Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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FARÓIS ACESOS | Piscando (de indignação)

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Vocês estão precisando é de um fistfucking no universo simbólico, para ver se os horizontes (e outras partes de vocês) se abrem um pouco. Por Neusa Sueli

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Deus estava lá, fazendo o ser humano, e salvou nos rascunhos. Aí veio o Demônio [<3] e publicou o post. Deu no que deu: a humanidade ungida na diarreia do Senhor. Que o ser humano não deu certo, a gente já sabe. Mas francamente: façam um banho de assento com bom senso e coloquem um supositório de noção, por favor.

 

1. Mágoa de Hebe: corredoras russas

 

[Um pedido: vamos todxs cantar para a Hebe subir, por favor. Provavelmente é a família do Maluf que fica fazendo sessão espírita chamando ela para este plano inferior. Entoemos “Nossa Senhora”, do Roberto Carlos, que, com fé, ela volta para o sofá divino – porque já deu.]

 

Que a situação está russa para nós da diversidade TLGB, vocês já sabem. Mas na Ruimssia está ainda pior (se não sabe, faz favor de ler a Geni, que já passou da hora de ser umx leitorx bem informadx). Francamente, esse povo tomou vodca radioativa. Está todo mundo louco da Perestroyka, gente! É muita unção, convenhamos.

 

No começo do mês de agosto, circulou pela imprensa internacional a foto de duas atletas – Kseniya Ryzhova e Yulia Gushchina, vencedoras da medalha de ouro no Mundial de Atletismo de Moscou – se beijando no pódio.

 

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Gente. GENTE. GENTE! Confesso que, quando vi a foto, fiquei excitada (risos tímidos) e bati palmas (risos culpados) para aquele gesto. Toda eriçada, até cogitei em ir para Meuscu conhecer as duas, dar uma aula de samba rock para elas.

 

Mas, quando eu estava achando que tinha encontrado os dois bojos do meu sutiã, pronta para abrir minha matrioshka, eis que as duas vão à imprensa #chateadas, xingando muito, porque o povo achava que elas estavam protestando contra a ementa que proíbe a “propaganda homossexual”, e não era esse o caso (pelo contrário, elas apoiam o governo russo).

 

O beijo das duas, segundo Ryzhova, “era só [de] felicidade, e não tinha nada a ver com direitos LGBT ou com os gays”. Até aí, tudo bem: perdi os bojos que completavam meu sutiã, mas existem muitos outros por aí, nem ligo, non c’è problema [sou estudada, falo línguas – eu e o Espírito Santo].

 

Mas o que fez meu útero dançar Macarena foi o fato de essas duas lambisgoias se defenderem dizendo asneira – e grave. Copia só, sociedade: “Se as pessoas querem escrever todo tipo de lixo [sic] sobre nós, elas deveriam saber que Yulia e eu somos casadas”.

 

[Pausa, para respirar fundo]

 

Vou tentar ser didática (li Paulo Freire).

 

Primeiro: “Grandes merdas” que vocês são casadas. Querem um abraço, uma palavra amiga?

 

Segundo: Desculpem, mas fui alfabetizada com noção e tenho dificuldade em compreender declarações imbecis. Devo entender por “lixo” o fato de a imprensa noticiar que vocês possivelmente fossem lésbicas, ou que aquele selinho seria um manifesto contra a ementa antipropaganda homossexual na Rússia? Em qualquer um dos casos, vocês continuam sendo estúpidas, sorry.

 

Terceiro: Não dá para injetar bom senso junto com os anabolizantes e esteroides? Vão ser pegas no antidoping?

 

Queridinhoskayas, LGBTs também casam, em vários países do mundo – aliás, elxs até são considerados seres humanos nesses lugares (PASMEM!). Se informem, suas antas! “Lixo” são essas suas declarações preconceituosas, sobretudo diante dos absurdos que estão acontecendo no seu país, suas monstras! Vocês duas podiam aproveitar que ganharam medalha de ouro no revezamento 4 x 100 metros para sair correndo atrás da noção que aparentemente perderam.

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2. Mágoa de Hebe Reloaded: Emerson Cheque

 

Nem tinha me recuperado ainda das russas e lá veio outro “escândalo”: Emerson Sheik, jogador de futebol (aka “macho pra caralho”) publica, em uma dessas redes antissociais, uma foto na qual ele dá um beijo (outro selinho) em seu amigo, o chef Isaac Azar.

 

Minha reação inicial foi de, novamente, bater palmas para atitude (risos – sou efusiva), sobretudo porque a torcida corintiana envergonhou umas cinco gerações com as declarações que deu, levando ao estádio do time faixas com os dizeres “Viado não” e “Vai beijar a P.Q.P., aqui é lugar de homem” [insira aqui sua cara de preguiça com a torcida do Corinthians].

 

Emerson, então, saiu por aí fazendo o open minded, dizendo “Fora preconceito!”. Mas, como noção é um artigo muito perecível, e mediante a reação dos corinthiânus, essa “iluminação” não durou nem um dia, e o apagão de bom senso voltou. Primeiro, Mr. Sheik solta um “Tem que ser homem pra caralho para fazer o que eu fiz”.

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[Pausa para tirar a calcinha do rego.]

 

Ah tá. Eu sou “mulher pra caralho”, e para perereca também (risos – sou múltipla, plural). E não acho que dar um beijo em uma pessoa do mesmo sexo seja tipo “a queda da Bastilha” ou a invenção do vibrador rabbit. Presta atenção nas asneiras que você diz, faz favor.

 

Não bastasse a primeira declaração infeliz, Mr. Kiss ainda nos brinda com essa pérola: “Lamento se ofendi a torcida do Corinthians, não foi a minha intenção. Foi só uma brincadeira com um amigo meu, até porque eu não sou são-paulino”.

 

Ah, minha gente, francamente! Esse cara mal deu uma bola dentro e já volta para o pântano do preconceito de novo. A gente da Geni até tinha gostado da atitude, mas estamos até agora aguardando as duas bolas dentro. Veja se para de falar bobagem, queridinho, e continua dando selinho nas amigues, meu caro: quanto mais tempo seus lábios permanecerem unidos, mais a humanidade agradece.

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A propósito, já que deu um selinho, estamos aguardando agora o beijo de língua (#xgiganteacordou).

 

 

3. Revista Capacho

 

Há quase dois anos, a revista Capricho – um periódico para adolescentes – publicou uma matéria intitulada “Garotos contam: quando a menina é para namorar, pegar ou largar”, na qual oito garotos (de 14 a 18 anos, todos brancos e de classe média, diga-se de passagem) discorriam sobre como eles viam e “classificavam” as meninas, se elas eram para “namorar, pegar ou largar” [sic]. Nesse último mês houve toda uma polêmica sobre essa matéria, que eu li, mas acho que poderia ter utilizado esse tempo precioso para outras coisas, como ter ficado mais tempo na aula de pompoarismo tântrico.

 

Entre relatos do tipo “a menina é para namorar quando ela não ficou com muitas pessoas” e “a garota ideal para namorar é aquela bem certinha, que tem um bom papo e que não dá bola para qualquer um”, todo um rosário de machismo e desrespeito à condição da mulher é desfiado nos depoimentos, e, o que é pior, por gente que nem maior de idade é ainda. Vou “pegar” é os cabelos da jornalista que teve a falta de noção de fazer esse tipo de pergunta, e vou é “largar” a minha mão na cara dela, isso sim.

 

Gente, eu sei que sou nervosa (estou tomando floral para ver se melhora), mas não consigo deixar de ficar furiosa quando leio este tipo de atrocidade. Copia só o olho da matéria, gente: “Eles também são exigentes e escolhem a dedo as meninas que valem um compromisso sério e as que não merecem mais que beijo. Em qual será que você se encaixa?”.

 

Como assim, “Em qual será que você se encaixa?”, gente. Será que essas múmias da Capricho (perdão, Tutankamon, não quis ofender!) não entendem que, ao fazer esse tipo de pergunta, dão a entender que as meninas têm que se subsumir (arrasei no léxico, admitam), se adequar ao que ELES (meninos hoje, homens amanhã) acham que ELAS têm que ser? Nossa, estou até com palpitação! Não me conformo! Essas antas têm que ler a coluna da Clara aqui na edição passada para entender o quão pernicioso esse tipo de comportamento é, o quanto ele deixa marcas nas mulheres.

 

Queridinhas, eu só encaixo quando cavalgo (risos abafados) – e encaixo gostoso, scusi. E, quanto aos relatos horrorosos, que dizem que menina legal é a que não fica com muitas pessoas, que não dá bola para qualquer um: Gente, é tudo mentira. Nossa, dar para qualquer um/a é uma delícia, pessoal! A gente aqui na Geni que o diga: passou, mexeu, jogou a franja, abanou o rabo, a gente pede o telefone.

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Eu, particularmente, não gosto muito desses caras que dizem que gostam das recatadas (“meninas para namorar”).

 

Primeiro porque eles nunca sabem onde fica o clitóris (“nunca vi nem comi, eu só ouço falar”, sabe?). Não sabem e, via de regra, não parecem muito dispostos a descobrir – caiam fora, meninas!

 

Segundo, porque, em geral, eles querem mandar na gente (acham que podem, foram criados achando que têm este direito).

 

Terceiro (e mais grave, na minha opinião), normalmente esse tipo de cara, quando cresce, gosta de “fazer amor” no escuro, segurando a mão da gente. Tem uns que, num determinado momento (assustador) põem uma trilha do Kenny G. ao fundo, olham fixamente nos nossos olhos e soltam um “Agora já somos um só”.

 

Gente, honestamente? Prefiro um ovo.

 

Minha gente, a vida é muito curta para vocês ficarem se limitando deste jeito. Vocês estão precisando é de um fistfucking no universo simbólico, para ver se os horizontes (e outras partes de vocês) se abrem um pouco. Quem sabe assim melhora?

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Iago Silva Aguiar – 10 de setembro de 2013 - 10:47

Nunca tinha me indignado e dado tanta risada ao mesmo tempo. Obrigado pela experiência.

Mari Fava – 11 de setembro de 2013 - 2:18

Esse texto é o melhor resumo dos fatos grotescos das últimas semanas. Ganhou meu amor <3

Cassia Conti – 12 de setembro de 2013 - 15:08

AH! Que alegria! Encontrei um dos bojos do meu sutiã!!
Tô igual o Iago!

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