no mercado e desenvolvimento profissional. O cinema serviria também como uma ferramenta de autodescoberta, criando um novo nicho de cinema autoral que possa debater questões pouco retratadas. “Considero muito importante ver as pessoas se empoderarem. Por isso estou juntando todas minhas forças para isso acontecer.”

Outro trabalho que já está em sua lista é o filme As mulheres do Bom Pastor sobre a Colônia Penal Feminina do Recife. O projeto está sendo desenvolvido junto com a sua esposa e produtora cultural, Liza Schechtmann, e uma amiga que foi presa nessa penitenciaria.  O filme deverá discutir a situação desumana em que a maioria das mulheres encarceradas se encontra, muitas delas abandonadas pela família e parceiros quando presas. O filme deve falar de vitória, empoderamento, organização, companheirismo, cumplicidade e as dificuldades de ficar longe da família.

 

Avante!


Vivendo o presente, mas olhando para o futuro, Patrícia conclui: “Hoje mais do que nunca estamos enfrentando um tsunami de violência e oposição no Congresso em relação ao movimento LGBT no Brasil. O que importa é que saímos do armário e, cada vez mais, tem surgido movimentos que levam muita gente à rua pra gritar pelos nossos direitos. Está na hora da gente emergir e ganhar visibilidade. Deveríamos fazer uma parada de conscientização e juntar forças para mudar essa situação. Espero que meus filhos e netos – sou lésbica e quero uma família – vejam essa mudança!”

 

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Imagem de Ana Ferri.

 

 

 

Imagens retiradas do Instagram de Patrícia Galucci

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