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Uma cidade inundada de mulheres

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Geni esteve com outras 10 mil na 28ª edição do Encontro Nacional de Mulheres da Argentina. Por Aline Gatto Boueri, de San Juan (Argentina)

A cidade de San Juan, capital do estado homônimo na Argentina, tem pouco mais de 100 mil habitantes. Casas baixas, praças grandes, a pré-cordilheira ao fundo e, em um fim de semana largo de novembro, cerca de 10 mil mulheres chegam, de todo o país, para se encontrar aí. Durante os dias 23, 24 e 25, entre oficinas, debates, música e tardes na praça do centro da cidade, lésbicas, trans, feministas, militantes do país inteiro fazem a 28ª edição do Encontro Nacional de Mulheres (ENM).

 

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San Juan não é somente uma cidade pequena em um estado conservador – o que já costuma ser motivo para a eleição de um lugar como sede do ENM. É referência em projetos de extração de minério na Argentina, atividade que tem forte oposição em movimentos ambientalistas, que são duramente reprimidos quando se manifestam.

 

A polícia está preparada para “evitar conflito social”. Em cada esquina, em cada ponto estratégico da pequena capital, havia representantes da lei e da ordem. Observavam com cautela aquelas mulheres que dançavam nuas no centro da cidade, se beijavam à luz do dia e em público, tomavam cerveja e pediam “aborto legal no hospital”.

 

Um taxista pergunta a uma passageira: “Você é dessas que ficam andando peladas na rua?”. Um motorista de ônibus – o último da noite – afirma que aquela linha não leva um grupo de mulheres a seu destino final, até que uma professora sanjuanina grita do fundo: “Leva, sim! Não sei por que ele diz que não”. À noite, enquanto as mulheres dormem do lado de fora das escolas onde estão hospedadas, uma chuva de pedras cai sobre suas cabeças, em diferentes bairros. Sempre à noite, na surdina, na covardia. Não se podia esperar outra coisa.

 

As mesmas histórias, contadas várias vezes por pessoas diferentes, justificam sem intenção a reunião de milhares de mulheres. Tantas, juntas, ao mesmo tempo, no mesmo lugar, evidenciam a violência cotidiana, pulverizada em um destrato aqui, um descaso acolá, uma porrada na outra esquina, um salário menor que o do colega homem desse lado, a dupla jornada de trabalho daquele outro – agressões ocultas no turbilhão de negações diárias.

 

Isoladas, essas violências – frutos de uma socialização machista à qual todas fomos submetidas e muitas decidem desafiar – parecem invisíveis para quem não as vive em primeira pessoa. Mas quando somos tantas, juntas, ao mesmo tempo, no mesmo lugar, aí não. Aí é bandeira demais. Aí não tem como negar.

 

Orquestrados talvez sem combinação prévia, os ataques às delegações (pedradas, obviamente, não é o caso de inovar) são mais uma demonstração de que a violência patriarcal não precisa de encontros. A luta contra ela, ao contrário, é fruto de comunhão entre diferentes grupos que muitas vezes têm diferenças quase irreconciliáveis, como as mulheres da esquerda trotskista, as kirchneristas e os movimentos autônomos.

 

Não vou dar publicidade às picuinhas imagináveis. Algumas histórias só pertencem mesmo a quem as viveu. Dez mil mulheres podem discordar em muitos aspectos, mas, como naquele poema de Ferreira Gullar, sabemos que somos todas irmãs, não porque dividamos o mesmo teto e a mesma mesa: dividimos a mesma espada sobre nossa cabeça.

 

Tá com medinho?

 

Para receber as 10 mil mulheres, San Juan preparou uma surpresinha como prova de hospitalidade. Todos os edifícios públicos, monumentos e, claro, a catedral da cidade, estavam protegidos por grades e, claro, pela polícia. Diz o dito popular que quem não deve não teme. O patriarcado treme. Treme quando vê a rua tomada por mulheres no domingo (25) à noite, treme quando vê que elas se beijam nas ruas, que elas andam de mãos dadas, de braços dados – apesar de todas as diferenças que se expressam nos debates da oficinas.

 

O patriarcado treme de medo, treme de ódio. E reza. Na porta da catedral de San Juan não bastava a grade. Um cordão de homens fazia a proteção de um cordão de mulheres, que por sua vez protegiam a casa daquele deus, enquanto rezavam em um transe alienado e alienante para se proteger das hereges, nós.

 

Nós que estávamos ali e denunciávamos que “assassinos são vocês/ por aborto clandestino quem morre são as mulheres”, ou que “patricinha aí parada, você faz os seus abortos na clínica privada”, ou mesmo que “eu sabia, estupradores são protegidos pela polícia” e “vocês calaram quando as levaram”. O silêncio da Igreja em relação ao tráfico de mulheres é ensurdecedor quando comparado com o barulho que se faz pela proibição do aborto.

 

Pau duro na casa de deus também não pode, shhhh, silêncio, pau duro só casando. O rapazinho que estava no cordão dos beatos, rezando pro seu deus, enquanto duas moças se beijavam na sua frente, não entendeu muito bem. E aconteceu, ali no meio das hereges, ele mostrou que o desejo é humano, demasiado humano. E foi rapidamente retirado das vistas. Sabe como é, deus e pau duro não combinam assim em público.

 

Ao lado, já no final, uma jovem se aproxima e pergunta a uma das participantes do ENM: “Vocês vêm todas juntas?”. “Separadas, mas com um inimigo em comum.” O patriarcado treme. A jovem mora em San Juan e conta que na sexta-feira, um dia antes do começo do ENM, foi liberada mais cedo da escola “porque estão chegando mulheres que querem legalizar o aborto” e, sabe como é, é uma horda de bruxas, um bando de baderneiras, um monte de assassinas que querem ter direito a decidir o que fazer com TODAS as partes de seu corpo, inclusive o útero.

 

E o patriarcado treme.

 

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Ilustração: Tiago Kaphan.

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