Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

identidade

, , , , , , , , , , , , , , , , ,

Representatividade lésbica no cinema nacional

Download PDF

Análise de quatro filmes. Por Andressa Oliveira e Naiade Bianchi

 

 

Publicado em 09/12/2015

 

 

3

 

 

Se uma Sapatona incomoda muita gente,na telona uma(s)  incomodam muito mais. Talvez por isso seja raro o retrato de mulheres lésbicas no cinema brasileiro, não o estereótipo lésbico usado para a “comédia pastelão”, mas a lésbica real. A relação lésbica é normalmente retratada e voltada ao publico hétero masculino, vide Azul é a cor mais quente. Escolher títulos para ilustrar este artigo não foi tarefa fácil, devido ao número reduzido de obras.  Isso reflete em um apagamento da lesbianidade presente não somente nas telas de cinema, mas na arte, história e até vivência das lésbicas diariamente.

 

Analisamos os filmes Simone (Juan Zapata, 2012), Como esquecer (Malu de Martino, 2010), Amor maldito (Adélia Sampaio, 1984) e Flores raras (Bruno Barreto, 2012). Tais produções, por um lado, tiveram a audácia de falar sobre lésbicas, o que é extremamente positivo e raro. Mas mesmo elas não podemos dizer serem representativas de um número muito abrangente de lésbicas: pelo padrão socioeconômico e padrão de beleza normalmente encontrados nestes filmes, por não retratarem a violência, apagamentos e dificuldades sofridas.

 

Generalização da Lésbica

 

Fazendo uma leitura rápida das personagens retratadas nesses filmes é possível ver como existe a higienização e padronização da lésbica, na contramão do cinema nacional que prioriza colocar em pauta a questão de classe e racial. Os filmes com temáticas lésbicas se mostram bem menos dispostos a abrirem o leque de possibilidades, as mulheres são sempre brancas e de classe média pra cima.

 

Outro incomodo real é com o peso, segundo os filmes só se é possível ter uma transa maravilhosa se a parceira usar manequim 38 e sutiã 42, lésbicas gordas não existem em filmes porque, aparentemente, o que vende é o ato sexual/amor entre duas mulheres que agrade as vistas de homens heterossexuais.

 

Isso reflete também o que significa ser lésbica na cultura heteropatriarcal: um fetiche. Não é preciso muito esforço para perceber que a maneira como lésbicas são retratadas nas produções existentes e na mídia corporativa normalmente é de maneira altamente sexualizada. Mulheres que não se encaixam em um modelo de beleza eurocentrado e magro geralmente não encontram lugar. Isso não somente ajuda a manter o estranhamento das pessoas diante de um casal de lésbicas, mas a instigar repúdio se este casal não performar feminilidades previstas.

 

Não é difícil observar também que os filmes sobre lésbicas, em sua maioria, não acabam com o casal unido, como costuma acontecer em filmes heteronormativos; isso não apenas no Brasil, mas também em produções estrangeiras que abordam esta temática. Nas produções nacionais é possível observar que, embora dois dos filmes vistos iniciem com o casal de lésbicas já formado, nenhum deles terminam com o casal ainda junto. Nos outros dois é falado sobre um relacionamento passado, mas as antigas namoradas das protagonistas não são apontadas na produção.

 

O modelo de relacionamento heteronormativo também está presente em boa parte das produções citadas: uma das lésbicas mais autoritária, toma decisões e sustenta a casa; a outra é dependente financeira ou emocionalmente, aceitando as imposições da namorada.

 

 

3.1

 

 

Simone

 

Um filme que à primeira vista pode deixar lésbicas um pouco chocadas. É baseado na história de uma mulher que nunca teve experiência sexual com um homem, mas que em determinado momento de sua vida se apaixona por um. O romance heterossexual está presente em todo o filme, se intercalando de maneira não linear com a vida de Simone e Cris, sua namorada atual, e o momento em que elas estavam se conhecendo.

 

A produção dá espaço para algo que as lésbicas estão acostumadas a lidar com frequência, que é o não reconhecimento da sua lesbianidade, a heterossexualidade compulsória que repousa na ideia de que uma mulher é lésbica por não ter conhecido o homem certo ou porque nenhum a quis.

 

Alguns estereótipos de gênero também são frisados: Cris quer se casar e ter uma filha, “uma menina que só use lacinho na cabeça e rosa”. Em outro momento, vendo as fotos de ex namoradas de Simone, a personagem  Cris diz: “você diz que nunca ficou com um homem mas se isso não é um homem eu não sei o que é”. Trata-se de um discurso lesbofóbico amplamente difundido e que foi abordado de maneira naturalizada no filme.

 

Em uma cena em que Simone busca Cris e lhe dá beijos em público, a namorada menciona este fato como algo inédito enquanto ao fundo aparecem algumas mulheres espantadas com as carícias trocadas pelas namoradas. Esta situação é comumente vivida por lésbicas, o estranhamento diante do afeto público; mas, apesar de positiva, é o único momento em que a lesbofobia é abordada no filme.

 

Como esquecer

 

O filme foi baseado em uma autobiografia escrita por Myrian Campello e aborda o sofrimento de uma mulher que foi abandonada por sua namorada depois de dez anos de relacionamento. Uma das coisas que chamou atenção no filme foi a dependência emocional que a personagem Júlia demonstra. A personagem é extremamente amargurada e até grosseira com as pessoas que a rodeiam, o que levantou a discussão se isso é mais um estereótipo atribuído às lésbicas ou se é normal esse tipo de comportamento após um rompimento. Mas é interessante observar que este tipo de comportamento jamais é esperado de um homem e nem tão retratado em produções audiovisuais. O desequilíbrio e dependência emocional são atribuídos a mulheres.

 

Uma questão apontada pela crítica Amanda Aouad é o fato de o filme tratar com naturalidade a protagonista ser lésbica. “Este quesito não levanta nenhum questionamento e nem é ponto de debate. A história poderia ser de qualquer pessoa, a lesbianidade é tratada de maneira natural”. A diretora Malu de Martino também apontou a importância da abordagem do tema de maneira naturalizada. Apesar dessa importância, a naturalização do tema foi feita nas formas de uma sociedade fantasiosa, pois sabemos bem que ser lésbica não é tido como natural em nossa sociedade.

 

O filme apoia sua fórmula no sofrimento de Júlia, uma mulher lésbica, então fica a pergunta: é possível uma fórmula e filmes sobre lésbicas em que, coisas boas aconteçam e essa mulher lésbica termine o filme bem resolvida e feliz?

 

3.2

 

Amor Maldito

 

Este filme, lançado em 1984, foi o primeiro a discutir a temática lésbica no Brasil. É importante  considerar este aspecto, pois embora ainda haja muito silêncio sobre a lesbianidade, na data de lançamento do filme a discussão deste assunto era praticamente nula. Outro ponto relevante é que ele foi lançado junto às conhecidas pornochanchadas brasileiras, em que as lésbicas não passavam de objeto de prazer masculino – não que essa imagem construída seja muito diferente nos dias atuais. Entre os filmes analisados, este é o único que trata da lesbofobia, embora este termo não seja usado. O fato de abordar este tema é positivo, já que nos demais filmes parece que a lesbofobia é um ponto ultrapassado, não sendo mais um problema na sociedade atual.

 

A história é o julgamento de Fernanda pela morte de Sueli, mas o que há no tribunal é o julgamento pelo fato de Fernanda ser lésbica. Durante os depoimentos, são intercaladas cenas da vida das personagens. Em todo o momento Fernanda é acusada de fazer orgias, tirar Sueli do seu caminho de moça de família, dos caminhos da moral cristã, assim como a imagem que se há da figura da invertida – uma construção identitária do início do século XX, com forte teor biológico, patologizante, de uma mulher contrária à feminilidade, portando-se como homem e com interesses sexuais voltados às mulheres. Este aspecto pode ser aceito como uma crítica ao moralismo cristão, já que no final do filme Fernanda é absolvida pelos jurados, mas o fato da defesa encarar inicialmente Fernanda e Sueli como amigas pode obscurecer um pouco essa crítica por tratar-se de um discurso lesbofóbico muito presente, que apaga o relacionamento lésbico.

 

Outro aspecto do filme interessante de ser abordado é o fato de Sueli conhecer um jornalista em uma festa na casa de Fernanda. O enredo do filme mostra que, além dos amassos na festa, ela sai com o cara mais vezes e engravida dele. Este é um aspecto incômodo pois é bem frequente a presença de relacionamentos heterossexuais em filmes de temática lésbica. É perigoso também por esbarrar no discurso lesbofóbico da acusação em relação a Fernanda tirar Sueli do caminho de boa moça.

 

Flores Raras

 

Este filme foi também baseado em uma história real, o romance entre Elizabeth Bishop e Lota Macedo Soares. Elizabeth está em crise de criatividade e decide viajar ao Brasil ao encontro de Mary, sua amiga de faculdade, e conhece Lota, com quem Mary é casada.

 

Ele é, dentre os analisados, o que mantém as características mais fortes do modelo de relacionamento heterocentrado. Logo na primeira cena as características de Lota chamam atenção e se confirmam no desenrolar do filme – uma mulher decidida, pratica, roupas sóbrias, quase sempre um terninho, cabelo preso, toma decisões – em contraste com Mary, uma mulher de aparência frágil, delicada e outros estereótipos de feminilidade. Quando Lota se apaixona por Elizabeth, decide viver com as duas e convence Mary a aceitar o relacionamento oferecendo um bebê, que era o que ela sempre quis. O modelo de relacionamento não monogâmico apenas por parte de Lota que se envolve afetivamente com Mary e afetivo e sexualmente com Elisabeth. Mary e Elizabeth, que eram amigas, demonstram em várias cenas apenas se suportar para agradar Lota.

 

A única cena que trata da lesbofobia é quando Mary conta a Elizabeth que não convive com os pais porque é casada com uma mulher. E completa que, no Rio de Janeiro, elas são discretas, mas onde vivem não são incomodadas.

 

Outro ponto importante em Flores raras é uma característica comum nos filmes de temática lésbica analisados: as mulheres lésbicas são representadas por atrizes brancas, magras e personagens de alto poder aquisitivo.

 

Se alguém resolvesse assistir filmes com protagonistas lésbicas e assistisse a esses 4 filmes, iria achar que lésbicas ou são frágeis ou invertidas, ou são extremamente depressivas ou extremamente agressivas; em algum momento terão um relacionamento com um homem – para provarem a si mesmas sua lesbianidade ou para terem uma aventura hétero. Nós não conseguimos nos identificar nem identificar nenhuma lésbica que conhecemos com essas personagens. E você leitora, se identifica?

 

 

 

Links de referência

http://www.cinepipocacult.com.br/2010/10/como-esquecer.html

http://www.cinepipocacult.com.br/2013/08/flores-raras.html

http://revistageni.org/08/amor-maldito

 

 

Naiade Bianchi, taurina com riso solto e sotaque arrastado e gostoso, estudando para o mestrado e sapatão muito sapatão.

 Ilustração: Emilia Santos

 

, , , , , , , , , , , , , , , , ,
Carolina – 27 de janeiro de 2016 - 11:59

Obrigada por esse texto!
É mesmo muito foda a representatividade lésbica em qualquer lugar, e o cinema (não só o brasileiro) raramente é condizente com a realidade.

HTML permitido: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>