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ESCULACHO | Joga mais luz nesse palco porque a casa tem que cair

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Uma pantomima sobre a junção malabarística entre a subjetividade e a política. Por Alciana Paulino

Quem deve pra quem?

 

Às vezes eu tenho a sensação de que lido com a vida como se tivesse nascido devendo alguma coisa. Como se tentasse constantemente provar para mim e para o mundo que eu posso ser legal, posso ser inteligente, posso ser… Além de minar pouco a pouco a minha potência, politicamente isso não está certo.

 

Quando criança, sentia a necessidade de ser perfeita aos olhos dos ordeiros adultos, acho que para compensar o fato de ser negra, menina, pobre e de não ter pai. Não queria que as pessoas pensassem que a falta de uma figura paterna me condenaria à temida “perdição”. Então era disciplinada, obediente e excelente aluna. Sempre disposta a me contorcer para agradar ou, ao menos, não incomodar. A ideia era passar despercebida, silenciosa. Se fosse para ser notada, que os adjetivos fizessem inveja para qualquer um/a. Era a forma de recompensar a minha família, que sempre foi muito afetuosa comigo. Não entendia o motivo, não me sentia merecedora.

 

Desde muito cedo eu sabia que, conforme a cena estava montada, não haveria deixa para mim.

 

Essa crença se consolidou de uma forma que até hoje sambo muito para desconstruir. Mas de onde eu tirei isso? Bom, essa é fácil, não é, Brasil? O mundo sempre fez questão de dizer para mim que eu não era boa o bastante – ou, pior, que eu jamais seria boa o bastante.

 

Posso estar sendo ingênua ou arrogante ao generalizar, mas acho que não sou a única que se sentiu ou se sente assim. Nós que de alguma forma somos postxs em uma minoria corremos mais riscos de cair nessa cadeia de crenças aprisionantes e despotencializadoras.

 
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Estraçalhando a quarta parede e tomando o palco

 

Achar que chegou ao mundo devendo alguma coisa ou passar a vida tentando provar algo. Não, isso não está certo. Nada politicamente pior que a posição servil. Se o mundo é um palco, eu quero fazer parte da cena. Nada de ficar passivona atrás da quarta parede. Bora tomar o palco, ampliar a iluminação e fazer a casa cair!

 

Vocês podem perceber que até agora eu não me decidi se vou falar da minha vida, da nossa ou da tal democracia que nos prometem direto, mas até agora fico me perguntando onde é que está a danada. Penso que uma coisa está ali com a outra.

 

Para a brincadeira ficar mais animada, vou usar a ideia de quarta parede, que no teatro é entendida como a parede invisível que separa o palco, lugar da ação, do público que assiste a tudo passivamente.

 

Tentando ser mais clara ou jogando as bolinhas para o alto:

 

Existe um palco deliberativo que é reservado a poucos, a maior parte das pessoas são postas para fora desse palco e ganham um nome: minoria. Os poucos que estão no palco dizem o que é legal e como as coisas devem ser/acontecer. A tal da minoria vai passar a vida toda tentando ser como os poucos, vai se foder porque ela nunca vai ser igual. Então o que resta à minoria? Quebrar a quarta parede desse teatro e entrar para a cena toda. Mas como se quebra a quarta parede se ela é invisível? Saindo da posição de espectador passivo e invadindo a cena.

 

Como isso poderia se dar? Mudar o roteiro da própria vida já seria um começo retumbante. Perceber que a revolução deve ser constante já seria um passo gigante, com pernas de pau enormes. Se reúna em trupes, em grupos e bandos e bote a boca no trombone!

 

Gente mais competente e eu no malabar

 

Com certeza existe gente mais competente para criar um discurso que una a construção da subjetividade e a disputa pelo palco político. Mas levanto aqui dois pontos:

 

1) quem define a competência é a panelinha dos poucos que mencionei anteriormente, e acho, sinceramente, que esse povo não pode ser o único a criar discursos;

 

2) no intuito de dar uma riscadinha na quarta parede, mesmo que de leve, me dispus neste texto a ser uma malabarista iniciante. Brinquei com ideias, joguei para cima, fiz piruetas etc. Muitas coisas caíram, outras não. Foi divertido fazer isso!

 

Enfim, eu me dispus a falar do meu jeitinho matreiro que é muito, muito importante tentar estabelecer relações entre a nossa subjetividade e a política. E que já passou da hora de tirarmos a bunda da cadeira, tirar a roupa e nos jogar em cena. O teatro de verdade já vem tentando fazer isso há anos, qualquer culturete sabe disso. Mas ainda escolheu a posição do alto saber, da alta intelectualidade. Continua quietinho e bom-moço, coitado!

 

Vamos arrasar, respeitável público!

 

Se ainda estiver dispostx a continuar nessa viagem, segue a indicação do nosso amado Luiz Pimentel: o texto de Jacques Rancière, que mesmo sendo gente competente lança um olhar bem original sobre O ESPECTADOR EMANCIPADO.

 Leia outros textos de Alciana Paulino e da coluna Esculacho.

Ilustração: Gui Mohallem.

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