Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Corpo de luta, espaço de resistência

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Uma leitura de O alegre canto da perdiz de Paulina Chiziane. Por Jacqueline Oliveira e Larissa Salvador de Mello

 

 

Há muito sabe-se que o corpo feminino é envolto por estigmas negativos e, de acordo com a lógica sexista e machista de alguns, é visto como um lugar funesto. Contudo, o que não é frequentemente colocado em discussão são os fatores que levaram a essa visão deturpada e negativa do corpo feminino, sobretudo em África, espaço extremamente atingido e sofrido com o processo de colonização. A influência exercida pela colonização é muito mais ampla do que se possa perceber, do ponto de vista social, político, econômico, cultural e antropológico. Procuramos observar a fala de mulheres negras que contam suas próprias histórias e, assim, observar as consequências da transfiguração étnica da mulher negra africana e da diáspora.

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A partir desses escritos, buscamos pensar sobre os efeitos negativos das ideologias e práticas empregadas durante o processo de colonização em África e como essas contribuíram para que mulheres negras africanas e da diáspora construíssem uma visão distinta acerca de seu corpo, com seus diferentes significados assumidos, nas diferentes visões africanas.

 

 

Dos efeitos da colonização

 

A partir do processo colonizatório é propagada toda uma lógica de imposição baseada na subserviência e coisificação do outro, justificada pelo pensamento de uma suposta raça superior. As diferenças fenotípicas foram usadas como alicerces para uma ideia de maior grau de evolução cultural e, principalmente, intelectual entre o colonizador e o povo colonizado.

Em um processo de colonização, a apropriação do corpo do colonizado como capital cultural é a maneira de o colonizador exercer toda a sua dominação. Nesse sentido vale observar não somente as mulheres, mas também os homens, na medida em que a morada de seu espírito passa a ser comercializada, traficada, recalcada para ser utilizada como força de trabalho. É através do corpo, então, que se dá toda a propagação de uma ideia de dominação e superioridade racial e intelectual baseadas basicamente na cor da pele.

Os efeitos dessa ideia de superioridade racial foram nefastos no que tange à identidade e autoestima do povo africano. Concentramos esta breve análise na mulher negra e como sofre com as desigualdades sociais e estereótipos criados acerca do negro de um modo geral.

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Durante todo o processo de ocupação e dominação, o corpo feminino foi tomado como um meio de execução de forças, em vários, e todos os sentidos. A mulher negra sempre esteve sob diversos estigmas e propensa à julgamentos por qualquer motivo, haja vista as convenções dos costumes tradicionais africanos nos quais está inserida. Sendo assim, o corpo da mulher negra é duplamente subjugado e assujeitado, isso ocorre não somente pela sua cor, mas também pelo seu gênero. A partir do processo de colonização, seu corpo é apropriado, sobretudo sexualmente, pois essa passa a ser, também, uma expressão de triunfo por parte do colonizador.

O processo de apropriação indiscriminada do corpo das mulheres negras causou efeitos sociais, antropológicos e, acima de tudo, psicológicos, extremamente graves na população feminina. A mulher passou a ter então outra visão sobre si, sobre seu próprio corpo. O corpo da mulher negra assume, ainda, nesse momento de distorção, distúrbio, uma dupla condição, pois ora ele é procurado pelo branco para descarga de suas vontades e realização de seus desejos – uma vez que o corpo da mulher negra assume grande significado de ardência e lascividade no imaginário europeu –, ora tomado pelo colonizador exclusivamente para o trabalho.

Como já dito, o corpo é a forma usada pelo colonizador para impor sua lógica execradora e subalternizante, uma vez que atinge níveis físicos e psicológicos, sendo essa, talvez, a consequência mais aterrorizante e degradante do sistema colonial. Com o decorrer de todo o processo de colonização e implantação/propagação do ideal europeu de brancura, a visão da mulher negra sobre seu corpo se transfigura. Ela passa agora rejeitar-se a fim de ser aceita e de tentar mudar um pouco sua história. Assim, a mulher negra se auto-apropria de seu corpo e o utiliza como um espaço de resistência. Este corpo passa a ser a única coisa sobre a qual euas detentores poderiam exercer algum tipo de poder, já que suas vidas e destinos estavam entregues ao futuro, sobre o qual não tinham nenhuma certeza ou previsão, apenas desejos.

É sobre esse corpo fissurado, marcado, configurado como um espaço de resistência, de luta, que a escritora moçambicana Paulina Chiziane, em O alegre canto da perdiz (2008), nos fala. Evidenciando as mazelas de uma sociedade que sofre as consequências da imposição colonialista e toda uma lógica paternalista, a escritora mostra toda a relação que as personagens estabelecem com seu corpo e próprio imaginário social. Na obra, podemos perceber já no início da narrativa como a visão das mulheres sobre seu corpo está subvertida, pois ele passa a ser associado aos mais terríveis significados. Com a colonização e a necessidade de resistência feminina negra, o corpo passa a ser claramente transformado também em mercadoria.

 

 

Uma leitura de O alegre canto da perdiz

 

No romance de Paulina Chiziane podemos perceber já no início da narrativa o prenúncio de que o cerne do enredo é o corpo feminino. E mais do que isso, como o olhar sobre ele está deturpado de acordo com a visão africana. Ao surgir nua se banhando em um rio na cidade de Gúruè, a personagem Maria das Dores é colocada sob o crivo cruel e depreciativo das mulheres que habitam o lugar. Como podemos observar na seguinte passagem:

 

A mulher nua olha para o horizonte. O horizonte é uma cortina de palmeiras. Vê uma mancha. É um enxame. De abelhas? Não, deve ser de vespas. Ou de galinhas tolinhas acossadas pela queda de um bago de milho do tecto do celeiro. Mas a mancha vai ganhando altura, forma e movimento dos fantasmas. Uma mancha que levanta uma nuvem de pó, como uma manada furiosa, pisando solo seco. Da mancha falante ela ouve sons demolidores como dragões subterrâneos a comandar temores de terra. Sons que lhe diziam coisas. Coisas que ela entendia. Outras que não entendia. Sente cheiro de leite. Ouve o choro de uma criança — ah, afinal é um bando de mulheres, zangadas. Não compreendia por que estavam ali. Não compreendia aquela procissão, nem aquela zanga. O que quereriam elas? Matá-la? (CHIZIANE,2008, p.4)

 

 

Como vemos nessa citação, o simples fato de Maria das Dores tomar banho nua causa extremo estranhamento e revolta nas mulheres residentes do local. É o fato que prova imediatamente como a visão sobre o corpo feminino está distorcida e como ela se encontra sob o invólucro do ideal de corpo do colonizador. Toda essa revolta e rejeição se traduz também nos mais terríveis significados, que passam a ser associados ao corpo de Maria. As mulheres enfurecidas passam então, a proferir terríveis sentenças sobre esse corpo desnudo, tais como: “mensageira do destino mau” ; “veste lá a tua roupa que a tua nudez mata e cega”.

Percebemos então, desde o início, os temas que permearão o romance e que mostrarão todo sofrimento causado pelo colonialismo. Sofrimento esse que se traduz na relação de poder e é centralizado no corpo das mulheres.

Além disso, o romance mostra também uma face cruel de um relacionamento cujo ideal é de cumplicidade e cuidado, que é a relação materna. Na história, Delfina, mãe de Maria das Dores, entrega a virgindade de sua filha a um feiticeiro em troca de ajuda para ganhar dinheiro. Neste instante visualizamos o único capital do qual as mulheres dispunham: seu corpo. E ele passa a ser usado como moeda de troca, como podemos perceber na seguinte passagem:

 

“Morre tudo naquele instante. A infância. A inocência. Apagam-se todas as estrelas em sinal de luto. O acto é violento, frio, com todos os requintes de um martírio. Maria das Dores estava a ser violada.” (CHIZIANE, 2008, p.256).

 

A figura materna aqui é colocada em questão de forma controversa, uma vez que a sua imagem mais difundida é de proteção extrema e infindável.

Como rapidamente abordado, o corpo feminino passa a ser usado como um meio de resistência. Contudo, essa resistência assume diversos significados. A forma encontrada pelas mulheres contadas por Chiziane é usar esse corpo como degrau para um triunfo social. Triunfo esse traduzido como uma relação com um homem branco, pois pertencer ao mundo dos brancos é um estado de glória para quem foi execrada a vida toda e jamais imaginaria alcançar os confortos oferecidos por esse mundo quase inatingível. Tal situação pode ser observada no seguinte trecho : “Sou a primeira negra a viver na cidade alta, ao lado dos brancos.” (CHIZIANE,2008,p.223).

Essa é mais uma das formas de reverter a seu favor a opressão sofrida durante toda a vida pelo fato de ser negra. Essa atitude de ascensão social através do contrato sexual com o homem branco, pelo próprio corpo, pode ser traduzida também como uma forma de autoafirmação. Não somente a conquista de outros estratos sociais, mas também as outras formas de resistência onde mulheres utilizam seu corpo podem ser entendidas – também – como uma forma de mostrarem ao colonizador que, embora a determinação deles seja outra, elas conseguem, sim, chegar onde querem.

 

 

Corpo marcado

 

Após a leitura da obra e de textos teóricos para apoiar nossa análise, compreendemos a densidade das linhas escritas por Paulina Chiziane. Ao narrar a história de mulheres ela consegue trazer para o livro a história de toda uma sociedade maculada pelos duros golpes colonialistas. O sistema opressor deixou marcas difíceis de serem apagadas, que se espalharam por toda a diáspora e que perduram até hoje. Na obra, percebemos como também as relações familiares, interpessoais e, acima de tudo, intrapessoais foram prejudicadas.

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Chiziane nos mostra um diálogo da relação distorcida da mulher com seu corpo curvilíneo e a terra invadida indiscriminadamente. Terra essa fértil que, também representada pela cabaça de acordo com a concepção africana, é guardiã da vida, é sinônimo de vida e pureza; mas que sofre e é despedaçada, rejeitada e subjugada assim como o corpo da mulher negra.

 

 

 

Bibliografia:

 

MATTA, Inocência. Mulheres de África no espaço da escrita: a inscrição da mulher na sua diferença. In: A Mulher em África: vozes de uma margem sempre presente. Lisboa, Edições Colibri/Centro de Estudos Africanos- FLUL, 2006. Pp.421-440
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Rio de Janeiro: Editora Fator, 1983.
SHMIDT,Simone Pereira. Corpo e Terra em O Alegre Canto da Perdiz. In: Paulina Chiziane: Vozes e Rostos Femininos de Moçambique. Rio de Janeiro, Editora Appris, 2013.

 

 

 

 

 

 

Jacqueline Oliveira é pesquisadora em Literaturas Africanas pela UFRJ, estudante de Ciências Sociais pela UERJ, poetisa, educadora social e militante da Capoeira Angola pelo Centro de Cultura Popular Ypiranga de Pastinha (Maré).
Larissa Salvador de Mello é pesquisadora em Literaturas Africanas pela UFRJ e estudante de Letras/ Literaturas da mesma instituição.

 

 

Ilustração: Bruno O

 

 

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Corpo de luta, espaço de resistência - Geledés – 17 de novembro de 2014 - 12:06

[…] Foto:Renata Felinto , no Revista Geni  […]

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