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Meu primeiro amor

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O Cinema. Por Otavio Chamorro

 

 

Publicado 17/12/2015

 

 

Nossa primeira memória geralmente é feita de vestígios. Alguma coisa que saiu da nossa rotina aos 3-4 anos de idade, como fazer um passeio diferente, a primeira vez que a gente toma sorvete de flocos, o gostinho da água salgada do mar. Ou um trauma, como vivenciar um ato de violência, passar por uma grande tensão, quebrar um braço. Nossa primeira memória nunca necessariamente vai ser uma verdade absoluta da forma como exatamente aconteceu. São átimos, frêmitos, soslaios. Pode até ser um sonho disfarçado de lembrança: uma grande mentira resultado de uma traição da nossa própria consciência ou subconsciência em franca formação.

Minha primeira memória é feita mais de sensações. Um grande medo que senti quando a luz se apagou repentinamente naquela sala enorme cheia de poltronas. O afago da minha mãe para eu não armar um berreiro em público e os trailers divertidos que logo começaram a rodar me fizeram imergir de vez naquilo que acabou virando da minha paixão ao meu labor: o cinema.

 

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Lembro de fragmentos de um coelho em animação sem vergonha, que cantarolava interagindo com personagens reais. Da tensão que foi quando tentavam mergulhar o bicho antropomorfizado num tonel de ácido, do glamour de uma ruiva que sensualizava esfregando aqueles peitos na telona. Lembro de achar estranho a moça falando com uma voz em português e, de repente, entrando outra voz cantando em uma língua que eu não entendia com legendas embaixo. Lembro que achei aquele filme esquisito, agressivo e que não gostei. Como assim, queriam matar os desenhos animados? Tinha uns quatro anos e já devia estar fazendo uma crítica de Uma Cilada para Roger Rabbit no fim da sessão, reclamando que aquela pataquada não tinha nem pé nem cabeça. Por mais que não tivesse gostado do filme, amei a experiência cinema. É, eu me apaixonei pela pessoa errada. Pelo menos desde cedo aprendi a lição de que um amor para ser de verdade não pode ser perfeito.

 

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Como uma criança viada gorda brejeira e interiorana, meu programa favorito quando ia para a capital era McDonald’s seguido de um filminho no shopping com pipoca e jujuba. Quase dez anos depois e uns cinquenta quilos a mais, já morando na urbe, eu era oficialmente um contador de histórias amador e ir ao cinema pelo menos uma vez por semana tinha se tornado um hábito. Entre tamagotchis, Correntes de Andrômeda e cabelo pintado de papel crepom, estava eu criando minha identidade de millennial, da geração mid-90’s. Jessica Rabbit tinha dado lugar a outra ruiva na ourivesaria da minha imaginação. Geri e as outras Spices já começavam a me doutrinar num mundo de luta incansável por feminismo e equidade. Nesses primeiros tropeços de pré-adolescência, estava eu na glória da minha sexta série, que hoje chamam de sétimo ano. Nesse ano, tive meu primeiro grande tesão que depois percebi ser amor.

 

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Porque antes do amor vem o tesão. Tesão a gente sabe bem o que é. Amor a gente demora um pouco pra entender. Quando se dá conta, demora a aceitar se você é muito novo. E quando esse amor acontece na escola e você é um menino gay, não dá exatamente pra levar esse sentimento adiante desmedidamente. Só resta exercitar a tradicional arte de disfarçar e lutar com todas as forças pra não passar um belo dum recibo e ser gongado pela escola inteira. Invariavelmente, resta mentir. Nem que seja só para você mesmo.

Meu primeiro amor depois do cinema já se configurava em homem muito mais que todos os outros da turma. Altura, nariz, musculatura, pelo. Um menino preso num corpo adulto. E eu, desajeitado, disputando a atenção dele na aula, no recreio, no fim de semana. Torcendo pra ele aceitar jogar videogame comigo ao invés de futebol com os outros. Os meses se passavam, minha paixão enlouquecedora só aumentava e acho que um dia eu fui efusivo demais. Por mais pamonha que ele fosse, percebeu que eu estava querendo mais que estudar na casa dele. E fui deixado de lado no mais frio dos abandonos. Tive febre, tirei nota baixa, quis morrer, me afundei no leite condensado. Não era amor. Era cilada. Naquela tarde, matei a natação e fiquei estirado no sofá, dividido entre a dor do coração partido e o medo da escola inteira saber que eu estava apaixonado por outro menino. Terminou a novela e começou a Sessão da Tarde. Não que fosse uma coincidência, pois acho que os filmes reprisam todo mês mesmo, mas passou Meu Primeiro Amor. Casualmente, nunca tinha assistido. Só me lembrava do Macaulay Culkin dos Esqueceram de Mim. Assisti ao filme como quem não quer nada, fui levado por aquela história de amor genuíno, profundo e sensível como o meu. Mergulhado naquela tragédia maior que a minha. No fim do filme, chorei como nunca tinha chorado na vida, sem saber que chorar daquele jeito era possível. Acho que só chorei assim de novo no dia do Arquivo Confidencial da Malu Mader. Alguns anos depois, com Brilho eterno de uma mente sem lembranças, com O Leitor, com O Ano em que meus pais saíram de férias.

 

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Tantas e incontáveis vezes que basta um filme para te entender. Duas horinhas de terapia audiovisual para você colocar as ideias em ordem, sacudir a poeira, partir pra outra e superar o que quer que seja, de um primeiro amor nunca correspondido àquele que está ao seu lado todo dia e você não percebe. De todos os que foram e vieram, meu primeiro amor, o Cinema, nunca me abandonou. Se por um lado foi meu cafuné e meu ombro pra chorar, por outro me fez de gato e sapato. Colocou a minha inteligência em jogo, me fez pensar melhor o mundo, me transformou assim como os personagens das histórias pelas quais me apaixonava. Me fazendo entender a realidade ao meu redor, me fez entender a mim mesmo. Me deu muitas alegrias, tristezas, raivas e gargalhadas. Mentiu pra mim. E eu o perdoei. E assim nunca nos separaremos.

Cada vez mais envolto com o dia a dia e com vários amantes seriados no Netflix e cia., vira e mexe deixo meu amor de lado e só de vez em quando tiro alguns momentos pra ficar com ele, como esse mês. Nesse novembro de 2015, meu último curta-metragem foi selecionado para o Mix Brasil em São Paulo e resolvi vir de mala e cuia passar todo o tempo do festival dedicado ao cinema. Numa dessas sessões de dia útil vespertinas, me aboletei numa poltrona confortável no fundo da sala sem pretensão nenhuma. Entrei na sessão que ia começar sem me preocupar qual seria o filme. Tinham dois meninos bonitinhos no cartaz e achei que ia ser isso. Eis que me deparo com uma dessas preciosidades que só reafirmam meu amor pela sétima arte.

Não vou entrar muito no mérito da estrutura do roteiro, da verossimilhança da narrativa, da linguagem cinematográfica ou da mise-en-scène do filme porque tenho um problema ou outro com a obra em si e uns críticos já deram uma descascada no filme por conta disso. Acontece que Às Escondidas, longa-metragem de Mikel Rueda, é uma daquelas provas incontestáveis que um filme não precisa ser perfeito para ser maravilhoso.

Espanha. Rafael é um garoto de 15 anos bem comum. Fuma um, bebe um pouco, zoa com os amigos, dá umas piruetas no metrô, pula muro, faz esporte de equipe, vai na boate, joga videogame, tem piercing. Lá pelas tantas, ele conhece o também adolescente Ibrahim, refugiado marroquino sem amigos naquele contexto basco. Uma barra viver nesse mundo de merda para Ibra. Um mundo completamente alheio ao outro. Eis que se configura uma impossibilidade de qualquer relacionamento entre os dois, potencializada pela xenofobia e pela truculência machista dos parças de Rafa. Mas justamente o mundo ao redor aparenta ser um gatilho para o desejo do jovem Rafael, que luta para defender e ficar com o primeiro amor dele.

Parece que o cineasta me entendeu. E ao me entender, entendeu a tantos outros. Quando ele coloca a beleza e o sentimento acima de tudo, ele me enganou. Eu achei que eu era como Rafael. De repente, percebo que não. Percebo que eu queria ter sido como Rafael foi numa história que, ao ser tão diferente, era igual à minha.

Às Escondidas vai fundo, muito fundo no que é o sentimento de amor, de paixão, de desejo que um menino gay pode sentir na adolescência. Aquela certa incerteza. O medo de ser descoberto, a vontade de ter o outro, de falar, de ser correspondido. Aquele impulso de largar tudo e todos em nome de uma emoção ainda inominável.

A relação de confiança e o sentimento despertado que se estabelece entre os dois só não é mais impecável que a transformação de Guille, o melhor amigo de Rafa, numa das cenas mais bonitas a que assisti nos últimos tempos. Quando o filme termina com um pequeno jogo de edição que justifica um ponto da narrativa não linear, eu já estou escangalhado de tanto chorar lá no meu canto. Espero quase todos saírem da sala. Abaixo a cabeça e sento no meio-fio na frente do cinema ainda sem conseguir me conter direito. São lágrimas de paixão por mais uma peça que meu amor, o cinema, me pregou.

Uma moça na rua fica um pouco atônita.

– Tá tudo bem?

Só me resta sorrir de leve, pronto para comprar o próximo ingresso.

– Tá tudo ótimo!

 

 

 

 

 

 

 

 

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Ilustração: Bruno O.

 

 

 

 

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