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O tempo no corpo, a arquitetura da beleza

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E talvez a grande desfunção da envelhescência. Por Paloma Franca Amorim

 

 

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“Durante muito tempo na minha vida pensei em escrever o primeiro volume, porque queria salvar a minha infância e a minha juventude. Há tanta diferença entre a vida de um adulto e a vida de criança, de adolescente, que se tem a impressão de ter enterrado na mulher em que nos transformamos a menina e jovem que fomos. E foi por uma espécie de dever para com elas, que senti que devia ressuscitá-las, sobretudo porque tinha havido momentos da minha adolescência que tinham sido dolorosos, e que ela tinha acabado com a morte da minha melhor amiga em condições bastante trágicas. Por isso decidi fazer justiça, quer a mim mesma, quer a essa amiga, e a tudo que essa infância e essa juventude tinham sido” – Simone de Beauvoir em entrevista anexada ao documentário Simone de Beauvoir – uma mulher atual (2008).

Por essa espécie de dever para com mulheres com as quais cruzei pelo caminho e para com aquelas que fui e que tive de enterrar em mim por conta do machismo de todo dia, escrevo.

Portanto, produzo esse texto em homenagem a Ana Clara Félix Cabral, jovem de 19 anos assassinada no dia 4 de fevereiro de 2015 pelo namorado, policial no Espírito Santo, aumentando o número de mortes por feminicídio no país. Ana Clara será sempre lembrada. Luiza Cabral, sua irmã e nossa companheira do coletivo Vacas Profanas, será sempre apoiada.

Uma vez uma amiga com quem eu costumava partilhar escritos me contou que um amigo dela havia morrido. O rapaz, na época, devia ter mais ou menos uns vinte anos e ela me escreveu um pequeno poema no qual constatava que seu querido companheiro não veria mais o tempo passar no próprio corpo e no mundo – pelo menos não nas circunstâncias da existência que nomeamos vida.

Aquela reflexão para mim foi de uma sabedoria atroz, a partir dali comecei a compreender o dado trágico da interrupção da vida como fundamental para a percepção de seu caráter transitório. O fim da vida é a morte, mas o fim da morte não é a vida, portanto não é possível afirmar que esses dois movimentos da natureza são simetricamente correspondentes, cada um tem sua personalidade simbólica para a interpretação humana e, embora muitas vezes sejam associadas de forma inversamente proporcional, o conceito de vida e morte encerram em si, com potencialidades distintas, universos complexos que ativam mitos, análises sócio-culturais e, sobretudo, a imaginação (afinal, o mistério das coisas é sempre uma provocação ao pensamento).

 

 

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Talvez a velhice seja a possibilidade de intersecção simbólica entre a vida e a morte, isso porque socialmente esse período do corpo humano é percebido como a transição, como o início visível (uma vez que desde a formação da primeira célula começam as etapas de amadurecimento biológico do corpo) do processo de encerramento da vida.

Há um quadro de Salvador Dalí datado de 1940 chamado As três idades, no qual vários rostos estão distribuídos pela tela como se formassem uma paisagem. O que configura suas expressões são montanhas, corpos, distâncias, movimentos também panorâmicos que, no jogo característico do Surrealismo, têm capacidade de ressignificar a imagem proposta. No rosto que provavelmente indica a idade da velhice, pode-se verificar uma expressão muito marcada pelo que seriam rugas desenhadas pelos galhos secos de três árvores que, aparentemente, estão tombando à beira de um abismo onde também jorra uma cachoeira. Esta, por sua vez, transformada na saia de uma mulher.

Essa mulher é o nariz do rosto da velhice, ela está com a cabeça voltada para baixo, como se fitasse o fundo do abismo e ao mesmo tempo estivesse mergulhada em um exercício de olhar para si, embrenhando-se nas matas do corpo de dentro. As imagens dentro dessa pintura são infinitas.

Não é nenhuma grande invenção o paralelo poético traçado na obra de Dalí entre as árvores e o envelhecimento. A própria relação física entre a textura de mãos muito vividas e do tronco de uma árvore já foi explorada na arte e nos discursos filosóficos. A resposta das folhagens às estações do ano é, por exemplo, referencial para que criemos significações da atividade do tempo em nossos corpos: quando jovens vivemos os turnos da primavera, ao nos aproximarmos do que se chama de velhice começamos a experienciar o outono. Nossas folhas – antes verdejantes e bem nutridas – ficam ressecadas, amarelecidas. Mais adiante, na chegada do inverno, essas mesmas folhas tornam ao chão, para dar lugar ao vazio dos galhos.

A diferença entre nós e as árvores nesse sistema associativo é o fato de entendermos que nossa existência não é cíclica como as estações e sim composta por uma ideológica linearidade social. O inverno, a metáfora ocidental da morte, seria o fim de nossa atividade no mundo, ao passo que na lógica das referidas estações o processo de renovação do mundo se dá em perspectiva continuada: a morte consolida-se como movimento iniciático e não como encerramento da vida.

Atuamos de acordo com nossos pressupostos culturais ocidentais, velamos nossos defuntos e compreendemos, cada um a partir de sua crença ou descrença, que a vida continua sem eles. Numa perspectiva de um sistema natural e talvez budista, a vida não continua, ela é – age por e sobre si mesma, com ou sem nossos entes queridos.

O fato de muitos já terem sido culturalmente silenciados antes da própria partida parece irrelevante em nossos ritos de ausência. Nesse sentido, a morte social das pessoas velhas não parece provocar alarde humano, esse processo em alguma medida faz parte de nossas práticas institucionalizadas de convivência.

Como se a operação se desse em uma trajetória inversa, as pessoas velhas são tornadas fantasmas antes mesmo de abandonarem o mundo material. São tratadas como um estorvo, os ambientes públicos e privados não estão organizados para a eventual e óbvia possibilidade de haver outra natureza de pessoas que não a produtiva. São escassas as problematizações políticas sobre esse assunto uma vez que se faz naturalizada a função descartável da velhice na sociedade.

Para complexificar essa análise, é profundamente necessário que se debata a pauta da mulher em processo de envelhescência dentro do quadro apresentado.

 

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As pernas marcadas pelos machucados do futebol de várzea, pelas árvores escaladas, pelas cercas de arame farpado vencidas, foram substituídas por planícies lisas e homogêneas cuja manutenção se dá através de métodos depilatórios, cremes hidratantes e meias finas. De outro modo, não haveria a credibilidade do ser mulher social e pela fuga da norma se paga um preço muito alto. Durante o período adulto, calculado pela Organização Mundial de Saúde dos 20 aos 59 anos, nós mulheres mantemos os modelos aderidos a partir da adolescência, quando nossos corpos começam a viver a transição da fase infantil para a puberdade (isso é, o momento de maturidade e apogeu do corpo humano feminino, do ponto de vista químico, biológico e social) seja pela manutenção de uma estrutura que se assemelha aos padrões de beleza e de estrutura física difundidos principalmente pelos canais da mídia, seja pelas inúmeras tentativas para alcançar esse ideal.

Dietas, cirurgias plásticas, métodos de clareamento (leia-se embranquecimento) da pele para alongar um pouco mais o período da juventude considerado pelos parâmetros sociais de beleza e bem-estar como aquele em que melhor lidamos com o tempo, com a saúde e com o entorno social. A natureza, no entanto, elemento esse que define nossos passos na vida e o processo de nossas experiências físicas e mentais do nascimento à hora da morte, é feita de lógica imbatível, não é possível vencê-la depois de um determinado momento da vida. O processo de envelhecimento (cujo início se daria aos 60 anos de idade, dado esse definido também pela Organização Mundial de Saúde) atrai uma série de estigmas e preconceitos que, como falado anteriormente, tornam o ser velho um apêndice social, objeto sem função posto que sua força produtiva é considerada desnecessária ao mundo do trabalho onde o lucro é gerado, esse perverso definidor do progresso econômico, social e cultural.

As pessoas velhas se cansam mais rápido, perdem massa corporal, tônus, equilíbrio e atenção. Seus órgãos são mais fracos e pouco a pouco param de funcionar completamente. À luz da perspectiva hegemônica de que todo cidadão desempenha uma função para o progresso social, as pessoas velhas basicamente não servem para nada.

Para as mulheres, esse panorama é acrescido pela cruel realidade machista, patriarcal, heteronormativa na qual habitamos e por isso mostra-se ainda mais devastador, nossa associação à ideia de coisa muito mais do que à ideia de sujeito nos confere um inelutável prazo de validade social pautado pela aparência e pela legitimação do olhar masculino.

Para a mulher idosa a relação com o cansaço e o morrer da própria estrutura corporal é dolorosa e corresponde a uma construção que nos é imposta desde a tenra idade. Diante do novo, da novidade fetichista transportada de geração em geração através da sexualização cada vez mais precoce do corpo feminino, só nos restaria emudecer e aceitar o futuro frustrado da mulher que nunca se pôde ser.

 

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No tratado sobre o envelhecimento intitulado A Velhice, Simone de Beauvoir discorre em certo ponto sobre a relação entre o processo de envelhescência, a punição e a misoginia. Para ilustrar sua análise, a autora nos fala de contos e fábulas nos quais a mulher velha é representada na cultura ocidental de um modo negativado para reiterar a ideia de decrepitude da velhice:

 

Nestes contos, a mulher velha – cuja feminilidade já a torna suspeita – é sempre um ser maléfico. Se alguma vez pratica o bem, é que, na verdade, seu corpo não passa de um disfarce – do qual se despoja, aparecendo como uma fada resplandecente de juventude e de beleza. As verdadeiras velhas são – como nos poetas latinos – fêmeas de ogros, feiticeiras malvadas e perigosas. (BEAUVOIR, p.168)

 

Como um aparelho celular que de tempos em tempos surge em nova versão, fazendo-nos abandonar os antigos modelos, prometendo-nos a glória do futuro próximo e distante. Como nos tornamos coisas ainda jovens e nossa função esteve o tempo todo baseada na realização do desejo masculino, sexualmente, esteticamente e socialmente, nos subtraem os significados já esvaziados que nos períodos da juventude nos atribuíram e assim ficamos: dessignificadas.

Mas diferentemente dos aparelhos, das coisas materiais, temos a possibilidade de nos reinventar a partir da aridez, nos tornar novamente humanas e, enfim, decidir quais as expressões possíveis do feminino. Por esse lado, a velhice é o estado mais fértil do corpo para que tornemo-nos aquilo que desejamos ser e não aquilo que sempre nos foi desejado.

Walter Benjamin no ensaio “O autor como produtor” tem uma sentença muito instigante sobre o conceito de vazio experiencial produzido pela violência humana. Para ele, diante da pobreza de sentidos é preciso criar:
“Barbárie? Sim. Respondemos afirmativamente para introduzir um conceito novo e positivo de barbárie. Pois o que resulta para o bárbaro dessa pobreza de experiência? Ela o impele a partir para frente, a começar de novo (…)”. (BENJAMIN, 122)

Talvez Benjamin estivesse pensando em uma perspectiva social pouco preocupada com as questões da mulher, mas ainda assim sua reflexão pode ser relacionada a uma consciência feminista para além da consciência de classe objetivada em seus postulados filosóficos.
Talvez estejamos falando aqui de desfunções, uma experiência cotidiana desatrelada de sequestros sociais, produtividade, mercantilização do feminino. Criar possibilidades, reinventar-se sem os grilhões do machismo.

Será essa a grande desfunção da envelhescência? Se sim, torna-se necessário não apenas o apelo subjetivo pela valorização desse processo dos corpos mas também estruturas básicas, culturais e políticas que respaldem essa busca/travessia.

Para que todas nós, futuramente e agora, possamos enxergar a morte como mais um passo, como algo que constitui nossa natureza e faz com que sejamos parte dela. Olhar para as memórias e devolvê-las sementes ao mundo. Plantar imensas árvores, fincar raízes. Ser bruxas – não as da carochinha, mas as que somos. Ser as raízes, sábias raízes, testemunhas do tempo. Tornar-se, de uma vez por todas, mulher. Deixar-se partir folha atravessada pelo vento. Um verdadeiro privilégio. O tempo em nossos corpos será a arquitetura da verdadeira beleza, a indescritível beleza da velhice.

 

 

 

 

 

Ilustrações: Paloma Franca Amorim

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Dayse Luna – 6 de abril de 2015 - 12:24

Belo ensaio!
O enfrentamento das transformações nas corporalidades apresenta-se como processos angustiantes para grande parte das mulheres. A plastificação dos corpos parece-me uma recusa ao ‘ostracismo’, além do desamparo diante da finitude.
A busca pela transcendência, a negação dos vincos e envergamentos inscritos na pele são elementos de falta de prestígio para muitas, estimulados pelas fabricação e modificações corporais da sociedade da descartabilidade.
Temática complexa e muito bem trabalhada no texto.
Grata pela reflexão!

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