Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Israel lava mais rosa

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Como a propaganda sionista sequestra a causa LGBTQ para dissimular suas violações de direitos humanos, a ocupação e o massacre do povo palestino. Por Gabriel Semerene, de Paris

 

Publicado em 01/08/2014

 

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No dia 11 de julho de 2014, quando o ataque militar israelense sobre Gaza – a chamada operação Margem Protetora – chegava ao seu quarto dia e à sua primeira centena de vítimas, o serviço de notícias Democracy Now organizou um debate entre o representante israelense Joshua Hartman e a acadêmica Noura Erakat.

 

Erakat condenou a ofensiva israelense e apontou para os problemas estruturais por trás dela. Enquanto isso, Joshua Hartman tentou justificar a operação com o argumento de que o Hamas, partido político que governa Gaza, “não permitiria que uma mulher jovem, liberal e laica” como Erakat expressasse suas opiniões. Hartman também defendeu que o Hamas não permitiria que gays “expressassem sua sexualidade livremente”.

 

 

Este tipo de mobilização de questões de gênero e de sexualidade para justificar crimes de guerra, a ocupação colonial e o massacre de populações civis está longe de ter brotado espontaneamente na mente de Hartman ao longo do debate. Pelo contrário, esta estratégia faz parte de uma política declarada da propaganda israelense denunciada sob o nome de pinkwashing.

 

Noura Erakat reage aos comentários racistas e sexistas de Joshua Hartman.

>> Noura Erakat reage aos comentários racistas e sexistas de Joshua Hartman.

 

Pinkwashing significa “lavar de rosa” a imagem de Israel. Essa lavagem, em linha com o mito autoproclamado de “única democracia do Oriente Médio”, retrata o país como um “paraíso LGBT”. Ela também tem a vantagem de reafirmar um imaginário orientalista, no qual todas sociedades árabes e/ou muçulmanas seriam retrógradas e tirânicas. Apesar do apartheid e da ocupação colonial promovidos por Israel, o pinkwashing permite ao país promover-se como um porto seguro LGBT em meio à barbárie, um bastião de valores liberais ocidentais num “oceano de tirania”.

 

No entanto, a ocupação colonial da Palestina e o apartheid implantado pelo Estado de Israel afetam igualmente pessoas LGBT palestinas, que não são um grupo social à parte. Têm familiares, amigxs e parceirxs discriminadxs, encarceradxs e assassinadxs por Israel, e são elas mesmas visadas pela ocupação.

 

 

Esquece-se que todas as sociedades são dinâmicas e complexas; que as relações de poder envolvendo gênero e sexualidade são também dinâmicas e complexas, e não podem de forma alguma servir de justificativa para a opressão de um povo.

 

 

 

Pink Money

Ainda assim, a propaganda israelense parece ser bastante eficaz entre pessoas LGBT, especialmente homens gays da Europa e da América do Norte. Tel Aviv é atualmente um dos maiores destinos turísticos gays do mundo: o pinkwashing traz o pink money. Durante este verão do hemisfério norte, enquanto o exército israelense bombardeia a população sitiada da faixa de Gaza (inclusive a população queer palestina, pois os mísseis não têm gaydar), milhares de turistas gays do mundo todo se divertem nas boates de Tel Aviv. Sob as caixas de som que reverberam o último hit de Lady Gaga, é impossível ouvir os gritos de agonia das crianças palestinas.

 

Propaganda do exército israelense: “O melhor exército do Oriente Médio não discrimina homens e mulheres homossexuais – Liberais de verdade amam Israel”

>> Propaganda do exército israelense: “O melhor exército do Oriente Médio não discrimina homens e mulheres homossexuais – Liberais de verdade amam Israel”

 

A opressão patriarcal e heteronormativa é, como em todas as sociedades contemporâneas, um fato concreto nas sociedades palestina e árabes em geral, ao que se acrescenta um quadro legal muitas vezes desfavorável. De fato, quando a Europa exportou o Estado-nação moderno para o Oriente Médio, exportou igualmente códigos civis que condenavam as relações entre pessoas de mesmo sexo. Se, nas ex-metrópoles coloniais europeias, as leis criminalizando relações homossexuais foram abolidas entre as décadas de 1970 e 1980, em países como o Líbano, a Síria e o Egito, os artigos sancionando práticas sexuais “contra a natureza” são uma herança colonial. Vale frisar que nos Territórios Palestinos, com a exceção de Gaza, as práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo foram legalizadas em 1951.

 

 

Entretanto – e apesar da propaganda israelense tentar convencer do contrário –, as pessoas não-heterossexuais e/ou não-conforme às normas de gênero palestinas não necessitam de intervenção externa (e certamente não daquela vinda de uma ocupação colonial) para organizar sua luta. Um exemplo é a associação alQaws (o arco-íris, em árabe), que articula a luta contra a ocupação e o apartheid com a luta contra a homofobia, que é vivida por palestinxs tanto do lado israelense quanto do lado palestino.

 

 

Haneen Maikey, militante da alQaws, denuncia categoricamente a política de pinkwashing do Estado de Israel. Em entrevista a International Viewpoint, ela afirmou que o país faz “uso cínico dos direitos gays relativamente progressistas em Israel para divergir a atenção internacional de suas violações dos direitos humanos e da ocupação”.

 

Diversos grupos militantes LGBTQ pelo mundo reagem ao ver sua luta cooptada a fim de acobertar violações de direitos humanos e a colonização. A associação Pinkwatching Israel é um movimento global de denúncia do pinkwashing e de combate queer contra os crimes do Estado israelense. O grupo Palestinian Queers for BDS defende a campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções como forma de pressionar Israel a adequar-se ao direito internacional. O BDS, que conta também com uma antena brasileira, é um movimento cada vez maior na Europa, América do Norte e até mesmo em Israel.

 

>> Grafite em Ramallah, Palestina: "Queers passaram por aqui"

>> Grafite em Ramallah, Palestina: “Queers passaram por aqui”

 

 

Há inúmeras formas de solidarizar-se com as lutas de pessoas LGBTQ na Palestina. É necessário, no entanto, ter consciência de que a solidariedade internacional não pode ser confundida com imperialismo, nem com a hierarquização de sociedades baseada num parâmetro supostamente “civilizacional”, como os direitos de pessoas LGBTQ. Cada sociedade tem suas próprias dinâmicas internas, e a solidariedade internacional LGBTQ só é legítima quando isso é levado em conta.

 

Sobretudo, é necessário lembrar que, numa situação onde o opressor e o oprimido são claramente definidos, devemos apoiar o oprimido. Dizer não ao massacre do povo palestino, não à ocupação da Palestina, não ao apartheid, não ao pinkwashing; boicotar, agir, manifestar. Porque a liberação das pessoas LGBTQ passa por todo tipo de descolonização.

 

>> Quem você gostaria de convidar para o seu casamento? ( ) Os vizinhos de Israel: No Irã, a homossexualidade é punível com morte. Não existe parada gay no Egito, Jordânia ou Gaza. A homossexualidade é ilegal na Síria. ( ) Israel: Casais do mesmo sexo podem adotar crianças, pessoas gays servem abertamente no serviço militar e no governo, mais de 10.000 pessoas participam da parada gay de Tel Aviv. <<

>> Quem você gostaria de convidar para o seu casamento?
( ) Os vizinhos de Israel: No Irã, a homossexualidade é punível com morte. Não existe parada gay no Egito, Jordânia ou Gaza. A homossexualidade é ilegal na Síria.
( ) Israel: Casais do mesmo sexo podem adotar crianças, pessoas gays servem abertamente no serviço militar e no governo, mais de 10.000 pessoas participam da parada gay de Tel Aviv. <<

 

 

Gabriel Semerene milita pela liberação do povo palestino e pela liberação de todxs das amarras do patriarcado, da heteronormatividade, do imperialismo e do colonialismo

Ilustração: Emilia Santos.

 

 

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Juvenal – 5 de agosto de 2014 - 19:15

Só faltou o autor mencionar que a Palestinian Queer Party organizada pelo próprio Al-Qaws acontece em Tel Aviv. Isso não me parece boicote.

Gabriel Semerene – 6 de agosto de 2014 - 7:17

Talvez simplesmente porque, apesar de todos os esforços de epuração étnica, palestinxs ainda são 20% da população nas fronteiras mesmas do Estado de Israel, e estes palestinxs com (sub)cidadania israelense também merecem ir a uma festa sem ser discriminados (numa cidade colonial criada às margens da cidade palestina de Yaffa)? Pode ter certeza que xs queers palestinxs morando nos territórios e em Jerusalém não foram à Palestinian Queer Party em Tel Aviv-Yaffa, porque elxs sequer têm acesso à cidade

Fernando – 7 de janeiro de 2016 - 2:04

Poucas vezes vi uma distorção tão escandalosa, tal concentração de mentiras e meias-verdades num espaço tão curto. Difícil imaginar um antissemitismo tão barato, tão indigente de raciocínio tão clichê…. Nada disso é fruto de simples desinformação: alguém paga para que se escreva esse lixo. Um nojo, simplesmente

marcosvisnadi – 7 de janeiro de 2016 - 17:27

A Geni não oferece nenhum tipo de pagamento para as pessoas que a fazem ou que colaboram com a revista. Além disso, todo texto publicado passa pelo crivo do coletivo editorial para assegurar que a gente não exerça nenhum tipo de discriminação. É do nosso entendimento que criticar a postura genocida de Israel não constitui antissemitismo. Abraço.

[…] Fontes: https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=1632813686982331&id=1495674880696213 e http://revistageni.org/08/israel-lava-mais-rosa/ […]

Antonio Carlos Garcia – 7 de janeiro de 2016 - 16:20

Essa politica de vitimização dos palestinos é uma besteira da esquerda esquizofrénica. Os palestinos dizem que vão destruir Israel mas querem viver lá, a autoridade Palestina estimula a politica do ódio que não vai levar a nada somente a mais mortes. Todo o dinheiro que o ocidente envia para ajudar os palestinos se transforma em armas e em contas na Suiça de seus dirigentes que vivem as custas do conflito. Os palestinos deveriam trabalhar, estudar e procurar ser alguém neste mundo e parar de chorar pelo leite derramado ha 67 anos atrás.
Até o estimulo ao turismo gay é visto como um ataque aos muçulmanos, coisa para rir.

[…] Como explica Gabriel Semerene em artigo de sua autoria intitulado “Israel lava mais rosa” (leia na íntegra em http://revistageni.org/08/israel-lava-mais-rosa/), o termo significa “lavar de rosa” a imagem de Israel. “Essa lavagem, em linha com o mito […]

[…] explica Gabriel Semerene em artigo de sua autoria intitulado “Israel lava mais rosa” , o termo significa “lavar de rosa” a imagem de […]

Julio – 10 de janeiro de 2016 - 18:07

“Ela também tem a vantagem de reafirmar um imaginário orientalista, no qual todas sociedades árabes e/ou muçulmanas seriam retrógradas e tirânicas.”

E quais seriam essas sociedades árabes e/ou muçulmanas que NÃO seriam retrógradas e tirânicas?

[…] explica Gabriel Semerene em artigo de sua autoria intitulado “Israel lava mais rosa” , o termo significa “lavar de rosa” a imagem de […]

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