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O CÉRVIX DA QUESTÃO | A mulher e a imposição da beleza

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Ao contrário do que diz Vinicius, a beleza não é fundamental. E não nos define. Por Clara Lobo

“As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.” Inicio minha reflexão com essa frase familiar, aparentemente inofensiva e tão de acordo com a cultura dominante que não nos gera questionamento algum. No entanto, ela traduz um pensamento tão onipresente quanto nefasto: espera-se que a mulher tenha beleza, e que essa seja sua característica fundamental. Se é muito feia, como disse Vinicius, não preenche o requisito necessário para ser fêmea.

 

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Desde muito cedo, somos avaliadas, queridas, julgadas, desprezadas, amadas e odiadas por nossa aparência muito mais do que um homem. Somos levadas a inflar a importância da beleza em nossas vidas como se fosse algo natural. Somos levadas a achar que precisamos ser bonitas ou, pelo menos, sentir-nos bonitas. Acreditamos na centralidade da beleza para o bem da nossa autoestima e do amor-próprio.

 

Isso nos leva, primeiramente, a distorções de prioridades e a sentimentos de inadequação. Comecemos pelo óbvio: concursos de beleza. Neles, mulheres competem entre si, tendo de seguir um padrão de altura, magreza e proporções para serem consideradas belas. Tentar se adequar a esse tipo de padrão é a causa da crescente existência de distúrbios alimentares entre meninas adolescentes e a razão para que mulheres façam cirurgias plásticas em seus narizes, seios, barrigas, além de preencherem suas rugas e suas bocas com substâncias químicas.

 

Outro fácil exemplo é a profissão de modelo. Nela, a padronização e a objetificação são subprodutos quase intrínsecos ao ofício. Mas há modelos homens, vocês me dizem. Sim, os há. Embora haja modelos homens, pergunto-lhes: quantos garotos sonham em ser modelos quando crescerem? E quantas garotas? O problema aqui não está na profissão em si (que, como muitas outras, centra-se apenas em um aspecto do indivíduo), mas no valor que se agrega à autoestima, ao valor da mulher que a exerce. Para os meninos, a profissão de modelo é um ofício como tantos outros. Para as meninas, é algo a ser sonhado.

 

Em um vídeo que circulou mês passado na internet, Dustin Hoffman, falando sobre sua personagem em Tootsie, conta que teve uma epifania ao perceber que, durante toda a sua vida, sempre ignorou as mulheres que não considerava fisicamente atraentes. “Quando me vi como mulher na tela, fiquei chocado por não ser atraente. Achava que, como mulher, eu deveria ser a mais bonita possível.” Em outra parte da entrevista, ele completa: “Muitos homens, mesmo que não se achem atraentes, realmente sentem que têm de ter uma mulher linda como parceira. E eles não olharão uma segunda vez para uma mulher que não consideram bonita”.

 

Segundo David Wong, em artigo na revista Cracked: “Nos foi dito por cada filme, programa de TV e história em quadrinhos que já vimos que, se o herói alcança seu objetivo, ele é premiado com a sua mulher favorita – e a mulher não tem palavra no assunto. Como público, sabemos que, ao final, o herói ganhará a garota bonita”. Assim, ele explica, os meninos – que se sentem os heróis de suas próprias narrativas – crescem achando que o mundo lhes deve uma mulher bonita. Do mesmo jeito que se espera ganhar um troféu ao final de uma corrida.

 

Sabemos que a beleza é uma característica como outra qualquer e segue, como tantas outras características, um padrão, ainda que flexível. Sua centralidade na nossa visão sobre a mulher, no entanto, diz algo sobre nossa sociedade: diz que as mulheres importam muito mais como possíveis parceiras sexuais, como objetos de desejo, do que como os indivíduos complexos que são. Pensemos um pouco: se uma mulher diz ser ruim em ciências, nadar muito mal ou não saber cantar, poucas pessoas tentarão confortá-la. Mas se uma mulher diz: “Eu sou feia”, não há quem não queria dissuadi-la do sentimento.

 

No mundo inteiro vemos um desconforto feminino com a própria imagem: mulheres na Índia usam clareadores de pele, um quinto das sul-coreanas já fez cirurgia plástica. O Brasil perde apenas para os Estados Unidos em números totais de cirurgias. A ansiedade feminina em se adequar ao padrão de beleza dominante fez surgir diversas ações que visavam expandir esse estreito conceito de beleza às mulheres que estavam à margem dele. Vimos, então, a criação de concursos de beleza para gordas, negras, mulheres de meia-idade. Por mais que essas ações sejam benéficas para a autoestima das mulheres que não são brancas, magras e jovens, é de se pensar: por que não há concursos de beleza alternativos para homens? Por que não é vital para suas autoestimas que eles sejam considerados belos? Será que é porque eles reconhecem em si mesmos outras características que lhes dão valor, além da aparência?

 

Outro dia entrei no site Apartamento 302, onde mulheres “de verdade”, com todos os tipos de corpo, são fotografadas nuas, demonstrando o plural da beleza feminina. Ainda assim, as mulheres estavam sendo admiradas, analisadas e julgadas apenas por sua aparência. Onde estão os homens do Apartamento 302?, pergunto-me. Do outro lado da câmera: fotografando, observando, sendo os sujeitos em relação àqueles objetos.

 

Tudo isso seria bem menos importante se apenas os homens colocassem nossa aparência à frente de quem somos. Infelizmente, somos as primeiras a fazer isso. Internalizamos o que o mundo nos diz desde crianças e, apesar de termos um discurso libertário e igualitário, não conseguimos perceber a nossa auto-opressão. Tomemos a campanha da Dove “pela real beleza”, por exemplo. Muitas amigas compartilharam essa peça de publicidade, pois parecia, a princípio, algo incrível. Perguntemos: por que não se faz uma campanha pela real inteligência? Pela real habilidade esportiva? Pela real criatividade? Pelo real timing de comédia? Por que reforçar o pensamento de que, sem beleza (por mais que se amplie o padrão), a mulher pouco vale? Ainda que a intenção pareça – e só pareça – boa, esse tipo de campanha reforça o fato de que mulheres devem se valorizar antes de tudo pela aparência, não pelo todo, e, ainda que busque fugir ao estereótipo, é perniciosa, pois achata a nossa profundidade a apenas um aspecto.

 

A resposta à imposição de que o valor da mulher está relacionado à sua aparência não deve ser simplesmente “A minha aparência também é boa”. Deve ser: “Sim, sinto-me bem na minha pele, mas minha aparência não importa tanto. A aparência dela não importa tanto. É muito mais importante sermos mulheres interessantes do que sermos bonitas”. É o conjunto de nossas várias características – que pode englobar inteligência, talento, caráter e tantas outras coisas – que realmente nos importa.

 

Ao tirarmos a aparência desse lugar de importância, damos o primeiro passo para combatermos as expectativas sexistas e objetificantes da sociedade. E deixo claro aqui que não estou numa cruzada contra a beleza. Como todxs, acho a beleza uma coisa… linda. Mas, ao contrário do que diz Vinicius, ela não é fundamental. E não nos define.

 

 Leia outros textos de Clara Lobo e da coluna O Cérvix da Questão.

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Rosa – 5 de agosto de 2013 - 10:52

Belo texto Clara, me identifiquei de cara com muitos dos aspectos citados, acredito que o fato dessa auto opressão existir é porquê a mulher que é por tanto tempo um objeto,uma moeda de troca na sociedade tem precisado de amor próprio,de se descobrir também humana, todo esse trabalho de valorização que é distorcido para criar consumidoras cutuca na ferida dolorida mais antiga que é a de não nos sentirmos aceitas enquanto pessoas donas de nós mesmas, não mais escrava sexual e do lar. Daí isso de vender mulheres reais,de quererem explorar em fim o corpo político de uma mulher que expressa o que pensa e como age através de sua aparência.

Clara Lobo – 1 de outubro de 2013 - 17:49

Concordo contigo, Rosa.

claudio fernandes – 5 de agosto de 2013 - 12:01

Excelente texto. Vi o vídeo com o Dustin Hoffman, realmente forte e profundo. Na questão de gênero, o padrão dominante é um engano. Como diz o ator, “fomos enganados e somos enganados o tempo todo.” [A partir da conclusão de “O Sublime Objeto da Ideologia”, a comunicação criou um “duplo referencial” do ser feminino que incorporou o desejo do outro em seu próprio desejo a ponto de concentrar-se demasiado na aparência. Para o sublime da beleza, não há padrão, há encantamento. Mas o comércio (consumo) realmente trabalha forte para continuar a enganação.]

Clara Lobo – 6 de agosto de 2013 - 12:12

claudio, acredita que nunca li esse livro do zizek? e tenho na estante… obrigada por mencioná-lo aqui. certamente me ajudará em textos futuros.

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