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O corpo em revista

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No começo do século 20, as revistas femininas já queriam mandar no corpo da mulher. Por Arianne Rayis Lovo

Anúncio de A Cigarra, nº 269, janeiro de 1926

Anúncio de A Cigarra, janeiro de 1926

Folhear uma revista feminina destinada ao público feminino, hoje em dia, é uma atividade comum e recorrente. Mulheres “belas, magras e saudáveis” fulguram nas capas dessas revistas, nas quais o corpo feminino ganha um papel de destaque. Entretanto, nem sempre foi assim. No início do século 20, a imprensa feminina despontava no país atendendo às necessidades de uma burguesia emergente e, em especial, a um grupo específico de mulheres: a mulher branca e urbana. Assim, as revistas femininas daquele período contribuíam como uma forma de entretenimento a essa antiga oligarquia rural, sendo também um espaço tanto de publicação para as mulheres, como um lugar privilegiado de difusão dos discursos normativos e higienistas da época.

No Brasil, os primeiros periódicos femininos surgiram na primeira metade do século 19. O pioneiro foi o carioca Espelho Diamantino, de 1827. Daí por diante, os jornais e revistas destinados “às senhoras brasileiras” cresceram acentuadamente, como o Jornal de Variedades, de 1835, Espelho das Bellas, de 1841, A Marmota, de 1849, entre outros. Já no início do século 20, inúmeras revistas femininas começam a surgir. Revistas como A Cigarra, Vida Doméstica, Fon-Fon! e Revista Feminina passam a construir todo um ideário de comportamento, sexualidade e beleza a ser seguido, tendo como público-alvo a média e alta burguesia.

Durante o período da minha graduação em ciências sociais, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), desenvolvi uma pesquisa no Arquivo Público do Estado de São Paulo (Apesp) estudando algumas dessas revistas femininas. A ideia inicial era tentar compreender como a imagem do corpo feminino estava representada nos periódicos femininos do início do século 20 no Brasil. Sabendo que o corpo editorial dessas revistas era bastante heterogêneo, procurei analisar as diversas configurações dadas ao corpo da mulher buscando reconhecer os diferentes níveis de discursos, expressos nas falas de médicos, cientistas, mulheres intelectualizadas e artistas em geral.

Anúncio na Revista Feminina (nov./1918)

Anúncio da Revista Feminina, novembro de 1918

 

Ao longo da pesquisa, pude perceber que, embora os diferentes discursos pareçam contraditórios e postiços num primeiro momento, eles se assemelham na medida em que analisamos a transformação do corpo feminino como um movimento de mão dupla, em que o recato e a sedução se mesclam na criação da imagem do corpo da mulher desse período, evidenciando também as contradições e tensões da sociedade nessa época.

O surgimento da mulher urbana

Com a decadência do patriarcado rural, muitas famílias da elite se deslocaram do campo às cidades. Nesse cenário, as senhoras de engenho foram substituídas paulatinamente por um “tipo de mulher menos servil e mais mundano”, como aponta Gilberto Freyre. A mulher “gorda, prática e caseira”, resquícios da mulher da casa-grande, começava a perder espaço para a “mulher franzina, neurótica, sensual, religiosa, romântica” das grandes cidades.

Nesse novo cenário, a mulher passa a circular mais livremente pelas ruas, exibindo o seu corpo de uma forma inédita. Se antes seu espaço social estava restrito principalmente ao ambiente doméstico, e sair às ruas só lhe era permitido com a presença de uma figura familiar masculina, nesse momento, a mulher recompõe o espaço social apresentando um novo tipo de comportamento e movimento, em que seu corpo, por estar mais exposto, passava a receber uma nova pedagogia corporal.

Assim, o papel social da mulher encontra-se num processo de transformação, no qual os antigos valores tradicionais passam a coexistir com os princípios liberais da civilização moderna. A imagem da mulher ideal no início do século 20 é o produto de várias imagens contraditórias. Se, por um lado, exige-se dela um confinamento ao lar e submissão ao pai e ao marido, por outro, exige-se simultaneamente que a mulher realce a sua beleza a todo custo, que seja fascinante, misteriosa e até perversa.

De modo curioso, ao mesmo tempo em que algumas técnicas de normatização passam a operar sobre o corpo feminino, práticas de sedução vinham à tona com o intuito de oferecer às mulheres beleza e a garantia do “bom funcionamento”. No início do século 20, o corpo belo, jovem, saudável e sedutor torna-se atributo fundamental para a mulher integrar-se socialmente e conseguir se casar. Ao mesmo tempo em que a sociedade exigia dela uma rígida postura física e moral, conferia alto valor simbólico às práticas corporais que enalteciam a manutenção da beleza de partes altamente sensuais do seu corpo.

A famosa Pasta Russa. Anúncio de A Cigarra, setembro de 1917

A famosa Pasta Russa. Anúncio de A Cigarra, setembro de 1917

 

Ganha destaque nessa época um creme para dar volume e “formosura” aos seios. A famosa Pasta Russa, criada por um célebre médico e cientista russo, o Dr. Ricabal, enaltecia as potencialidades do cosmético na busca de um corpo belo e sedutor. No final dessa propaganda, se anuncia que “a Pasta Russa do Doutor Ricabal é um Produto de valor, atestado por grande número de Mulheres curadas” – nesse período, os produtos de beleza não diferenciam propriedades cosméticas e medicinais. A cura de um corpo feio e, portanto, enfermo, é realizada através de um medicamento cujas propriedades são tanto medicinais quanto cosméticas. Sendo assim, a beleza e a saúde são usadas como sinônimos nos discursos de médicos e higienistas. Não podemos esquecer também que nessa época, o médico torna-se o verdadeiro arauto da educação física, mental e moral da sociedade brasileira. Nessas revistas, ele surge como um interlocutor importante para as leitoras. É ele quem oferece dicas às mulheres sobre como manter o corpo sempre belo e saudável, reforçando valores morais e sociais.

A imprensa feminina cresceu vertiginosamente no início do século 20 e foi se tornando, aos poucos, objeto de estudo para compreender um pouco mais sobre o universo feminino. Entretanto, embora reforçasse o papel social da mulher como esposa-mãe-dona-de-casa e fosse um espaço de difusão de teorias higienistas, essas revistas conferiram voz às mulheres, dando às leitoras um espaço para divulgar seus poemas, publicar suas cartas e opinar sobre assuntos relacionados diretamente ao seu corpo, que fugiam da esfera mais restrita dos deveres do lar.

Mariângela Matarazzo, formada em medicina. Capa da Revista Feminina, janeiro de 1921

Mariângela Mattarazzo, diplomada em medicina. Capa da Revista Feminina, janeiro de 1921

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laura – 4 de junho de 2013 - 13:50

Cara autora, obrigada por seu esforco em fazer este artigo (desculpe a falta de acentos). Mas um paragrafo inicial que repete a palavra “feminino(a)” 5 vezes desanima ate o publico interessado.

Anelize – 1 de agosto de 2013 - 13:07

Oi Arianne,
bacana o estudo! vale lembrar também que muitas das colunas destas revistas eram assinadas com nome de mulheres quando na verdade, em sua maioria eram os homens quem escreviam! já dá pano pra manga, né?rs!

bacana a iniciativa da revista, parabéns!

Arianne – 1 de agosto de 2013 - 14:15

Olá Anelize, fico feliz que tenha gostado do texto e da revista! Pois é, como você aponta, muitas colunas eram escritas por homens mesmo. Na “Revista Feminina”, um dos colaboradores, o médico Claudio de Sousa, também escrevia usando o pseudônimo de Ana Rita Malheiros. Esses pseudônimos eram comuns em periódicos femininos, pois reforçavam os discursos normativos e higienistas da época. Ou seja, todo mundo queria mandar no corpo da mulher!

Beijos!

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