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TUTTOMONDO | A morte gorda

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HIV, aquecimento global e a sobrevivência dos ursos. Por Marcos Visnadi

  Publicado em 08/12/2015

 

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Você engordou

 

Eu sempre fui o mais gordo da turma. E o mais magro da família. Ouvia muito xingo e risadinha na escola, mas no almoço de domingo minha avó sempre enfiava mais macarronada no meu prato. Foi uma baita mudança quando, faz uns anos, vovó me viu depois de um tempo ausente e falou: “Nossa, como você tá gordo!”.

 

 

Pegação como política

 

Boa parte dos movimentos políticos de minoria começam com um exercício simples, doloroso e demorado: autoaceitação. A importância do cabelo no feminismo negro é um bom exemplo disso. As mulheres e travestis que mostram os seios nas passeatas também estão nessa pegada.

 

Acho que é no Devassos no paraíso que João Silvério Trevisan conta que, no começo do Somos, grupo gay pioneiro no Brasil, as bichas se trancavam no quarto escuro pra fazer, sem medo, o que as bichas fazem desde sempre em locais públicos, à mercê da polícia, correndo um risco danado: pegação. Na entrevista pra Geni, o Trevisan disse: “Como é que as pessoas iam chegar ao ponto de exigir seus direitos se elas não tinham sequer autoestima?”. Pegar sem culpa cristã nem medo de represália na nudez própria e na dos outros era o primeiro passo pra fazer a revolução.

 

 

Woof

 

Só quando uma amiga veio me dizer, a título de elogio, “Nossa, como você emagreceu”, foi que eu dei a resposta que precisava pra mim mesmo: “Eu me prefiro gordo”. Depois de muito tempo testando roupas e ensaiando tirá-las, finalmente era verdade.

 

(Parêntese. Essa amiga, óbvio, não sabia, mas eu tinha emagrecido por ter passado vários meses sem grana, comendo uma refeição por dia nos dias bons e andando a pé por falta de moedas pro busão. “Você emagreceu” nem sempre é um elogio, gente.)

 

Bom, mas gostar mais de mim gordo não tem nada a ver com a pindaíba que passei. Foi uma tranquilidade conquistada com muita pegação. Nesses casos, não só tirar a roupa pra ter prazer ajudou bastante, mas principalmente trepar com homens gordos (recomendo). Conquistei um pouco da autoestima necessária pra começar a revolução, graças aos ursos. Woof!

 

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A hierarquia do corpo

 

Trinta quilos e um vírus depois, o troféu começou a descascar. Com os remédios em dia e a carga viral zerada, meu peso virou o assunto principal de cada consulta médica. Porque, se os antirretrovirais inibem o HIV e prolongam indefinidamente esta vida que sabe-se lá por que a gente quer prolongada, eles também, reza a lenda, zoam o metabolismo e matam lentamente o que a aids mataria não tão lentamente.

 

Viver são várias escolhas. O fígado, mole e escuro escondido na barriga, que o diga. Coração, cérebro, todos os órgãos ocultos. Na hierarquia do corpo, eles valem mais do que a próstata, o pau, a língua e os outros órgãos sexuais à mostra?

 

 

Você engordou

 

Outra pergunta: emagrecer é possível? Se você olhar em volta, vai ver a comprovação das estatísticas que dizem que 52,5% da população brasileira está com excesso de peso, e 17,9% está obesa. Esse número, alto em termos de saúde pública, não é exclusividade nossa: a obesidade populacional é de 20,5% na Argentina, 25,1% no Chile, 35% nos Estados Unidos.

 

A causa disso, obviamente, não somos nós, gordxs preguiçosxs, mas o capitalismo, com sua indústria alimentar tóxica e mafiosa, suas jornadas de trabalho que sequestram os nossos corpos e o nosso tempo, sua criação constante de demandas para que alguns lucrem enquanto muitxs dedicam suas vidas a comprar coisas de que não precisam. A participação das pessoas gordas na epidemia de obesidade é, a bem da verdade, bastante marginal, e nada proporcional às toneladas de culpa que colocam em cima da gente, como se a nossa banha fosse obrigada a sustentar os males do mundo.

 

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Trinta e cinco mil morsas

 

Outra pergunta: como dissociar o que é estatística do que não é, o que é político do que não é? Como ter tesão e culpa e saúde e tranquilidade e consciência e hábitos saudáveis e se divertir, tudo junto e ao mesmo tempo? E, se a gente tentar conciliar tudo isso, ainda vai ter tempo de fazer a revolução? E, em qualquer hipótese, a revolução será possível? Cortar as cabeças dos banqueiros, terraplanar Brasília, bombardear as hidrelétricas e os automóveis, enviar todo o contingente policial do país pro Jardim da Infância, onde aprendam que não pode bater no coleguinha.

 

Trinta e cinco mil morsas gordas se aglomeram numa geleira do Alasca porque tem cada vez menos gelo nas calotas do planeta. E as gordas sentem muito calor. Um estudo da Universidade Federal de Pernambuco constatou que 32,1% de um grupo de 2.018 pessoas HIV+ estavam com peso acima “do normal”.

 

Tudo está em perigo.

 

Ponha uma paçoca na boca e soletre “saúde”.

 

 

A morte magra

 

Outra situação em que “você emagreceu” pode não ser um elogio: a perda de peso involuntária (emaciação) e a distribuição irregular das gorduras do corpo (lipodistrofia) são duas das muitas características possíveis em doentes de aids. Pessoas com câncer também costumam perder bastante peso, não? E com tuberculose? Talvez por isso, e porque o esqueleto é fitness, a gente costume associar a morte à magreza, embora nem sempre faça a associação contrária. Cuidado com os elogios, de qualquer forma, pois eles podem sair pela culatra. A não ser em caso de atores que interpretam bichas morrendo de aids no começo da epidemia. A de aids. Pra comoção geral, tapetes vermelhos e palmas nas resenhas.

 

Talvez um dia os atores, em vez de ganhar prêmios por perder peso, ganhem tudo junto, interpretando as bichas gordas do nosso tempo, que morrerão – do coração?

 

Daqui a trinta anos a morte enfim vai ser pesada e espaçosa? Ainda vai ter prêmios e astros e filmes? Salas de cinema construídas com os ossos das morsas? Bichas eu sei que vai ter. A gente é da raça das baratas. Bichos e bichas: o legado do planeta. O resto, só perguntas e hipóteses.

 

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A morte gorda

 

Uma minúscula pedra de gelo, do tamanho de dez Maracanãs, flutua sozinha na superfície líquida da Terra. Um urso-polar passeia branco nesse deserto cada vez menor.

 

Curiosidade animal: pra se camuflar na neve, o urso-polar esconde o focinho preto sob as patas brancas. E fecha os olhinhos.

 

O sol está quase se pondo. Quilômetros abaixo do gelo, a cidade de Nova York está afogada. Mais adiante, o Cristo Redentor e o Templo de Salomão servem igualmente de pouso pra toneladas de bosta de um novo tipo de baleia, evoluído para as mudanças climáticas.

 

O urso-polar está quase dormindo quando sente uma cutucada no rabo. Ai que susto! Era outro urso-polar, enfim saído de seu esconderijo a céu aberto.

 

Os dois ursos se olham. Se estranham. Ouvem os grunhidos e os roncos das barrigas um do outro. Só isso e o som das ondas batendo contra o ar.

 

Agora, com a Lua e a Via Láctea os cobrindo, eles se lambem e se metem um dentro do outro.

 

Não tem polícia, comida nem futuro. E é gostoso mesmo assim.

 

 

 

 

 

Ilustração: Gunther Ishiyama

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Luciana – 3 de fevereiro de 2016 - 15:31

só queria comentar aqui que esse texto é maravilhoso, cuidadoso, acolhedor, bonito e corajoso. Obrigada.

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