Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Por um marxismo queer de periferia – Parte 4

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Querer estranhar, ou teoria queer. Por Lia Urbini

“Não escrevo, não falo! – para assim não ser: não foi, não é, não fica sendo! Diadorim… […] Diadorim era o corpo de uma mulher perfeita… Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. […] Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não ascende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero. […] Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. […] E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo: – ‘Meu amor!…’. Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.”

João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas

“Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural.
Nada deve parecer impossível de mudar.”

Bertolt Brecht, “Nada é impossível de mudar”

 

Queer. Se lê “cuir”. /kwɪəʳ/. Pra alguns brasileiros, o termo não é tão desconhecido. Talvez para (alguns dos) que possuam TV a cabo – e que talvez tenham assistido ou ouvido falar do seriado estadunidense/canadense Queer as folk –, para (alguns dos) universitários ou para (alguns dos) LGBT(Q)s. Estima-se que, em 2013, cerca de 10% da população brasileira tenha TV por assinatura, coincidentemente o mesmo percentual dos que possuem ensino superior completo e dos que se declaram LGBT(Q). Como há uma grande chance dos dois primeiros critérios se fundirem (ter TV a cabo e ser universitário), no máximo teríamos 20% da população que não estranharia o termo queer – mas também teríamos que subtrair xs LGBT(Q)s assinantes ou universitários desse resultado.

 

Se considerássemos xs brasileirxs que dominam a língua inglesa, contaríamos apenas 5% da população. E, contabilizando os números dos que leem livros e revistas pela internet (alguns desses, lendo a Geni e outras revistas amigas), apenas 4%. Portanto, estou considerando as maiores chances de aproximação de alguém ao termo: a partir das vivências que pelo menos alcançam dois dígitos na porcentagem (e, se a próxima novela da Globo inserir esse tema entre as suas polêmicas, eu escrevo uma nota de revisão). A metodologia aqui utilizada é obviamente esdrúxula, mas acredito que ela possa nos dar um indício sobre as condições de aclimatação de teorias estrangeiras ao nosso cotidiano.

 

Tá me estranhando?!

 

Agora, um contraponto que talvez nos permita achar pertinente falar de teoria queer por aqui (e também nos dar pistas de como falar): quantos de nós já não ouviram a famosa frase “Iiiih… Tá me estranhando!”? Principalmente os LGBT(Q)s, ok, 10%. Mas estes provavelmente ouviram isso de alguém pertencente aos 90% que se declaram heterossexuais. Ou seja, a ideia de queer (que em inglês significa estranho, esquisito, mas que também é utilizado pejorativamente com sentido próximo a “bicha louca”, e agora é reivindicado por setores LGBT(Q)s para designar um determinado conjunto de estudos), em seu sentido geral e traduzido, parece ser compartilhada por um público brasileiro mais abrangente do que os 10% que talvez adotem essa denominação.

 

A designação “teoria queer” ainda não tem tradução para o português. Um dossiê feito pelos Cadernos Pagu foi lindamente chamado de “Quereres – sexualidades disparatadas”, mas esse título reduz o “estranhar” do queer à dimensão da sexualidade. Serviu ao propósito da revista, no entanto pode não traduzir bem a ideia mais geral dessa corrente de estudos. Como poderíamos definir essa ideia?

 

Em entrevista concedida na Holanda, publicada na Revista Estudos Feministas de 2002, a filósofa estadunidense Judith Butler, uma das principais referências nos estudos queer, enfatiza que o “abjeto”, (e talvez, por extensão nossa, o queer), “não se restringe de modo algum a sexo e heteronormatividade. Relaciona-se a todo tipo de corpos cujas vidas não são consideradas ‘vidas’ e cuja materialidade é entendida como ‘não importante’”.

 

Estudos das “minorias”, então? O sociólogo brasileiro Richard Miskolci, em seu excelente artigo “A teoria queer e a sociologia: o desafio de uma analítica da normalização”, sintetiza a diferença entre as propostas unificadas sob o rótulo de queer e os estudos das minorias, ou das identidades minoritárias, e contextualiza a discussão no cenário brasileiro.

 

Os teóricos queer questionam o que chamam de “lógica minorizante”, ainda dependente da ancoragem em identidades mais ou menos fixas, e dão prioridade à tarefa de questionar os pressupostos normalizadores estabelecidos na sociedade. Em outras palavras, em vez de mapear as formas de existência e resistência subalternas – como grande parte dos estudos gays, lésbicos, feministas, negros, entre outros, que de alguma forma contribuiriam para a construção de uma identidade “desviante” que se forja em oposição à identidade “majoritária” –, a teoria queer se concentra em uma pergunta anterior: em que se assentam os critérios que tornam possível a classificação hierarquizada das diferenças em questão? Precisamos assumir uma “identidade do contrário” para disputar o jogo das existências ou podemos partir para uma política e teoria pós-identitária? Quais são as consequências desse questionamento das identidades para a prática política?

 

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Queer ou não

 

Na seção Instrumental da Geni nº 1, detalhei mais especificamente alguns aspectos dessa construção e desconstrução da identidade na luta política feminista e lésbica. O que está em questão é a possibilidade de nos afirmarmos como sujeitos provisórios, circunstanciais e atravessados (o sujeito pós-estruturalista) no cotidiano, pra que não se crie apenas uma teoria de vanguarda. Para que não se faça teoria com o intuito de ganhar um troféu num concurso de belas metáforas, mesmo porque, se for assim, a batalha já começa perdida (basta olhar a vida, com as melhores delas).

 

Estar queer no ambiente da TV a cabo, da militância teórica LGBT(Q), da proficiência em inglês e das revistas virtuais é muitas vezes algo descolado. No sentido da gíria (algo cool), mas também no sentido de desassociado do universo dos 90% (o que muitas vezes é bastante relacionado, ser cool e ser diferente). Mas, em muitos outros lugares, ser diferente não é tão fácil ou desejável assim. E questionar a criação de identidades do avesso pode ser algo ousado e inapropriado – com as delícias e potências de questionar a norma do próprio –, mas também pode ser falta de estratégia, cagada, tiro no pé. Escolher um ou outro caminho depende de muita coisa.

 

No debate sobre identidade e diferença, o estudioso da educação Tomaz Tadeu da Silva afirma: “[A] identidade, entretanto, é predicativa, propositiva: x isso. A diferença é experimental: o que fazer com x”. É uma ideia análoga a outra, que também parece bem presente nos cursos de pedagogia, quando querem te mostrar a importância de algumas interdições no processo educacional: “‘Não pise na grama’ é bem mais libertador do que ‘Pise na calçada’”. Considero todas essas proposições e me sirvo delas com alguma frequência. Mas aderir ao Fla-Flu entre identidade e diferença, entre construção e desconstrução, parece, aí sim, criar uma identidade da diferença, em vez de colocar os problemas concretos em perspectiva histórica. Parece escolher uma teoria por sua consistência, beleza ou pretensa radicalidade interna, e não por sua capacidade de auxiliar na interpretação dos problemas e não problemas da vida.

 

A teoria queer possui essa raiz comum com os estudos culturais nos chamados estudos subalternos, que fazem essa espécie de crítica sobre os discursos hegemônicos na cultura ocidental. Como situa Miskolci, esses estudos remontam aos esforços de Gramsci e de outros setores do marxismo, a partir dos anos 1950, de contrarrestar a tendência economicista e totalitária predominante no marxismo enquanto doutrina oficial do partido stalinista. Por outro lado, ela também é herdeira do desconstrutivismo, de uma desconfiança com relação aos sujeitos estáveis. Nesse sentido, entendo que os estudos queer partem de inquietações teóricas e práticas, e podem contribuir enquanto teoria (como interpretação do real) e enquanto prática (como incorporação em situações empíricas das interpretações do real) ao não se pretender fora da história. Ao comprometer a crítica às identidades fixas com o processo social de combate às normalizações excludentes.

 

Em oposição ao multiculturalismo, a teoria queer não procura apenas a afirmação do diferente, desse outro inventado enquanto outro, “uma postura apaziguadora na qual ‘as diferenças (de gênero, sexuais ou étnicas) são toleradas ou são apreciadas como curiosidades [multiculturais] exóticas’” (Guacira Lopes Louro, citada por José Eduardo Szwak). Ao provocar a interrogação sobre o processo de construção das identidades e das diferenças, a teoria queer, junto com xs queer, pode criar o terreno para essas identidades instáveis.

 

Para saber mais:

 

Pesquisadores no mundo: Gloria Anzaldua, Judith Butler, Beatriz Preciado, Steven Seidman, Teresa de Lauretis. Especificamente no Brasil: Larissa Pelúcio, Richard Miskolci, Guacira Lopes Louro, Berenice Bento.

 

Blogue: Ponto Q (Richard Miskolci): http://www.ufscar.br/cis/categoria/ponto-q/

 

Livros e artigos:

LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaio sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

LOURO, Guacira Lopes. Teoria queer: uma política pós-identitária para a educação. In: Revista Estudos Feministas, ano/volume 9, nº 2, 2001, p. 541 a 553. Disponível em: http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/381/38109212.pdf.

SALIH, Sara. Judith Butler e a teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2012. (Ver também resenha em quadrinhos sobre esse livro e a teoria queer por Laerte maravilhosx, infelizmente hospedada no site da Bolha de São Paulo.)

BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

PEREZ PINO, Nádia. A teoria queer e os intersex: experiências invisíveis de corpos des-feitos”. In: Cadernos Pagu, nº 28. Campinas: Unicamp, 2007. pp. 149-176. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/cpa/n28/08.pdf.

GROSSI, Miriam Pillar. Masculinidades: uma revisão teórica. In: Antropologia em primeira mão, nº 1. Florianópolis: UFSC, 1995. Disponível em: http://www.antropologia.ufsc.br/75.%20grossi.pdf.

 

Leia outros textos de Lia Urbini seção Instrumental.

Ilustração: Paloma Franca Amorim.

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