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Corações queimados

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Uma conversa sobre a homofobia na Rússia com o jornalista Sandro Fernandes, que vive há quatro anos em Moscou. Por Cecilia Rosas

Conheci o Sandro Fernandes em 2010, em Moscou. Ele estava lá há pouco mais de um ano. Na época, já se sentiam os efeitos dessa escalada conservadora e nacionalista em curso na Rússia, e o tema era bem frequente nas nossas conversas. Era um choque para nós dois perceber que a vida da comunidade LGBT parecia isolada do resto da sociedade – tinha-se a impressão de que o tema estava fora do radar das pessoas de um modo geral. E isso porque nossa observação estava restrita a Moscou; em cidades menores, sem dúvida, era bem pior.

 

Não é de hoje que a sociedade russa é homofóbica, e a questão das minorias é bastante complicada por lá: acho que é possível dizer que o discurso da tolerância às vezes não circula mesmo pelo repertório social básico. Mas, se antes o estado de coisas podia passar, cotidianamente, por um grande don’t ask, don’t tell, nos últimos anos isso mudou muito.

 

A homofobia antes ficava mais ou menos abafada no meio da intolerância generalizada, mais difusa. Agora, se assumiu como uma perseguição específica e acirrada, e começou a se institucionalizar. Leis recentes vêm banindo da esfera pública qualquer expressão de orientações sexuais minoritárias; o governo e a mídia estão aproveitando o clima nacionalista para usar a causa LGBT como símbolo dos malefícios da influência estrangeira. A antiga invisibilidade já começa a parecer um privilégio em comparação com as perseguições recentes.

 

Agora o Sandro mora lá há quatro anos e, sem dúvida, já tem um olhar bastante profundo sobre a questão no país. Nós dois resolvemos então conversar sobre isto: como é ser gay em Moscou hoje?

 

rússia

 

A discussão sobre os direitos da comunidade LGBT na Rússia tomou essas proporções há pouquíssimo tempo: uns anos atrás simplesmente não se ouvia falar sobre o assunto. Você teve algum estranhamento quando chegou aí?

 

Nesses quatro anos notei uma grande mudança de percepção da comunidade LGBT entre os russos.

 

Há quatro anos, o tema praticamente não existia. O grande problema então era a invisibilidade. Por ser um tema tabu, a maioria das pessoas preferia esconder quando a sua sexualidade não estava dentro dos padrões socialmente esperados.

 

Assim que cheguei a Moscou, comecei a sair com um moscovita e, na minha cabeça, era óbvio que éramos um casal de namorados. Apesar de ser meu vizinho, ele dormia em casa com muita frequência e sempre viajávamos juntos. Eu achava que a nossa relação era algo óbvio para todos, mas qual não foi a minha surpresa quando ele me disse que os pais não sabiam que ele era gay, e muito menos que eu era seu namorado! Achei que fosse algum problema de gerações. Ledo engano. Resolvi contar ao meu companheiro de apartamento – moscovita, jovem, instruído e viajado – que eu já não estava solteiro. “Ah, que legal! Qual é o nome dela?” “Mikhail.” Silêncio no quarto e perguntas curiosas. Eu não precisava sair do armário havia anos, e a experiência lembrou a minha adolescência. Por sorte, meu companheiro de apartamento foi muito respeitoso e somos amigos até hoje.

 

A gente sabe que, de uns anos para cá, a situação vem piorando de uma forma bem preocupante. Você vê uma mudança de atitude em relação a isso?

 

A polícia não está perseguindo gays oficialmente pelas ruas (a homossexualidade não é crime desde 1993 por aqui), mas a recente guinada da percepção russa a respeito da comunidade LGBT é palpável. A invisibilidade de 2010 se transformou em uma perigosa superexposição midiática do homossexualismo (sim, com o prefixo “ismo”, já que é assim que se trata o tema na Rússia). Os programas de televisão falam o tempo todo sobre o assunto e a discussão tomou as ruas desde que foi aprovada uma lei federal que proíbe a “propaganda de orientação sexual não tradicional” a menores de idade, em 11 de junho deste ano (leis regionais já estavam em vigor desde 2006).

 

Qual é a lógica política para essas leis recentes?

 

Muitos analistas apontam que essas leis são uma guinada conservadora do Kremlin (sede do governo russo) para obter apoio das classes média-baixa e baixa (já que Putin “perdeu” a classe média-alta urbana). A lei soa como uma provocação, uma maneira de ser anti-Ocidente, e esse discurso (ainda) vende muito bem na Rússia.

 

Que formas o debate público está assumindo?

 

O problema é que, de repente, um assunto que era de âmbito privado passou a ser assunto público. Mas tudo sem debate. E a televisão russa apenas ratifica os preconceitos e a desinformação. Na Rússia, três canais cobrem todo o território do país, e esses três canais são ou estatais ou controlados por uma empresa estatal. Ou seja, difunde-se o ponto de vista governista de ponta a ponta.

 

Recentemente, um apresentador de TV de um desses canais (Dmitry Kiselev, do Canal Rossia 1) disse que deveriam queimar os corações dos gays quando estes morressem para que não ficasse nenhum vestígio de sua passagem pelo planeta. Por mais que eu entenda que homofobia no Brasil não é assunto do passado, bem, não consigo imaginar alguém dizendo isso no Brasil sem receber uma avalanche de críticas. Na Rússia, depois dessa declaração, o apresentador foi aplaudido pela plateia: “Eu acho que impor multas aos gays por propaganda homossexual para menores não é suficiente. Eles deveriam ser proibidos de doar sangue, esperma. E seus corações, em caso de acidente de automóvel, deveriam ser enterrados no solo ou queimados, como inadequados para a continuação da vida”.

 

E claro que não para por aí. Em junho, um deputado russo disse que os gays deveriam ser chicoteados em praça pública. E, no mês passado (novembro), um famoso apresentador de TV disse que o meteorito que caiu na Rússia em fevereiro deste ano é apenas um alerta e está relacionado ao aumento do ativismo gay no país.

 

Tudo isso soa quase engraçado de tão absurdo que é.

 

Você acha que essa escalada de preconceito oficial e midiático teve algum efeito sobre a intolerância no resto da sociedade?

 

É possível avaliar o que os russos pensam disso tudo pelos números.

 

De acordo com uma pesquisa realizada em junho pelo centro estatal de opinião pública VTsIOM, 88% dos russos apoiam a lei antipropaganda gay do país. O casamento entre pessoas do mesmo sexo também não é bem-visto na Rússia, com 85% da população contra, segundo pesquisa divulgada em março pelo instituto Levada. As paradas do orgulho gay são reprovadas por 87% dos russos, segundo a mesma pesquisa, que revelou ainda que 16% dos entrevistados acreditam que os homossexuais devem ser isolados da sociedade; 22% dizem que o tratamento da homossexualidade deve ser obrigatório; e 5% pensam que os gays devem ser “exterminados”.

 

Uma outra pesquisa do instituto Levada indica que 37% dos russos acreditam que as relações entre pessoas do mesmo sexo resultam de “doença ou trauma psicológico”, enquanto 43% acham que é um “mau hábito”. Apenas 7% dos russos estão “definitivamente a favor” de que os gays tenham os mesmos direitos do restante da população.

 

De acordo com uma nova pesquisa que examina a identidade nacional russa, divulgada semana passada pelo centro VTsIOM, 51% dos entrevistados não gostariam “sob quaisquer circunstâncias” de ter um homossexual como vizinho ou colega de trabalho.

 

Com esses dados, fica claro que as recentes leis antipropaganda gay da Rússia apenas incitam toda essa intolerância latente na sociedade. Em Moscou, em São Petersburgo e em outras grandes cidades russas, encontramos grupos/jornais de oposição e ativistas que apoiam a causa LGBT, mas sempre de maneira tímida (sob o risco de ser agredidos – mesmo em Moscou). Como eu vivo numa espécie de bolha tolerante, não sofro diretamente esses preconceitos, mas, para sentar em um café e entrevistar um neonazi que diz que os gays devem ser exterminados da sociedade, bem, realmente é preciso ter estômago.

 

Dá para sentir os efeitos dessa visibilidade recente no resto do país, ou a discussão acontece mais nas cidades grandes, como Moscou e São Petersburgo?

 

Não, de repente, parece que todo o país está obcecado com o tema LGBT. Este ano, tive a oportunidade de atravessar a Rússia de trem, até Vladivostok, fazendo a famosa Transiberiana. E o assunto foi levantado por passageiros inúmeras vezes, sempre com apoio à medida russa e com críticas à “perigosa tolerância ocidental”. Em maio, estive em Sotchi, cidade do sul da Rússia que receberá as Olimpíadas de Inverno em fevereiro do ano que vem. Também lá, tive que ouvir comentários homofóbicos. Entrei em um táxi com um amigo francês e o taxista foi direto ao ponto, sem rodeios: “Não gosto do seu presidente [François Hollande]. Ele aprovou o casamento entre pederastas. Na Rússia não temos isso. Por isso apoio Putin”. A minha viagem a Sotchi tinha sido logo depois da aprovação do casamento igualitário na França. Estive no Daguestão e na Chechênia em outubro, e até mesmo no Cáucaso as pessoas trouxeram o tema à tona.

 

E na sua vida pessoal, como você e o seu parceiro enfrentam isso?

 

Estou há três anos com um russo (Dima) e a família dele não sabe que ele é gay. O pai é um médico militar, a mãe, uma fonoaudióloga fiel à Igreja Ortodoxa Russa, e, apesar de morarmos juntos há tanto tempo (somente os dois) e de viajarmos juntos todos os meses, eles acham que somos amigos. Eu fico bastante envergonhado em ter que estar dentro do armário na Rússia, já que me sinto dando um passo para trás, mas sei que aqui, para evitar maiores problemas, talvez seja melhor. Meu namorado não quer ser ativista e, de certa maneira, entendo o lado dele. Na maioria das vezes, as pessoas só querem viver tranquilamente, amar e ser amadas. É uma pena que tenhamos que lutar para ser respeitados e ter direitos garantidos. Sobre a família do Dima, bem, no ano passado o pai dele lhe perguntou se eu era gay. Dima disse que não sabia. Este ano, o pai foi mais direto e perguntou se não havia nenhum “problema” com ele. A mãe rapidamente interrompeu a conversa e disse que tinha certeza de que Dima é “natural” (palavra russa para heterossexual).

 

Como você vê a cobertura da mídia ocidental em relação à questão?

 

Entendo que a mídia ocidental goste de sensacionalismo, principalmente quando se fala sobre a Rússia. E isso deve ser criticado. Mas ignorar a escalada da homofobia na Rússia também não é o caminho. A obsessão com o tema LGBT está sendo incitada pelas leis draconianas aprovadas neste último ano aqui na Rússia, e o sentimento de intolerância na sociedade cresceu de uma maneira exponencial (cresceu ou passou a ser declarado).

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Ilustração: Paloma Franca Amorim.

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