Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

editorial

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Com quantos golpes se faz uma democracia?

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Para conhecer o passado, precisamos cavar fundo e perigosamente nos vestígios do presente

Este mês, completam-se 50 anos do golpe civil-militar de 1964. O ato instaurou uma ditadura que duraria, oficialmente, até 1985, ano em que a presidência enfim volta a ser exercida por um civil – eleito por voto indireto. A data é comemorada por saudosos de insolentes glórias militares pessoais como “a Revolução que salvou o Brasil do comunismo”.

 

Para conhecer o passado, precisamos cavar fundo e perigosamente nos vestígios do presente, que é o que temos nas mãos. A antiga retórica anticomunista, um dos principais argumentos para o golpe dos anos 1960, continua presente, ainda que ocupe um outro lugar no debate político. Em 2014, meio século depois, uma reedição da Marcha da Família com Deus (contra a sua Liberdade) convocou pouca gente e gerou muito repúdio. Pedro Pepa Silva tentou passar despercebido no evento de São Paulo, que relatou para a Geni. Nosso bravo cronista lembra também o livro Assim marcha a família, de 1965, que reuniu flagrantes “algo ingênuos e até conservadores” do submundo carioca pós-golpe.

 

Este mês, entrevistamos Amelinha Teles, ex-presa política e uma das fundadoras do primeiro jornal feminista do país, o Brasil Mulher. Em artigo, a historiadora Isabel Cristina Leite traz depoimentos de militantes para reconstruir a história de mulheres que pegaram em armas contra o regime autoritário.

 

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Homenagem de Gui Mohallem a Claudia da Silva Ferreira, que integra o projeto artístico 100 Vezes Claudia, do ThinkOlga

 

Ainda dentro do especial sobre os 50 anos do golpe civil-militar, Renan Honório Quintalha escreve sobre como LGBTs foram alvo privilegiado da ditadura brasileira e são parte fundamental da reinvenção democrática. Seus argumentos nascem de sua experiência de pesquisa e trabalho com a Comissão da Verdade. O artigo é complementado por uma resenha que nos situa na investigação de Renan, escrita Edson Teles, o mais jovem preso político brasileiro, detido com sua família na época da ditadura.

 

Para entender o papel dos partidos políticos nessa reinvenção e consolidação democrática, a coluna de Giovana Bonamim apresenta as limitações e dificuldades que mulheres e LGBTs ainda enfrentam dentro das estruturas partidárias.

 

E pra não dizer que não falamos de nabos, Marcos Visnadi traçou o perfil de Hilda Hilst, brasileira e poeta.

 

Nunca mais?

 

Se os estados modernos são fundados no monopólio do uso legal da violência, podemos dizer que a ditadura brasileira não inventou uma forma própria de resolver os conflitos políticos. Apenas sistematizou e consolidou a tortura, o assassinato, o desaparecimento e a violência simbólica como mecanismos de manutenção da ordem e da estabilidade.

 

A retomada democrática não suprimiu a violência estatal. Trinta anos depois do fim do último governo militar, vemos casos como de Claudia da Silva Ferreira que, baleada por policiais militares e arrastada por seus algozes no porta-mala de uma viatura, entrou para a enorme lista de pessoas desaparecidas e assassinadas pelo Estado ao longo da história do Brasil.

 

Os policiais indiciados pelo assassinato de Claudia respondem ao processo em liberdade. Segundo a juíza da Auditoria da Justiça Militar, que determinou a liberdade provisória dos assassinos, “por mais fortes, chocantes e, até mesmo revoltantes que sejam as imagens da senhora Cláudia Ferreira da Silva [sic], (…) dos termos dos autos do APF [auto de prisão em flagrante] não é possível inferir que os policiais militares presentes na viatura conheciam tal circunstância e a ignoraram. Ao contrário, o que mostram as imagens é que a viatura parou e dois policiais desceram para a colocarem de volta no interior da viatura”.

 

Não mereço ser estuprada, não mereço ser arrastada

 

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Homenagem de Cecília Silveira a Claudia da Silva Ferreira, que integra o projeto artístico 100 Vezes Claudia, do ThinkOlga

 

Março termina intenso após a publicação de um relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) no último dia 27 de março, no qual 58,5% das pessoas entrevistadas afirmaram que se a mulher soubesse se comportar haveria menos estupros. “Eu não mereço ser estuprada” é o que Sueli Feliziani, Dona Neusa Sueli e todas as Geni gritam.

 

Esta edição é dedicada a Claudia da Silva Ferreira e a todas as vítimas do aparelho repressivo estatal brasileiro, seja em contexto ditatorial ou democrático.

 

Coletivo Geni, abril de 2014

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