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resenha

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República de assassinos

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Cultura de morte e desejo de violência institucionalizada. Por Pedro “Pepa” Silva

A produção audiovisual brasileira padece daquela crítica automatizada que tende a ressaltar nela tudo que poderia ser um defeito, ficando as qualidades esquecidas. Numa rima casual, nosso cinema só teria putaria, nossa TV, só porcaria. Sou do tipo que odeia críticas automatizadas e que adora pesquisar raridades do cinema e da televisão – minha pequena tentativa de resistência diante de discursos plenos de certezas. É assim que vou criando minha secreta lista de clássicos pessoais, diante dos quais costumo pensar: “O que dizem ainda hoje?”. Entre eles, está um filme de 1979, dirigido por Miguel Faria Júnior: República dos assassinos.

 

O roteiro é baseado no romance homônimo de Aguinaldo Silva, publicado em 1976. O universo do autor estava muito distante daquele que imprimiria às novelas globais muitos anos depois: o livro reflete as histórias da crônica policial, do submundo que Aguinaldo conheceu de perto durante sua atuação como jornalista. Por meio de cartas, depoimentos e reportagens, acompanhamos flashes da ascensão e queda do policial Mateus Romeiro, suas relações com a atriz Marlene Graça, a travesti Eloína e o jornalista Aguinaldo Ribeiro, além de sua ligação com o grupo de extermínio Homens de Aço.

 

Os nomes e entrechos são fictícios, mas há muita realidade por trás do livro e do filme. A começar por Mateus Romeiro (interpretado por Tarcísio Meira), que é a síntese do ex-policial Mariel Mariscot, conhecido como o Ringo de Copacabana. Mariel pertencia à Scuderie Le Cocq e também ao grupo de elite Homens de Ouro, da polícia civil do Rio (frequentemente enaltecido no programa do fascistinha Flávio Cavalcanti na TV Tupi). Tanto a Scuderie quanto o grupo de elite estiveram diretamente ligados ao que ficou conhecido como Esquadrão da Morte.

 

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A morte por prazer

 

Ao contrário do que muita gente pensa, o Esquadrão da Morte não é uma criação do período da ditadura militar. Suas raízes se localizam na segunda metade dos anos 1950, durante a gestão do general Amaury Kruel como Chefe de Polícia do Rio de Janeiro (então a capital do país). Ao que parece, não consistia numa instituição com unidade –em São Paulo, por exemplo, diferentemente do que teria acontecido no Rio, o Esquadrão esteve ligado à repressão política do delegado Sérgio Paranhos Fleury nos anos 1970. Assim, é bem possível que, por trás do que se convencionou chamar Esquadrão da Morte, existissem diversos grupos que tinham em comum a prática da justiça com as próprias mãos.

 

Elevada ao status de grande problema nacional, a impunidade esteve no cerne da criação desse grupo de extermínio e uniu policiais, comerciantes, bicheiros, traficantes – e criminosos. O Esquadrão atribuía a si mesmo uma função moralizadora da sociedade: limpar o banditismo a partir da execução dos delinquentes (na prática, o alvo era sempre o pequeno ladrão, o vilão das classes médias).

 

Na imprensa da época, as ações do grupo eram enaltecidas, especialmente depois que o secretário de Segurança da Guanabara Gustavo Borges (que promovia a morte de mendigos como política de limpeza da cidade…) declarou apoio ao Esquadrão. Essa foi apenas uma das diversas defesas públicas da associação. Um livro publicado na época sugeria o apoio ao colocar uma pergunta retórica como subtítulo: Esquadrão da Morte: um mal necessário?. Numa longa reportagem em julho de 1970, a revista Veja apresentava o resultado de uma pesquisa feita em São Paulo e no Rio: 46% dos entrevistados se disseram a favor da atuação do Esquadrão. Mais adiante, destacava a fala de um integrante:

 

“Sinto um prazer quase sexual ao ver as balas perfurando os corpos dos criminosos e o sangue brotando como uma rosa vermelha da terra”.

 

(A declaração explica o que poderia parecer um exagero na caracterização de Mateus Romeiro no livro de Aguinaldo Silva: o personagem ejacula ante o desespero pré-morte do personagem Carlinhos. No filme, não se chega a tanto, mas Mateus diz: “Você sabe que me dá um tesão ver você assim se cagando de medo na minha frente? Vou fazer um bem pra você!”.)

 

O prazer de matar ficava evidente nas ações do Esquadrão. Para citar dois exemplos: em 1962, o bandido Mineirinho era assassinado com 13 tiros; em 1964, o bandido Cara de Cavalo era assassinado com 52 tiros. Mineirinho foi tema de crônica de Clarice Lispector; Cara de Cavalo estampou a obra mais famosa de Hélio Oiticica, sob o slogan “Seja marginal, seja herói”. Eram as primeiras obras a refletir o sentido do Esquadrão para o imaginário urbano da época.

 

Na década de 1970, o Esquadrão ia aos poucos sendo visto como um problema da justiça e da polícia no Brasil. Embora se percebesse uma mobilização da opinião pública para pensar o problema (o jurista Hélio Bicudo, por exemplo, esteve por trás da luta do Ministério Público para dissolver o grupo de Fleury em São Paulo), as execuções e os requintes de violência continuaram. Numa matéria de capa da revista Status, em 1986, dois repórteres acompanharam integrantes do Esquadrão na Baixada Fluminense, descrevendo a rotineira desova de corpos no Guandu, um rio manchado pelo sangue de sabe-se lá quantos mortos… Nessa época, falava-se em pelo menos 30 mil mortes na conta do Esquadrão. A caveira com tíbias cruzadas, símbolo do grupo, seguia conhecida dos moradores.

 

Cinema de macho

 

Todo esse universo não esteve presente apenas em República dos assassinos. No fim dos anos 1970, o cinema policial brasileiro se nutriu da realidade das duas maiores cidades do país e colocou na tela situações que eram familiares aos espectadores. E Mariel Mariscot (àquela altura, expulso do seleto grupo da Scuderie Le Cocq e já detido) foi um personagem recorrente. Além do filme de Miguel Faria Jr., ele foi retratado em Lúcio Flávio: Passageiro da agonia (Hector Babenco, 1977) e Eu matei Lúcio Flávio (Antônio Calmon, 1979).

 

Diferentemente desses últimos, República dos assassinos dá voz a mais personagens e, ainda que centrado na trajetória de Mateus Romeiro, escapa um pouco daquela “supremacia do macho”, tão comum ao gênero policial. Se este é marcado pela virilidade, o filme elege uma travesti como contraponto – e coloca em primeiro plano um beijo gay entre Tonico Pereira e Anselmo Vasconcellos, que é um dos melhores momentos do nosso cinema.

 

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Filme e livro brincam ainda com ficção e realidade ao escolher os nomes dos personagens. Como num “romance com chave”, todos guardam ligações interessantes de Mariel Mariscot. Aguinaldo Ribeiro, o jornalista que enaltece as ações do Esquadrão na imprensa, é o retrato do repórter do Última Hora Amado Ribeiro, cujo sensacionalismo foi ironizado por Nelson Rodrigues em personagem de mesmo nome na peça O beijo no asfalto. Marlene Graça (no filme, a sensual e sussurrante Sandra Bréa), é a versão ficcionalizada de Darlene Glória, famosa por interpretar a prostituta Geni no filme Toda nudez será castigada. A atriz (que posteriormente renegou todo um passado de liberdade sexual ao se tornar evangélica) teve uma relação conturbada com Mariel, da qual resultou um filho. Já Eloína, uma das maiores personagens do cinema nacional (em brilhante interpretação de Anselmo Vasconcellos), de cara remete à travesti Rogéria, que também teve um affair com o galã-policial.

 

Uma cultura de morte

 

Fui rever o filme de Miguel Faria Jr. quando o país se deliciava com o espetáculo midiático da prisão dos mensaleiros em pleno “festejo” da Proclamação da República. Nada mais sintomático que se pôr a pensar nos sentidos metafóricos e não metafóricos do título do livro de Aguinaldo Silva: afinal, que república é essa?

 

Confesso que não havia antes atentado para a dimensão do título. República de assassinos nunca sintetizou tão bem a nossa relação com a violência institucionalizada, banalizada, internalizada. E, neste momento em que se fala muito sobre desmilitarização da polícia, seria interessante pensar em como isso pode ser feito numa cultura que glorifica o autoritarismo, a repressão, a força. Não basta colocar tudo na conta do militarismo, é preciso não cair na defesa de medidas que, deslocadas, resultem inócuas. É preciso entender que uma lógica de opressão ainda faz sentido à instituição policial e a uma boa parcela da sociedade – talvez à mesma que acredita em nomes como Mariscot, Fleury, Tuma, Ubiratan, Beltrame ou Capitão Nascimento.

 

Uma sociedade que desconhece a história e enaltece com saudosismo os tempos mais autoritários da curta história de liberdade da República brasileira deve ser a mesma sociedade que foi conivente com a arbitrariedade de grupos de extermínio. Ou a mesma que não questiona a violência oficializada diariamente. Ou a mesma que acha superfashion uma camiseta supertrendy do Esquadrão da Morte ser vendida numa galeria supercool dos Jardins, em São Paulo, como aconteceu pouco tempo atrás. Ou que não se assusta em saber que, nos últimos 30 anos, 1 milhão e 200 mil pessoas foram assassinadas. Tudo isso não é sinal de uma sociedade que sente o prazer da morte?

Leia outros textos de Pedro “Pepa” Silva.

Ilustração: Cecilia Silveira.

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[…] fúria cotidiana, sanha de sangue. Cultura de morte. A percepção diária de uma República de Assassinos (como bem disse Aguinaldo Silva numa época em que parecia querer entender essas absurdidades […]

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