Geni é uma revista virtual independente sobre gênero, sexualidade e temas afins. Ela é pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acadêmicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libertários e com a luta pela igualdade e pela diferença. ISSN 2358-2618

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Não quer calar

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Seguimos na busca por respostas e perguntas

No dia 31 de julho, Ricardo Ferreira Gama foi agredido por policiais (supostamente após ter respondido a uma ofensa deles) em frente à unidade central da Universidade Federal de São Paulo em Santos, onde trabalhava como funcionário terceirizado. No dia seguinte, não só ele, mas também estudantes que haviam presenciado e registrado as cenas de agressão foram perseguidos e intimidados pela polícia. Na madrugada do dia 2 de agosto, Ricardo foi assassinado em frente à sua casa por quatro homens encapuzados, que o balearam oito vezes.

 

A pergunta “Quem matou Ricardo?”, que se soma a “Onde está o Amarildo?” e a tantas outras sem resposta, é mais do que uma busca pela identidade dos assassinos. É uma denúncia da caixa-preta do Estado brasileiro – autoritário, terrorista, sustentado por sanguinários que agem sob a tutela de empresários e políticos sorridentes.

 

Essa treva, no entanto, não é exclusiva do clima nacional. Também no mês de agosto, a soldado Chelsea Manning, responsável por vazar uma caixa-preta de proporções muito maiores – a da política externa dos Estados Unidos, revelada pelo Wikileaks em 2010 –, foi condenada a 35 anos de prisão. Sendo mulher transexual, Chelsea é vítima do terrorismo de Estado não só por ser uma presa política, mas por estar especialmente submetida à transfobia e ao machismo do Exército e da Justiça estadunidenses.

 

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O que descobriríamos se todas as caixas-pretas fossem abertas? Será que saberíamos quem sequestrou e torturou manifestantes no Recife? Será que encontraríamos novos responsáveis pelo massacre na Síria? E descobriríamos, enfim, o nefasto vértice que une a opressão de gênero às violências institucionais de governos e empresas? Acuadas ao redor de um centro mascarado, covarde, as margens são muitas, diversas, às vezes amorfas e opostas. E, dependendo do momento, se encontram. Precisamos estar atentxs a esses encontros, pois é deles que saem as perguntas mais urgentes, cujas respostas nos são negadas.

 

Nós, na Geni, continuamos querendo encontros. Este mês, entrevistamos a radialista Gerô Barbosa, líder de audiência da comunidade de Heliópolis, em São Paulo, e traçamos o perfil do cineasta Daniel Ribeiro, diretor do curta Eu não quero voltar sozinho, causador de polêmicas que evidenciam a homofobia nacional. Trilhando caminhos muito distintos, tanto Gerô quanto Daniel se encontram num ativismo que, para conquistar seu espaço, junta comunicação, arte e política. Nessa esquina também estão o escritor estadunidense Gore Vidal, de quem Pedro “Pepa” Silva resgata o ensaio “Sexo é política”, e as Krudas Cubensi, dupla cubana de hip-hop que teve sua passagem pelo festival Ladyfest registrada por Lia Urbini.

 

Agosto também foi o mês em que o debate sobre midiativismo bombou no Brasil. A Geni está engatinhando nisso, mas já quer começar a rebolar. Por isso, este mês abrimos pra discussão uma das escolhas que temos feito em nossos textos: o po-lê-mi-co uso do xis para bagunçar o binarismo de gênero na língua escrita. Achamos que expor os nossos próprios critérios editoriais para xs leitorxs é o mínimo a fazer, se queremos uma comunicação franca, se queremos pensar – e agir – juntx.

 

Ainda há muito a ser feito e pensado. Aos Ricardos e Amarildos, somam-se as travestis cruelmente assassinadas todos os dias e milhares, milhões de mulheres silenciadas no mundo todo. A quantidade de vozes caladas é desesperadora. Há muito a ser ouvido – e muito mais a ser questionado. Com a escuta atenta, seguimos na busca dessas novas perguntas.

Marcos Visnadi
Setembro de 2013

PS. Não deixe de assistir ao debate que fizemos na USP com a nossa entrevistada da edição passada, Eliane Robert Moraes. Está disponível em quatro partes no nosso canal no Youtube!

Ilustrador convidado: Gunther Ishiyama.

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