Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Preta, sapatão e profundamente perigosa

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Sabemos o que é gozar e não aceitaremos um mundo menos pleno do que isso. Por Pollyanna Marques Vaz

 

(…)

Porque preta, não existe sensação no mundo como o deslizar das suas tranças na minha pele

Preta

Como as carícias entre as tranças

Preta

Como retirar com cuidado as flores de seus cabelos

Preta

Como nos cobrir com seus lenços

Preta

Como enroscar nas suas contas e colares

Preta

Como acariciar a parte da cabeça raspada

Preta

Como me enroscar em vocês

Preta

Fio entrelaçado no pano colorido da existência das mulheres negras

Preta

Também quero ser parte de seu tecido colorido.

(Também quero ser parte do tecido coloridos de vocês)

(“Preta”, Pollyanna Marques)

 

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Mulheres (todos as possibilidades de mulheres) que sentem prazer são profundamente perigosas. Mulheres que sentem prazer umas com as outras, com seus múltiplos e variados corpos, formatos e cheiros, são profundamente revolucionárias. Mulheres pretas orgulhosas de sua cor, do formato dos seus lábios e das texturas de seu criativo cabelo, que sentem prazer com outras múltiplas e variadas mulheres, são profundamente perigosas, revolucionárias e visíveis.

 

Ser visível, nomear a nós mesmas e a nossos desejos e prazeres, é essencial para uma existência que ultrapasse a sobrevivência, aquela tradicionalmente atribuída às mulheres negras. É também fundamental para a junção de forças que, com outras maneiras e formas de vivenciar plenamente o mundo, resistem, desconstroem e transformam as forças conservadoras e monolíticas que alimentam o sexismo, o racismo, a homofobia, e que perpetuam somente uma visão do mundo que suprime qualquer potencial criativo de nossas diferença.

 

Há três décadas, a poeta, guerreira, negra e sapa Audre Lorde, em seu texto Usos do erótico: o erótico como poder (que, junto com outro texto, “A transformação do silêncio em linguagem e ação”, que aborda a face assustadora e revolucionária da visibilidade através da fala, integram Sister Outsider, livro de Audre Lorde que é referencia na produção e reflexão da interseccionalidade entre raça, gênero e orientação sexual), trouxe de maneira linda e arrebatadora a discussão do erótico, do prazer, como fonte de poder. Como fonte de saber criativo, de cognição, de conhecimento e de combustível para viver e lutar. É possibilidade. Através do erótico e do prazer podemos sentir e entender o quanto podemos ser grandes, o quão profundamente podemos sentir prazer. Consequentemente, passaremos a procurar nas outras esferas, em cada atividade da vida, aquilo que nos faz sentir tão grandes quanto sabemos que podemos ser. Descobrir e exercer essa capacidade na escrita, na fala e nas ações é profundamente perturbador da ordem. Talvez nada assuste mais do que uma preta, uma sapatão preta que tenha consciência de tudo que pode ser e causar. Do quanto pode abalar e do quanto pode ser absolutamente plena. Talvez nada assuste mais do que a visibilidade.

 

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Eu sou preta, sapatão, tenho 1,58 metro, uso 46 e moro na região noroeste de Goiânia. Muitas vezes ainda não me vejo no discurso (e nas ações) feminista, mesmo no feminismo negro. Muitas vezes ainda não me vejo no discurso (e nas ações) de igualdade racial. Muitas vezes ainda não me vejo no discurso (e nas ações) do movimento LGBT. Este local de incômodo há muito vem sendo expresso por várias escritoras, teóricas e militantes que estão nele. A visibilidade múltipla e interseccional ainda está em construção. Ela se alimenta dos valores, expressões, conhecimentos, nomes, formas, cores e estratégias compartilhadas pela população negra, pelas mulheres negras, pelas mulheres lésbicas ao longo da história. É um processo permanente, porque não se pretende monolítico e se constrói de maneira tão variada como podem ser as pessoas.

 

Essa visibilidade diversa e variada que aumenta as possibilidades de ser, de se expressar, de viver, de tocar em tudo com prazer se traduz em uma ampla gama de experiências, afirmações, estratégias de sobrevivência e de vivência das mulheres negras. Como o maravilhoso trabalho da autodenominada ativista visual Zanele Muholi, fotógrafa sul africana que procura através de seu trabalho o empoderamento de mulheres negras lésbicas, em uma infinidade de formas individuais e coletivas. O trabalho de Zanele Muholi faz vibrar em nós essa capacidade de prazer.

 

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Faz vibrar também profundamente ler nas crônicas de Cidinha da Silva, prosadora, a mulher Iansã que desce pela ladeira sob o olhar atento e intencionado de outras:

 

A gata também tinha torcida feminina. Não pensem que só os meninos notavam sua exuberância. “É de Iansã!” Dizia uma admiradora ao entrar no carro, saindo de uma joalheria na rua de cima. “Como você sabe?” Pergunta a amiga já dentro do veículo, no banco de trás. “É de Iabá! Não tenho dúvidas. Não é de Iemanjá, de Nanã, nem de Obá. Se fosse de Oxum teria mais dois dedos de saia”. “Olha que pode ser de Euá, viu?” Comenta a segunda amiga, que conhecendo a motorista, acha por bem aboletar-se no banco da carona.

“Pode ser!” A entusiasta conclui, deslocando o freio de mão e preparando-se para descer a ladeira, bem devagar. No ritmo dos passos da diva. “Pode ser, mas o Xangô que mora em mim, avisa que ela é de Iansã.” “Hunf! Que Xangô é esse que nunca veio, nunca vi?” Pergunta uma das amigas. “Ousada desse jeito só pode ser de Iansã”, ela insiste. (Cidinha da Silva, Baú de miudezas, sol e chuva, 2014)

 

E a maneira perfeita de descrever o azul para conquistar a amada:

 

E o ceguinho trovador, será que me ajudaria? O que faria para encantá-la? Ele me disse que descreveria o azul. Desentendi. Como seria isso, se ele nunca viu o azul? Ali morava o segredo. O desconhecido você imagina e molda, a seu gosto. Aceitei o conselho e perguntei a ela o que era o azul. Antes de a incauta desmanchar a interrogação do rosto, dei uma chave de pescoço naquele coração relutante. Expliquei que o azul é a cor da voz de Milton Nascimento cantando Dolores Duran no ouvido, sob a lua cheia, perfumada por uma dama da noite. Não deu outra. Ela quis conhecer o azul. (Cidinha da Silva, Oh, margem! Reinventa os rios!, 2011)

 

Topar, num belo dia de 2013, com a escrita de timeline de Alessandra, grande amiga, dizendo: “Apaixone-se por uma vadia.(…) Deleite-se no caminho que lhes couber na jornada delas, elas são confiáveis, pq não zelam por uma imagem na sociedade e sim pelo respeito ao que são. Enrabichar por uma vadia é um ato de coragem (…) Sabe aqueles olhos profundos como o oceano, q vc quase pode pegar a confiança, fuja delas…” – isso faz vibrar, faz existir.

 

Construir nossas (novas) imagens afirmando a existência, o prazer, a vivência e construção conjuntas, o questionamento de uma maneira única de construir relacionamentos afetivos e sexuais faz vibrar, consolida nossa capacidade de viver e expressar prazer, de sermos sujeitos e de alterarmos coletivamente a ficção do mundo monolítico.

 

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Esse saber erótico, esse tocar com prazer a vida, individual e coletivamente, nos traz ainda a possibilidade de ampliar nossa relação com as outras diferenças, outras lutas.  Audre coloca que “Existe diferença entre pintar uma cerca no quintal e escrever um poema, mas só uma de quantidade. E não há, para mim, diferença alguma entre escrever um bom poema e me mover à luz do sol contra o corpo de uma mulher que eu amo” (1984). Podemos estender essa ideia e encarar que somente em quantidade será diferente o quanto luto pelas causas que me definem, e o quanto luto pela reforma agrária, pela preservação da natureza ou pela autonomia de outros povos.

 

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Nós mulheres pretas lésbicas, e outras, outros e outrxs também, sabemos o que é gozar e não aceitaremos um mundo ou uma vida menos plena do que isso.

 

 

Grande abraço

 


Pollyanna Marques Vaz é preta, sapatão, estudante de letras e escreve às vezes.
Ilustrações: Gunther Ishiyama.

 

Bibliografia

 

Riese. (19 de setembro de 2012). Epic Gallery: 150 Years Of Lesbians And Other Lady-Loving-Ladies. Acesso em 24 de outubro de 2014, disponível em AUTOSTRADDLE: http://www.autostraddle.com/150-years-of-lesbians-144337/

Silva, Cidinha d. (2011). Oh,margem! Reinventa os rios! São Paulo: Selo do Povo.

Silva, Cidinha d. (2014). Baú de miudezas, sol e chuva. Mazza Edições.

 

Para saber mais um pouco:

Audre Lorde – http://radicaldesdelaraiz.blogspot.com.br/2008/08/transformao-do-silncio-em-linguagem-e_20.html

http://incandescencia.org/2013/07/01/traducao-carta-a-mary-daly-%E2%80%92%E2%80%8A-audre-lorde/

http://we.riseup.net/assets/171382/AUDRE%20LORDE%20COLETANEA-bklt.pdf

Zanele Muholi – http://www.afreaka.com.br/o-ativismo-gay-de-zanele-muholi/

Blog Cidinha da Silva – http://cidinhadasilva.blogspot.com.br/

 

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Eu – 5 de março de 2015 - 14:51

chato pra caralho

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