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resenha

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Novas velhas imagens da aids

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The Normal Heart e Clube de compras Dallas retomam imaginário oitentista da doença. Mas para quem mesmo? Por Pedro “Pepa” Silva

 

“A aids se inscreve em cada cultura de um modo distinto. Cada cultura constrói a sua aids própria e específica. Bem como as respostas a ela.” A frase do escritor e ativista brasileiro Herbert Daniel (1946-1992) está num texto que escreveu no fim dos anos 1980, logo depois de ter sido diagnosticado com HIV. Serve como chave pra se entender dois filmes que, neste ano de 2014, tentam recontar os primeiros anos da aids: The Normal Heart (sem título em português) e Dallas Buyers Club (Clube de compras Dallas).

 

 

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The Normal Heart (ou “praticamente normal”)

 

Telefilme apresentado pela HBO e estrelado por Mark Ruffalo e Julia Roberts, The Normal Heart (2014) é, conforme alardeado pela mídia, “uma história de amor e ativismo”. Trata do começo da epidemia de HIV/aids, entre 1981 e 1984, nos Estados Unidos, período marcado pela negligência de políticos diante da doença, que naquele momento afetava principalmente a comunidade gay. No clima conservador da década de Ronald Reagan, a aids seria implacável – bem como a espetacularização em torno dela.

 

O “câncer gay”, como era chamado, mereceria pouca atenção pelo menos até 1985, quando o presidente dos Estados Unidos falou pela primeira vez na doença. É de 1985, aliás, a peça autobiográfica de Larry Kramer, que serviu de base ao roteiro do filme de Ryan Murphy (pra quem não sabe, nome por trás de séries como Glee e American Horror Story). Naquele mesmo ano, outro telefilme bem-intencionado ficaria famoso: An Early Frost, que por aqui virou hit do SBT com o título apelativo Aids: aconteceu comigo. Quem lembra?

 

A trilha sonora de The Normal Heart nos joga direto na mítica Nova York setentista que não queria deixar a disco music morrer: Sylvester, Salsoul Orchestra, Gloria Gaynor, Tom Tom Club, Roxy Music, Patrice Rushen compõem o clima. É nessa cidade que o ativista e escritor Ned Weeks (interpretado por Mark Ruffalo) se debate diante do preconceito das autoridades e da apatia da “política gay” (que então se constituía quase como sinônimo de hedonismo).

 

The Normal Heart é um filme bem-intencionado e, talvez por isso, faz uso de uma estrutura essencialmente didática. Claro que não podemos esquecer que estamos falando de um filme feito para a TV, mas a construção tanto da narrativa quanto de alguns personagens faz pensar sobre os modos como se fala da aids e da sua eterna ligação com a condição homossexual. Vejamos.

 

Ned é um judeu norte-americano, escritor de formação universitária e que vive muito bem com o dinheiro da família. Ativista, logo fica sabendo do mal que acomete os gays por meio da doutora Emma (Julia Roberts), dedicada a compreender a doença a partir de sua atuação direta com pacientes. Ned vai se aproximar de Felix (Matt Bommer), um jornalista do New York Times que cobre o “mundo cultural gay” (detalhe: sem que se diga abertamente a palavra gay para se referir a essa cena cultural), na intenção de conseguir apoio à divulgação do problema. Claro que logo ele se apaixona por Felix. Quando o amado mostra uma primeira manifestação do sarcoma de Kaposi, pode-se pressupor o que acontecerá: Ned apenas exercita seu altruísmo e fará de tudo para ajudar não só o parceiro, mas toda a comunidade gay (dos Estados Unidos, viu?).

 

A narrativa é marcada por contundências (e exageros) próprios dos filmes que comumente se dedicam à temática. As contundências ficam por conta das histórias mais tristes de morte e de abandono. Os exageros talvez existam para tentar definir um pouco o pânico da época diante da doença – com o problema de resvalar na caracterização dos doentes quase como ‘zumbis’ (acho que já vimos essa metáfora antes, não?). Neste caso, a estética escolhida não deixa de ser reveladora do modo como se elabora esse passado usando um imaginário televisivo atual.

 

Dito dessa forma, parece que o filme não consegue criar identificação e comoção. Ele até consegue um pouco, na verdade, e há uma galeria de personagens que podem ser bem interessantes de serem pensados individualmente. Mas é relevante observar que a forma como o filme se constrói diz muito sobre sua mensagem e seu público. Por exemplo: ao evidenciar que o personagem principal parece pouco à vontade com o ambiente libertário e hedonista de então, não estamos distantes do discurso moralista que jogou para os homossexuais uma culpa por contrair o vírus… Quando se observa detidamente a personagem Ned, percebe-se que será construído como dono de uma força e consciência que fazem dele o grande herói da narrativa – um cara incompreendido, o idealista, o ativista exaltado, considerado inconveniente e chato. De fato, ele é muito chato porque dono de verdades e certezas; acredita mesmo que não erra nunca em suas estratégias políticas (como a tentativa de criar uma consciência política do que é estar no armário em tempos de pânico social diante de uma “doença gay”). E o filme em certa medida nos faz acreditar nele e no discurso que defende – abrindo pouco espaço para a autocrítica ou a dúvida.

 

Fica difícil, portanto, não apontar o quanto o filme perde ao ser conduzido basicamente pela obstinação, sem um espaço para a dúvida, para a possibilidade do erro, para aquela sensação de confusão que se tem naturalmente diante do movimento da História. No fim, o que temos é mais uma história de aids e homossexualidade, de amor e morte. Como em outros filmes dessa linha, o que se vê é só uma representação da morte e da doença. Haveria outras possíveis, distantes desse imaginário de espetacularização da doença gestado pela mídia? Cabe se perguntar: que outras experiências e histórias poderiam manchar esse quadro?

 

 

“Dallas Liars Club”

 

Em Clube de compras Dallas, desde as primeiras cenas, estamos diante da promessa de um filme diferente sobre HIV/aids. Tudo parece se encaminhar para criar uma história da doença entre os heterossexuais.

 

A trilha sonora ajuda bastante nessa caracterização: temos um blues rock de Shuggie Otis, o clima country de Kenny Rogers e Lee Hazlewood no lugar da disco music (o gênero que esteve atrelado a uma maior visibilidade gay na segunda metade dos anos 1970). E é sintomático que a única faixa disco da trilha (“Follow me”, de Amanda Lear) toque justamente numa cena dentro de um clube gay…

 

Bem, estamos no Texas, distantes da atmosfera cosmopolita e da liberdade nova-iorquinas, no ambiente hipermasculino dos rodeios. Na cena inicial, uma mulher adentra a arena, com uma bandeira dos Estados Unidos, anunciando um próximo peão. Nos bastidores, um homem transa com duas mulheres – o gozo é simultâneo à queda do peão em plena arena. Já sabemos, portanto, que não estamos diante da história de um sobrevivente da aids. Porém, é assim que o filme quer se mostrar ao focar a trajetória de Ron Woodroof (Matthew McConaughey, vários quilos mais magro para ganhar um Oscar): caubói e eletricista, protótipo do machão texano, que diante do diagnóstico de HIV reage com o imaginário homofóbico da época (“O doutor está querendo dizer que sou como o Rock Hudson, chupador de pau?”, ele dirá, relembrando o momento em que o país perdia o galã de Hollywood para a doença). Ron ouve do médico que teria apenas trinta dias de vida (saberemos depois que ele teve mais de 2 mil).

 

No início, ele se recusa a acreditar no diagnóstico, permanecendo na vida “desregrada” (atenção para os “valores desajustados” do sujeito: drogas, bebidas, mulheres e sexo desprotegido!). Logo, porém, fica sabendo dos testes com AZT em pacientes com HIV e suborna um funcionário do hospital para conseguir ilegalmente a droga. As reações o levam de volta ao hospital no 28º dia após o diagnóstico. É quando ele fica sabendo dos perigos do AZT. E também onde conhece a transexual Rayon (Jared Leto, nos fazendo lembrar o quanto ainda se insiste na associação do corpo masculino a uma personagem trans e nos lembrando também que essas atuações costumam render premiações…).

 

Interessado em tratamentos alternativos, Ron parte para o México atrás de um médico que tratava pacientes com vitaminas e outras drogas não autorizadas pelo FDA (Food and Drug Administration). Quando volta aos Estados Unidos, carregado desses medicamentos para vender, reencontra Rayon, que lhe propõe sociedade na venda da medicação entre a comunidade gay. Logo, eles criarão o “Clube de compras Dallas”, onde venderiam adesões/assinaturas que permitiriam a retirada ilimitada de remédios por parte dos pacientes.

 

A história de Ron é real, mas foi tão ficcionalizada que o jornal Huffington Post chamou o filme de “Dallas Liars Club” (trocadilho com o título original da película, em tradução livre: “Clube de mentiras Dallas”). Primeiro porque o filme parece elevar a atuação e o altruísmo de Ron, esquecendo-se de mostrar que a importância dos clubes estava menos na sobrevida que os pacientes encontravam e mais na força que esses grupos representavam enquanto rede de solidariedade. Além disso, a visão sobre o tratamento com AZT pode parecer equivocada em alguns momentos (afinal, algum tempo depois o AZT ajudaria nos tratamentos em doses menores, informação que surge ao final do filme, mas pode ter passado batida para alguns).

 

 

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Tudo bem: estamos diante de um autêntico produto da maior indústria de entretenimento do mundo – portanto, cabe entender certas questões à luz desse fator (como a escolha dos atores e as estratégias narrativas). Fica evidente, por exemplo, a tentativa de colocar Ron como o herói que passa por uma profunda transformação moral por causa da doença (deixa de lado a escrotidão e as drogas do passado, só vai transar de novo com uma afiliada do clube, sufoca a atração pela doutora interpretada por Jennifer Garner etc.). O problema estaria, porém, no quanto essa caracterização rompe com a persona pública de Ron ao criar uma imagem de homofóbico. Segundo amigos e frequentadores do verdadeiro Clube de Dallas, Ron era ligado à comunidade gay – a conversão por que passa o personagem constituiria, portanto, uma submissão de sua trajetória não só a um convencionalismo narrativo de Hollywood, mas também a um olhar bem-intencionado (e heterossexual) da doença.

 

Histórias americanas

 

Embora focalizem momentos diferentes da epidemia de HIV nos Estados Unidos, The Normal Heart e Clube de compras Dallas lançam luz para um ponto de relativa importância: as redes de solidariedade que se estabeleceram entre as pessoas infectadas pelo vírus – redes que constituíam as respostas possíveis ao pânico propagado pela mídia naquele momento.

 

Pensar sobre como essas histórias foram construídas ajuda, portanto, na compreensão das diferentes formas como a aids foi entendida culturalmente (e aqui vale pensar na frase de Herbert Daniel que abre este texto). Pensar o modo como uma história é contada também pode ajudar a levantar hipóteses sobre a quem esses filmes de temática HIV/aids procuram se dirigir.

 

Em Clube de compras Dallas, a caracterização de Ron Woodroof como um machão deixa entrever a vontade de contar a história a uma plateia mais ampla. Em outras palavras: ao colocar o personagem lutando com uma ordem heterossexual à qual pertencia antes da doença (e que agora o oprime por ter uma “doença de gay”), o filme parece querer fazer um espectador hétero repensar seu lugar e repete a lição de que a doença não esteve associada apenas a gays. Pode ser mesmo uma forma de borrar o imaginário que liga a doença à condição gay – como boa intenção parece lindo, mas há um efeito político nessa escolha, que deve ser considerado. Esse efeito é o silenciamento das respostas da comunidade gay à epidemia. E aqui estou falando de uma coisa que os ativistas chamam de “protagonismo”. O que a narrativa de Clube de compras Dallas faz é retirar dos gays o protagonismo que tiveram na resposta à epidemia. E para que essa afirmação não pareça vaga, pode-se pensar na criação de organizações importantes nos Estados Unidos como o ACT-UP, em 1987, e o Queer Nation, em 1990, que estiveram essencialmente ligados a esse contexto de ativismo LGBT diante da aids.

 

A partir dessa configuração de Clube de compras Dallas, muito se poderia falar sobre a forma como filmes estadunidenses (mas não só) tratam do tema HIV/aids. É frequente, por exemplo, que se coloquem nesses filmes os homossexuais como as vítimas (quando não como “culpados”), ajudados por pessoas heterossexuais – que são “transformadas” pelo contato direto com os doentes de aids. Não é simplismo. E há um referente no mundo real para essa simbologia frequente em alguns filmes: é porque o reconhecimento público da dimensão da doença se deu relativamente tarde. Isso leva à hipótese de que essa histórica postura da sociedade estadunidense estaria sendo representada de forma a se reescrever o momento diminuindo o peso da homofobia e dos valores conservadores daquele momento.

 

 

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Em certo sentido, esse pode ser considerado o acerto de The Normal Heart. (E aqui assumo que repenso um pouco o posicionamento de tempos atrás sobre o filme, pois o confronto com o imaginário montado por Clube de compras Dallas permite reconhecer a importância desse protagonismo gay na época da epidemia).

 

Ao elaborar narrativamente uma visão do problema da aids a partir de um olhar de dentro do meio gay, além de evidenciar uma sociedade paulatinamente mais homofóbica e moldada pelo ressurgimento de valores conservadores no governo de Ronald Reagan, The Normal Heart fixa a potência de ação de grupos gays naquele momento. Julia Roberts numa entrevista sobre o filme disse algo interessante: que ele seria importante por “nos fazer lembrar de quando éramos piores como seres humanos” (e aqui cabe a cada um interpretar essa primeira pessoa como uma referência aos estadunidenses ou a um grupo bem mais amplo). Se, como política, The Normal Heart funciona, como filme ele soa chato pela chama de certeza que alenta os personagens numa era incerta.

 

Sempre se pode dizer, claro, que é preciso entender esses filmes apenas como entretenimento. Ora, sim, eles são. Mas são um entretenimento que trabalha com discursos, com opiniões que circulam socialmente – além de ajudar a alentar muitos deles. Ou não é sintomático que o cinema “redescubra” o tema da aids num momento em que se fala muito sobre aumento de infecções em jovens?

 

Interessante observar que, quando se contrapõem os discursos desses dois filmes a uma postura amplamente disseminada sobre a aids, estamos diante de um discurso atual – e moralizador, se pode dizer – sobre a doença. Em The Normal Heart é fácil ver na postura de Ned a consciência de que o Estado deve agir diante do problema, mas que também os gays precisam se precaver deixando de lado o hedonismo e a postura mais libertária. Ora, sem entrar em defesa ou ataque, é importante reconhecer  que esse discurso não é natural, mas foi construído e fortalecido até ter essa aparência de obviedade (ou de verdade, para alguns). Por isso é interessante pensar como The Normal Heart se comunica bem com um público gay (que, diga-se, compõe uma parcela importante da audiência da HBO – basta pensar na quantidade de produções específicas realizadas pelo canal). Mas, mais especialmente, fala muito bem a uma parcela da audiência gay que não tem HIV.

 

Mas há ainda um outro fato central no confronto dos dois filmes. Tanto em Clube de compras Dallas quanto em The Normal Heart estamos diante de uma tentativa de inserir essas histórias numa compreensão da “História americana” (assim mesmo, com maiúscula). Ainda se luta, se ama e se sofre numa paisagem marcada pelos símbolos da cultura estadunidense. É importante, então, que esses imaginários sejam pensados à luz tanto dos modos como atuam as indústrias audiovisuais dos Estados Unidos, como à luz de uma visão da aids que parece querer se colocar como hegemônica. Está na hora de pensarmos, portanto, a aids para além dessas histórias.

 

 

 

* Este texto não seria possível sem boas conversas (Ivan Sallas, Cícero Oliveira, Lauren Zeytounlian e Eduardo Sguerra) e algumas leituras (Susan Sontag, Néstor Perlongher, Herbert Daniel e Carlos André Facciolla Passarelli).

 A todos esses “coautores”: obrigadx por pensarem em conjunto.

 

 

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Ilustração: eduardo sguerra

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